O Hitler de Ian Kershaw
Desde que apareceu o primeiro tomo da monumental biografia de Hitler, publicada por seu autor Ian Kershaw, em 1998, apesar das suas quase mil páginas, o livro foi um sucesso. Histórias sobre Hitler continuam exercendo um fascínio sobre o público culto em geral. No ano 2000, o trabalho completou-se com um segundo tomo, que também teve o mesmo destino, sendo bem acolhido pelos leitores e pelos críticos em geral, pois afinal trata-se da melhor biografia até hoje publicada sobre o Führer do movimento nacional-socialista.
Entre Wagner e Zaratustra
"Eu não sou senão o tambor de reunir"
Hitler, 1922
Quando foi recebido por Winifred Wagner no Festival de Bayereuth, em 1923, Adolf Hitler não resistiu em contar-lhe como a ópera Rienzi, a primeira das composições do sogro da sua hospedeira, haviam-no influenciado quando ele ainda era um rapaz. Assistira a representação por sete vezes seguidas no
Landestheater em Linz, na sua Áustria natal. Impressionado pela história de Cola de Rienzi, o líder populista romano que tentara reunificar a Itália no século XIV, Hitler foi-se para os altos do monte Freinberg, perto da cidade, para de lá baixar, em êxtase, como se fora um jovem Zaratustra, pronto a vir espalhar um novo evangelho pangermanista e racista.
Posando de profeta
Esta era uma da tantas histórias que Hitler gostava de contar a respeito da sua intuição profética, espantando seus ouvintes com aqueles relatos de como um joão-ninguém, que apenas chegara ao posto de cabo na Grande Guerra Mundial, fora acometido por certeiras premonições que terminaram por conduzi-lo a sentar-se, desde 1933, na cadeira de Otto von Bismarck, o construtor da nação alemã.
Ian Kershaw(*), o mais recente biógrafo de Hitler, um ex-medievalista inglês que impressionou-se com a história do Führer do movimento nacional-socialista, a quem dedicou dez anos da sua vida em pesquisas e mais de duas mil páginas escritas, colocou este episódio no volume primeiro do seu Hitler, 1889-1936, Hubris, dedicado aos anos de ascensão dele ao poder.
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Linz, onde Hitler passou o final da adolescência
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De Schicklgruber a Hitler
Outras coisas estranhas também o ajudaram naquela incrível trajetória, entre elas o sobrenome. O pai de Hitler, que se tornara o segundo marido da sua mãe, batizado como Alois Schicklgruber, homem de modestíssima família rural da Baixa Áustria e dono de um moinho, resolveu, em 1876, mudar o seu nome para Alois Hitler. Nada impulsionou mais a carreira do filho Adolf do que esta providencial troca de sobrenome. É simplesmente inimaginável que alguém pudesse excitar as massas alemães com os gritos de Heil Schicklgruber (seria inevitável a proximidade com a palavra Schinken="presunto", seguida da palavra Gruber="mineiro, cavador". Como supor, por ilação, as multidões gritando "Viva o enterrador de presunto"?).
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Clara, Adolf e o pai Alois Hitler
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