Darwin , o Marx dos americanos
"Porque alguns americanos, tão darwinistas no mundo comercial, preferem acreditar que a vida começou no jardim do Éden?" - The Economist, 21.8.1999
 Charles Darwin, o profeta dos americanos |
Marx leu "A Origem das Espécies" de Charles Darwin em 1860, um ano depois do livro tornar-se o primeiro best-seller da literatura científica da idade moderna. Exultante, ele escreveu ao seu amigo Friedrich Engels dizendo que Darwin oferecia "a base histórico-natural da nossa concepção", fazendo com o mundo natural o que ele, Marx, fizera com a sociedade civil ao também interpretá-la segundo leis inteligíveis, cientificamente identificadas.
Esta admiração por Darwin - partilhada também por sua filha Jenny Marx e pelo seu genro o dr. Aveling -, fez com que ele enviasse, em 1873, um exemplar do "O Capital" para o naturalista, manifestando o desejo que Darwin aceitasse a dedicatória que pretendia lhe fazer no segundo tomo do "O Capital". Alegando impedimentos familiares - sua mulher Emma Darwin era devota - o sábio, educadamente, declinou da homenagem.
 Karl Marx, admirador de Darwin |
Observou Marx que as metáforas largamente usadas por Darwin eram extraídas de pensadores sociais ingleses: de Spencer e do pastor Malthus. Concluiu que o grande cientista descortinava o universo biológico com os olhos de quem vivia na competitiva sociedade vitoriana da sua época. O sucesso da "A Origem das Espécies" devia-se justamente a isso: o publico leitor identificava-se com expressões como "luta pela sobrevivência", "seleção natural", ou ainda "vitória do mais apto", que bem traduziam a convivência no capitalismo.
O mundo natural apresentando por Darwin era quase idêntico ao meio social dos seus leitores. As mesmas batalhas de vida e morte travadas nas selvas e nas charnecas pelos gêneros e espécies, pelos bichos, pássaros e minúsculos protozoários, reproduziam-se na intensa concorrência movida pelos agentes econômicos e pelas classes sociais.
Marx e Darwin
Marx e Darwin eram seguidores distantes do grego Heráclito para quem a vida resultava do agón, da luta. Para um deles porém esta luta era a luta de classes, para o outro era a luta pela sobrevivência. Influenciaram pois, no nosso século, sociedades opostas uma a outra. Karl Marx a dos comunistas russos e chineses, enquanto Charles Darwin fez sucesso entre os norte-americanos. É o único profeta seguido na América!
Eles, os americanos, especialmente os ianques, desde os princípios fascinaram-se por uma das conclusões de Darwin de que "os seres vigorosos, sadios e afortunados sobreviverão e se multiplicarão", a tal ponto não existir hoje sociedade ocidental mais parecida com o que ele descreveu. Em nenhuma cultua-se tão abertamente a struggle for life, a luta pela vida, celebrando o mais apto, o bem-sucedido, o winner, e desprezando o loser, o derrotado. É lá que se encontram os mais ardorosos dos seus seguidores, tais como o biólogo Ernst Mayr que afirma ser Darwin o único sábio a sobreviver ao século 21, e ainda Stephan Jay Gould, o mais notório divulgador do darwinismo nos dias de hoje.
Tornaram-no o seu maior mentor espiritual, o seu Marx, responsável indireto pelo notável avanço da biotecnologia e da engenharia genética na sociedade americana. Resultando a natureza de uma "seleção natural", como o agnóstico Darwin defendeu, e não de um gesto divino, ela pode e deve ser alterada pela mão do homem sem que ele tema incorrer em profanação. Assemelha-se, a natureza, a uma pedra de lioz a ser esculpida ou ainda a argila a ser modelada às precisões humanas.
Fundamentalistas e darwinistas
No "cinturão da Bíblia" entretanto - os estados sulistas dos Estados Unidos, agrários e pobres -, os cristãos fundamentalistas se lhe opõem, impedindo o ensino do Evolucionismo nas escolas públicas, como deu-se agora no Kansas. Desde a "guerra do macaco", o Caso Scopes, ocorrido no Tennessee em 1925, eles insistem em apresentar o Criacionismo, baseado nas poéticas palavras do Gênese, como a única versão verdadeira e não como metáfora. De certa forma nada disso afeta no geral, porque a resistência deles dá-se numa terra de caipirões e de matutos, e não nos estados do Leste ou da Califórnia, que é de onde provém a elite pensante e científica do pais. Seja o que for é consolador para nós, dessa parte do Terceiro Mundo, saber que lá - ainda que não incinerem experiências científicas -, abrigam eles também os seus obscurantistas. Não é coisa só nossa.
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