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O olho de Fouché

No momento em que se reabrem os arquivos secretos dos regimes militares do Cone Sul, tentando estabelecer a possível colaboração entre os vários organismos de informação e repressão que atuaram na década de 1970, durante os chamados Anos de Chumbo, é interessante recuar na história e saber como a moderna polícia política deu seus primeiros passos, em 1799, na França napoleônica, com Joseph Fouché.


J.Fouché ( 1759-1820), fundador da moderna policia política [gravura: Central Missouri State University, CMSU ]

"...embora por muito tempo investido de um poder oculto terrível, dele apenas me servi para acalmar as paixões, dissolver os partidos e evitar revoltas" - Joseph Fouché, Ministro da Polícia

Disse Júlio César ser Cássio (o conspirador que mais tarde o matou), uma "figura extenuada e faminta. Pensa demais! Semelhantes homens são perigosos!...gostaria vê-lo mais gordo... lê muito, é um grande observador". O mesmo, talvez, diria Napoleão do seu Ministro Joseph Fouché, o fundador da moderna polícia política (em novembro de 1799). Se ele era desprovido de carnes como Cássio, sobrava-lhe a frieza necessária para executar suas missões secretas. Nascido em Nantes em 1759, chegou a roçar por uns tempos um seminário dos Padres Oratorianos. Em 1792, elegeram-no representante na Convenção de Paris, onde militou entre os extremistas.

Radical, Fouché foi implacável durante o Terror de 1793-4. Quando o enviaram para limpar a região de Nantes à Lyon da presença contra-revolucionária, não poupou pólvora. Chamaram-no le mitrailleur de Lyon, o metralhador de Lion, por ser o responsável por 1.906 execuções. Em 1794, percebendo que Robespierre tornara-se um assassino incontrolável, conspirou contra ele com Barras, Cambon, e o grande Carnot, seus colegas deputados que derrubaram o tirano no Golpe do Termidor (27 de julho de 1794). Nos anos que se seguiram a queda do regime jacobino, Fouché tratou de apagar suas ligações com os possessos. Esfumou-se. Aprendera a evaporar-se.

Enquanto isso, das sombras, acompanhou a estrela ascendente do jovem general Bonaparte. O retorno de Fouché ao primeiro plano da política foi surpreendente. Estava entre os que articularam com o aventureiro corso a derrocada do regime do Diretório e a implantação, por meio de um golpe, do Consulado. Com o astuto Talleyrand de um lado, e os dois milhões de francos do banqueiro Collot do outro, Fouché consagrou-se entre os notáveis do governo napoleônico.

Nomeado Ministro da Polícia do Consulado, revelando-se policial eficientíssimo, desvendou em pouco tempo o caso da "maquina infernal", uma carroça com explosivos que, por pouco, não tirou a vida do cônsul em 24 de dezembro de 1799, quando Bonaparte ia à Opera deliciar-se com um oratório de Haydin. Bastou-lhe a distribuição de um par de mil luízes para que os nomes dos seguidores do monarquista Cadoudal, o mentor do terrível empreendimento, viessem parar sobre a sua escrivaninha. Napoleão embasbacou-se. Deu-lhe então carta branca.

Fouché não se fez de rogado em exercitar o seu gênio sinistro. Como um enorme aracnídeo aninhado em Paris, espalhou suas teias longas e finas por toda aldeia, vila ou cidade da França. Os seus olhos e ouvidos, tudo viam e tudo sabiam, registrando qualquer detalhe nos seus intermináveis dossiês. Durante seis dias da semana preparava um relatório especial para o imperador onde seguramente mais de vinte itens eram avaliados por ele (intrigas palacianas, reação às novas medidas governamentais, o pregão da bolsa de valores, as deserções no exército, a prisão de agentes estrangeiros, o resultado dos interrogatórios, novos crimes, as ofensas ditas pelos soldados, os incêndios, as rebeliões contra a polícia, o resultado da correspondência interceptada, a reação do público com as novas vitórias militares, o conteúdo da correspondência interministerial, quais as pessoas detidas ou colocadas sob vigilância especial, etc..). Recrutou, para isso, um número considerável de mouchards, de informantes, das mais diversas classes sociais. Fossem eles lacaios, porteiros, zeladores ou mariposas, não importava. Todos eram relevantes aos olhos de Fouché. Até, dizem, a própria Josefina, a imperatriz, sempre sequiosa por dinheiro, que prestava seus serviços a Fouché, trazendo-lhe pessoalmente a intrigalha da corte.


Josefina Bonaparte, uma das comissionadas de Fouché
Era um aguçado cão do estado farejando as conspirações à distância. Por ter militado na hostes dos terroristas, conhecia pessoalmente a maioria deles e não hesitou em jogá-los nos calabouços das maison de police, ou enviá-los em degredo para as selvas da Guiana. Era notável a sua capacidade de filtrar as informações. Como se fora um leitor de Freud, sabia dar sentido as palavras soltas, ditas ao acaso num salão, num jantar, ou numa alcova, associado-as a alguma perturbação futura ou possível complô.

Essa atenção para ao controle de tudo é que o teria levado a dizer que "não é mais o Terror, mais unicamente o conhecimento das coisas, que, em 1799, governa a França". A guilhotina, como observou Stefan Zweig, um dos seus biógrafos, inventada para reprimir os intentos contra o estado, "é um instrumento grosseiro comparado ao mecanismo policial refinado "que Fouché dispunha.

Os trânsfugas, os que haviam abandonados seus ideais, como o ex-padre "vermelho" Desmaret, e Dubois, o seu segundo, eram seus melhores agentes. Um dos seus achados foi François Eugène Vidocq, um espertíssimo ex-correcional que ele transformou em chefe das investigações da Sûreté, a célebre policia civil, fundada em 1810. Balzac, impressionado com Vidocq, colocou-o em vários episódios da Comédia Humana como Vautrin, um ambíguo gênio do mal, e, em oportunidades outras, ainda que a contragosto, rendeu-se à eficiência da gente de Fouché (ver "Un ténébreuse affaire", de 1838-40). Victor Hugo, por sua vez, nele se inspirou para construir o inesquecível personagem do Inspetor Javert, um implacável agente da lei que jamais deixava um perseguido em paz. Dotado de orçamento próprio, extorquindo "les établissements de plaisir", os bordéis e os cabarés, o Ministro da Polícia fez com que as casas de tolerância financiassem a perseguição intolerante que movia contra os adversários do regime.

Fouché, um burocrata cinzento que espionava todo o mundo atrás das cortinas e que dominava a arte de saber fazer confessar até os lençóis e os travesseiros, inspirou a maioria das policias de consciência que surgiram nos últimos dois séculos. Por detrás da Tcheka dos bolcheviques, da Gestapo dos nazistas, da Stasi dos comunistas alemães, do Dops brasileiro, da Dina de Pinochet, esteve sempre a fantasmagórica mão ossuda, bisbilhoteira e implacável, de Fouché. Até do FBI de J.H. Hoover, porque, como se sabe, nem a mais sólida das democracias resistiu a sedução de espionar e chantagear os seus cidadãos.



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