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Beethoven e a
Sinfonia da Utopia


Beethoven (1770-1827)

"Abracem-se milhões! Irmãos, além do céu estrelado deve morar um Pai Amado." - Schiller, An die Freude, 1786

"Consegui! Consegui! Enfim encontrei a Alegria!" Assim jubiloso, Beethoven acolheu em seus aposentos o seu secretário, um fa tutto chamado Schindler. Imediatamente sentou-se ao piano e dedilhou-lhe a façanha. Encontrara afinal a solução, busca há anos, que permitira-lhe musicar os difíceis versos da An die Freude (Ode a Alegria) de Schiller. Depois de 32 anos de hesitações, de idas e vindas, de prostrações, deu então por acabada a IX Sinfonia. Quando moço ainda em Bonn, Ludwig van Beethoven comoveu-se com o conteúdo do poema ao lê- lo em 1792, impressionando-se para sempre com a maravilhosa exaltação à fraternidade humana dos versos de Schiller.

A origem da Ode à Alegria


Schiller (1759-1805), autor da letra da IX Sinfonia

O poeta compôs a Ode para que um amigo seu, um franco-mação, a cantasse com seus companheiros nas lojas da irmandade. Schiller, em apenas 18 belíssimas estrofes, celebrava os valores do iluminismo (o cosmopolitismo, a superação das desavenças nacionais, a pregação da tolerância, e a consciência de pertencer-se a um mundo só). Beethoven, na época um entusiasta republicano, embebido pelos ideais da Revolução Francesa de 1789, sentiu-se tentado em transformar o que lera em algo imorredouro.

Beethoven republicano

Como tantos outros artistas e filósofos alemães do seu tempo, como Kant, Hölderin, Hegel, Fichte e Schelling, ele inicialmente fascinara-se por Napoleão. Quando, porém, o general republicano coroou-se imperador em 1804, Beethoven desencantou-se. Num acesso de fúria rasgou a dedicatória que lhe fizera na IV Sinfonia.

A metamorfose da revolução num opressivo império que passou a submeter quase todo o continente europeu, fez brotar em Beethoven sentimentos adversos. A gradativa inclinação dele pelo patriotismo alemão (a Alemanha fora ocupada por Napoleão até o levante de 1813) o conduziu a uma posição mais conciliadora para com os conservadores, o que o fez com que fosse vivamente aclamado pelos reis e altos dignitários quando compareceu para reger um espetacular concerto naquela grande festa da aristocracia e do absolutismo que foi o Congresso de Viena de 1814-5 (o congresso que encerrou com o domínio napoleônico).

O artista-rei

Esta aproximação com os poderosos da época tinha outra razão de ser, não decorrente apenas da sua decepção política. Beethoven foi o primeiro dos grandes músicos europeus a ter consciência da sua importância social (é bom lembrar que na geração anterior, o extraordinário Mozart, depois de ter encerrado a função de músico solista no palácio, fazia as refeições junto ao restante da criadagem). O sucesso artístico e a retumbância internacional das suas composições, convenceu-o de que ele, Beethoven, também fazia parte de uma nobreza, a nobreza dos talentos, tão exaltada pela Revolução de 1789. O que Napoleão conseguira comandando o exército francês, ele alcançara com as sinfônicas e com a batuta de maestro.

"Eu também sou um rei", respondeu ele certa vez cheio de si a um soberano alemão. Deu-se a freqüentar os grandes como um seu igual e não como um servidor, como Haydin e Mozart o fizeram antes dele. O estipêndio que recebia dos aristocratas, sabe-se, nunca afogou o republicanismo de rapaz pobre, filho do mestre da capela de Bonn, que acreditava na fraternidade humana.


Casa de Beethoven (Heiligestadt, 1824)

A Nona Sinfonia

Retirado para um lugarejo próximo a Viena chamado Heiligestadt, onde morava já há alguns anos (foi lá que Beethoven, num momento de depressão, redigiu seu testamento em 1802), Beethoven concluiu a sua obra-prima em fevereiro de 1824. A IX Sinfonia revelou-se extraordinária. Dotara-a de uma tal retumbância heróica que só ele até então conseguira dar à música alemã. O público, desde a primeira audiência, ocorrida no Kärntnertor Theatre de Viena em 7 de maio de 1824, maravilhou-se O passado, o tumulto revolucionário, aflora em vários momentos ao longo da execução, mas sua beleza deve-se ao seu carisma. É uma apologia aos tempos futuros, à morada do Elísio, ao devir, quando então seremos um mundo só.


O Teatro Kärntnertor, onde apresentou-se a IX Sinfonia (maio de 1824)

O Hino da Humanidade

Apesar da obra ter sido dedicada ao rei Frederico Guilherme III da Prússia, que como todos os monarcas da sua época era hostil aos ideais de liberdade, a obra-prima de Beethoven apresenta o paradoxo de ser entendida como um hino da emancipação do mundo europeu dos tempos feudais, liberto da tirania e das cargas da servidão. A alegria, pois, que a IX Sinfonia exalta não se perdera num tempo remoto, numa Arcádia sem volta. Ao contrário, a alegria, a felicidade, estão ao nosso alcance logo ali em frente, bastando que superemos as nossas estreitezas culturais e a mediocridade política que nos cerca. Entende-se porque a atual União Européia (hoje maioritariamente republicana e democrática), escolheu a IX Sinfonia como o seu hino oficial. Mesmo com os percalços que iremos sofrer aqui e ali para chegarmos ao governo universal no século XXI, a IXª Sinfonia continuará sendo o maravilhoso fundo musical para que as Filhas do Elísio sintam-se estimuladas a estender seus braços fraternos enlaçando a humanidade inteira.


A IX Sinfonia foi um hino à liberdade (A liberdade conduzindo o povo, de Delacroix)

A Ode à Alegria (Schiller) Versão para o Inglês
O Freunde, nicht diese Toene!
Sondern lasst uns angenehmere anstimmen und freundenvollere!
Freude,schoener goetterfunken,
Tochter aus Elysium,
Wir betreten feuertrunken,
Himmlische dein Heiligtum.
Deine Zauber binden wieder,
Was die Mode streng geteilt;
Alle Menschen werden Brueder,
Wo dein sanfter Fluegel weilt.
Wem der grosse Wurf gelungen,
Eines Freundes Freund zu sein,
Wer ein holdes Weib errungen,
Mische seine Jubel ein!
Ja - wer auch nur eine Seele
Sein nennt auf dem Erdenrund!
Und wer's nie gekonnt, der stehle
Weinend sich aus diesem Bund!

Freude trinken alle Wesen
An den Bruesten der Natur,
Alle Guten, alle Boesen
Folgen ihre Rosenspur.
Kuesse gab sie uns und Reben,
Einen Freund, geprueft im Tod,
Wollust ward dem Wurm gegeben,
Und der Cherub steht vor Gott.
Froh, wie seine Sonnen fliegen
Durch das Himmels praecht'gen Plan,
Laufet, Brueder, eure Bahn,
Freudig wie ein Held zum Siegen.
Seid umschlungen, Millionen!
Diesen Kuss der ganzen Welt!
Brueder - ueberm Sternenzelt
Muss ein lieber Vater wohnen.
Ihr stuerzt nieder, Millionen?
Ahnest du den Schoepfer, Welt?
Such ihn ueberm Sternenzelt,
Ueber Sternen muss er wohnen.
O friends! Not these sounds! But let us strike up more pleasant sounds and more joyful!
Joy, o wondrous spark divine,
Daughter of Elysium,
Drunk with fire now we enter,
Heavenly one, your holy shrine.
Your magic powers join again
What fashion strictly did divide;
Brotherhood unites all men
Where your gentle wing's spread wide.
The man who's been so fortunate
To become the friend of a friend,
The man who has won a fair woman -
To the rejoicing let him add his voice.
The man who calls but a single soul
Somewhere in the world his own!
And he who never managed this -
Let him steal forth from our throng!
Joy is drunk by every creature
From Nature's fair and charming breast;
Every being, good or evil,
Follows in her rosy steps.
Kisses she gave to us, and vines,
And one good friend, tried in death;
The serpent she endowed with base desire
And the cherub stands before God.
Gladly as His suns do fly
Through the heavens' splendid plan,
Run now, brothers, your own course,
Joyful like a conquering hero
Embrace each other now, you millions!
The kiss is for the whole wide world!
Brothers - over the starry firmament
A beloved Father must surely dwell.
Do you come crashing down, you millions?
Do you sense the Creators presence, world?
Seek Him above the starry firmament,
For above the stars he surely dwells.



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