Cervantes: o maneta de Lepanto
 D.Quixote enfrentando o moinho |
"Não estaria melhor estar-se manso e pacífico em sua casa, em vez de ir pelo mundo procurar pão fino, sem se lembrar de que muitos vão buscar lã e vêm tosquiados?" - Cervantes, D. Quixote de la Mancha, Livro I, cap. 7, ano de 1606.
As narrativas fantásticas
Mal o intrépido Amadis de Gaula entrara a trote na imaginária floresta de Angaduza, quando percebeu o retorno, esbaforido, do seu escudeiro, o anão Ardián. Implorava o pobrezinho por socorro, pois atrás dele, galopando com um espadão em riste, vinha um possesso, ameaçando decepar-lhe a cabeça. Não demorou para que Amadis e o desconhecido travassem um estridente duelo. A luta só terminou com a chegada providencial de um outro cavaleiro, que, depois de degolar uma donzela malvada que, com olhar vingativo, assistia à refrega, os fez cair em si. Ela endemoniara um deles, o jovem Galaor, para que matasse o seu próprio irmão, o afamado Amadis de Gaula. Passado o efeito do feitiço, os irmãos se reconheceram e, abraçados, saíram para mil outras aventuras.
Essa era apenas uma das tantas narrativas de duelos malucos travados entre cavaleiros que se encontravam às pencas no livro intitulado Amadis de Gaula, de autoria anônima, editado em Saragoça em 1508, cuja leitura era a fonte de inspiração dos conquistadores espanhóis que sonhavam em reproduzir as façanhas relatadas contra os índios no Novo Mundo.
O basta de Cervantes
Para o então desconhecido escritor Miguel de Cervantes, um castelhano de Alcalá de Henares, tais histórias mereciam um basta. Fartara-se daqueles relatos fantásticos em que um cavaleiro andante, num só golpe de espada, partia um gigante ao meio, ou lutava sem esmorecimento contra cem ou duzentos outros. E o que dizer da sensaboria das inatingíveis donzelas ou damas, sempre recolhidas, vendo o mundo atrás de frestados, em permanente perigo, ameaçadas por forçadores e outros perversos, que os cavaleiros se esbaldavam em salvar ou pôr-se a serviço? Para Cervantes não era bem aos cavaleiros que se deveria desencantar; nem aos bruxos, feiticeiros e nigromantes, seus pervertidos dons extirpar, mas sim ao próprio público leitor, bestializado por aqueles feitos malucos.
Quem era Cervantes
Qual seu arsenal para se atrever a tal desafio? Sabe-se pouco sobre Cervantes. Nascido em 9 de outubro de 1547, tentou alcançar a fama como soldado. E quase o conseguiu. Na infernal batalha de Lepanto, de 1571, quando a Cristandade recuperou o controle sobre o Mediterrâneo, portou-se valentemente. Só que o tiro do arcabuz de um turco lhe secou a mão esquerda.
Infelicitou-se ainda ao passar, depois de capturado, cinco anos como escravo em Argel. O pai o resgatou por 500 escudos, em 1580. Pobre e anônimo, jogou-se às letras. Na sua tarefa desmitificadora, foi ajudado por dois acontecimentos colossais: a propagação da Contra-Reforma e a destruição da Invencível Armada em 1588. Doravante o mundo não seria só dos católicos e muito menos dos espanhóis. Calejado pela vida, desconfiado das certezas humanas, forrado em leituras mil, foi à luta.
O nascimento de Dom Quixote
 D.Quixote e suas leituras |
Cervantes arquitetou, provavelmente numa prisão em Sevilha, ao redor do ano de 1600, em primorosa prosa, aquele que se tornou seu bravo agente para desencantar os encantados: o ilustre fidalgo Don Quijote de La Mancha! Endoidecido pelas leituras dos intermináveis feitos dos cavaleiros andantes da literatura medieval, aquele pobre e provinciano cinqüentão também decidiu-se por se tornar um errante, afim de "endireitar os tortos e desfazer agravos e sem-razões". Para tanto desenferrujou as armas e a armadura dos seus bisavós, às quais, no caminho para suas aventuras, acrescentou o elmo de Mambrino - uma bacia de barbeiro. -, Como todo cavaleiro andante andava montado e acompanhado, ele batizou seu pangaré de Rocinante, e tomou por escudeiro um vizinho seu, o simplório Sancho Pança. Os feitos que esperava realizar, previamente ele os dedicou à donzela Dulcinéia de Tomboso, uma simples camponesa da região em que ele vivia, mas que na sua prodigiosa fantasia de doido era a mais digna das damas.
Tudo tão irreal quanto o demais. Dom Quixote saiu da Mancha por três vezes para, "coroado pelo braço do seu valor", conquistar o quimérico império de Trapisonda. Nem um milímetro apresou nas suas insanas cavalgadas. Enfeitiçou, isso sim, com suas desastradas e hilariantes proezas, milhões de leitores pelo mundo todo, tornando-se o maior legado do humanismo espanhol em todos os tempos. Cervantes, para afastar dos leitores da época as fantasiosas façanhas dos cavaleiros andantes, para destruir um mito, fez por criar um outro: o de um pobre justiceiro louco. Um desatinado carregado de boas intenções e de generosidade, que luta incansavelmente para corrigir as dores reais e imaginárias desse mundo. Isto é, nós mesmos.
