Camus e a Revolução Relativa
Em outubro de 1951, deu-se a publicação de um livro que abalou a esquerda francesa. Tratava-se do ensaio de Albert Camus intitulado O Homem Revoltado, uma brilhante e literariamente bem articulada exposição sobre as mazelas da revolução através dos tempos contemporâneos, inclusive com reparos aos acontecimentos decorrentes de 1789. Entre outras coisas, a obra provocou o fim da longa amizade que Jean Paul Sartre mantinha com ele.
Nos Calores da Guerra Fria
"A democracia não é o melhor dos regimes. É o menos mau. Experimentamos um pouco de todos os regimes e agora podemos compreender isso. Mas esse regime só pode ser concebido, realizado e sustentado por homens que saibam que não sabem tudo, que se recusem a aceitar a condição proletária e nunca se conformem com a miséria dos outros, mas que recuse, justamente, a agravá-la em nome de uma teoria ou de um messianismo cego."
Albert Camus, novembro de 1948
Entornando um copo de vinho com Albert Camus, num daqueles bons cafés de Paris, Sartre comunicou ao amigo que em breve sairia uma crítica bem pesada na sua revista
Les Temps Modernes contra o seu último livro
L´Homme révolté,
o Homem Revoltado. Haviam se encontrado na rua indo para um destino comum. Nunca mais o fizeram. O ensaio de Camus, aparecido em 1951, há 50 anos, provocara um desconcerto geral em meio à esquerda francesa.
E não era para menos. Naqueles tempos quentes da guerra fria, com Mao Tse tung recém chegando ao poder em Pequim e os norte-americanos ameaçando explodir a Coréia, e quiçá a China Popular, com bombas atômicas, como era o desejo do general MacArthur, o famoso escritor deu-se ao desplante de repudiar a revolução. Foi um pandemônio.
Os amigos rompem
O petardo contra ele foi estrondoso. Sartre, alegando razões de amizade, passou a tarefa para um dos seus próximos, um tal de Francis Jeanson, que destratou Camus em vinte páginas. Ele respondeu. Sartre então entrou na liça, em defesa de Jeanson. "Nossa amizade", escreveu ele, "não era fácil, mas vou sentir a falta dela. Se você a quebra hoje, é, sem dúvida, porque ela devia um dia ser quebrada ..., também a amizade é totalitária: é necessário o perfeito acordo ou o corte de relações." Onze anos de convivência entre os dois foram-se em outras trinta páginas do Les Temps, nº 82, de agosto de 1952. Na verdade, o acusatório de Camus não era tanto contra a revolução, mas sim contra sua inoperância, denunciando-lhe a inutilidade.
A Inutilidade da Revolução
De que servira à França, indagara ele, ter tido três outras revoluções desde 1789, todas elas sangrentas, se os escandinavos e os ingleses, sem grandes tumultos, pelas políticas de socialistas moderados, tinham atingido um alto padrão de vida, bem superior ao dos franceses? As crítica de Camus aos destemperos das revoluções não pararam por aí, visto que acreditava que os seus líderes no poder, mais tarde ou mais cedo, se tornavam repressores ou heréticos, policiais ou loucos!
O danoso daquilo tudo é que eles adotavam uma política de crimes justificados. Prendiam, interrogavam, confinavam e, em nome de um profundo amor pela humanidade, fuzilavam. Convictos de que aqueles a quem despachavam eram ervas daninhas que precisavam extirpar do canteiro socialista para que, mais tarde, no futuro, no amadurecer da planta, ela vicejasse com todo o vigor. Enquanto isto, os campos de concentração e o tiro no pescoço eram os herbicidas que eles se viam obrigados a espargir.
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