Padre Helder
"não vos alegreis porque os espíritos se vos submetem; alegrai-vos , antes, porque vossos nomes estão inscritos no céu." - (Lucas,10)
Sabe-se que há séculos existem duas igrejas. Uma delas é a Igreja-poder, a Igreja-estado, coisa temporal, governada pelos príncipes eclesiásticos, aqueles de mão rechonchuda, com anelão no dedo gasto a beijo devoto. De batina lustrosa e crucifixo de ouro no peito engomado, enfiados em meias vermelhas ou em faixa roxa, são íntimos das cortes, dos palácios governamentais, e comensais gulosos da farta mesa dos mandões do mundo. Os críticos dessa igreja dos padres gordos, fossem eles Wickleff, Voltaire ou Marx, sempre acusavam-na de fechar-se em dogmas, opiando os crentes com milagres, santinhos e aparições, cercando-se de beatice e de carolice, escondendo-se do mundo por detrás dos largos muros das sés.
A outra igreja lhe é bem mais antiga, e bem diferente. É a das catacumbas. A que sobreviveu às loucuras de Nero e à polícia de Domiciano, quase dizimada nas arenas romanas em meio aos aplausos carniceiros. Estes evangelistas dos primeiros tempos, que “imprimiram na sua crença o selo do sacrifício voluntário”, deram os seus nomes a maior parte do calendário litúrgico conservado até hoje. Trata-se, segundo Daniel-Rops, da Igreja dos Mártires, a que fez a Revolução da Cruz. É a Igreja de Cristo, a que está mais próxima da ação do Crucificado, defendendo os desgraçados, peitando os poderosos, talvez a única responsável pelo prestígio que a outra igreja usufrui até hoje.
Na América Latina, desde os primórdios da conquista tivemos eminentes sacerdotes das duas igrejas. Escusado dizer que os que ficaram e ficarão na memória coletiva das gerações são os da Igreja de Cristo, a dos clérigos que sonham em reparar os erros e as omissões sociais de Deus. Como, por exemplo, o bispo de Chiapas, o Padre Bartolomeu de Las Casas, o Apostolo dos Índios, que denunciou o morticínio dos nativos perpetrado pelos colonizadores, tratando de salvá-los do cativeiro e da morte. E mesmo em Pernambuco, nesta mesma Olinda de D.Helder Câmara consagrou-se lá, há três séculos atrás, o Bispo D. Mathias de Figueiredo e Mello, por sua dedicação aos desvalidos, desde que assumiu a prelazia da vila em 1688.
Escandalizado pela penúria com que se deparou - o choque que todo o decente sofre lá ao ver a exuberância tropical contrastando com o mais espantoso pauperismo - acentuada ainda mais pelos vampirismos do latifúndio escravista, D. Mathias tratou de trazer, vezes sem conta, barcaças de farinha das longínquas barrancas do São Francisco para aliviar a fome dos olindenses, sem nada guardar para si. Um padre que, como D.Helder, logo atraiu os trovões do poder temporal, no caso, representado pelo seu desafeto o Marquês de Montebelo. D. Mathias, um bispo magro, infelizmente arremeteu-se aos céus ainda jovem, aos 40 anos de idade.
As adversidades do Padre Helder, como ele gostava que o chamassem, o D. Mathias da nossa época, foram bem mais intensas. Além da miséria, que é essa praga perpétua rogada aos pobres do Brasil, enfrentou a partir de 1964 uma poderosa máquina burocrática-militar que sufocava qualquer coisa que lhe parecesse rebeldia ou subversão. Em roupeta simples, pequeno, magrinho, mas de inebriante e sedutora oratória - acompanhada sempre por inquietas mãos mágicas, peregrinou ele pelo mundo nas décadas de 60 e 70 sem quase nenhum respaldo, denunciando os padecimentos do país atemorizado, onde os que viam, nada ouviam; se ouviam, nada diziam. Por isso foi um dos únicos brasileiros a quem cogitaram dar um Prêmio Nobel, o da Paz.
Lotou inúmeras vezes as salas de conferencia em Paris, em Londres, em Berlim, em Roma, em Viena, e mesmo as das cidades americanas, com pequenas multidões que acorriam a assistir a sua indignação de profeta cristão. E, nos olhares da platéia fascinada sentia-se que a igreja daquele padre magro, a Igreja de Cristo, não estava morta. Que pelo menos na presença dele ela não era uma miragem. E, como prova que sua existência foi consagradora, transitando em todas as esferas, ambas as igrejas no Recife - a do Poder e a de Cristo - rezaram-lhe missas pelo seu passamento em locais bem separados.