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O azar e a sorte da Alemanha

Nesta história toda, os alemães até que tiveram sorte. Se a geografia antes lhes fora madrasta, colocando-os bem no centro de uma Europa convulsionada, envolvendo-os obrigatória e diretamente em todas as guerras lá travadas nos últimos três séculos. Ela, a posição estratégica que ocupam, os salvou de coisa pior depois de 1945. Os vencedores, tanto os americanos como os soviéticos, em crescente hostilidade, trataram de erguer e fazer prosperar o "seu" lado da Alemanha, dividido entre eles desde os tratados de Yalta e Potsdam.


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Os soldados e o muro

Pacificados pela ocupação e estimulados a voltar ao trabalho, o resultado não demorou a aparecer. A parte ocidental logo galgou a posição do país mais bem-sucedido da Europa. Em menos de um decênio, pegando no pesado, removendo as ruínas, a Alemanha reconstruíra o pais. A Oriental, por sua vez, tornou-se a mais avançada do bloco socialista. Encolhida a mão dos ocupantes 45 anos depois, ambas, como poderosos imãs, voltaram a se juntar.

Hegel e a unificação alemã


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Para Hegel só um herói unificaria a Alemanha

G. W. F. Hegel, o grande filósofo, há dois séculos, num ensaio sobre o futuro constitucional da Alemanha, o Die Verfassung Deutchlands, 1802, não apostou então nem um níquel furado na capacidade do povo alemão, ou das suas assembléias provinciais, vir a desempenhar algum dia um papel relevante numa possível unificação que se previa para o futuro (na época de Hegel, a Alemanha era um quebra-cabeça político composto por mais de 300 Estados). "Eles nada sabem em absoluto", escreveu o pensador, pois para o alemão comum a questão da unidade nacional era "algo completamente estranha". O que os alemães precisavam, disse Hegel, era de um Teseu, um estadista-guerreiro como fôra o ateniense, um conquistador capaz de organizá-los e compeli-los à unidade. Se isso foi premonitório do papel que Napoleão desempenhou durante a ocupação francesa da Alemanha (entre 1806-1813), e mesmo da ascensão do II Reich de Bismarck em 1871, o que diria o velho Hegel se visse o que o mundo testemunhou na Porta de Brandeburgo em novembro de 1989? Lá estava o povo alemão, tomando a peito a unificação, desmentindo-o.

O fim do muro


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Populares "rasgando" o muro

Irmanando-se em abraços e lágrimas nas brechas já abertas do muro - aquela altura assaltado por centenas de picaretas e martelos -, sem que ninguém tivesse ordenado, era a gente simples da cidade de Berlim que, no final das contas, pôs fim naquilo tudo. Seguiam apenas os seus sentimentos mais profundos em favor da reconstrução da unidade nacional perdida em 1945. Nenhum titã os guiava, sequer um metido a salvador da pátria arengava para eles. Não estavam armados nem furiosos, apenas davam vazão, felicíssimos, à embriagadora sensação de estarem juntos e livres novamente, talvez lembrando Nietzsche no Zaratustra, que dizia: "Todo o preso enlouquece! Também loucamente se liberta a vontade cativa."

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» Especial - A Alemanha e o Muro de Berlim

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