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O Ano Mil

Sacerdotes, cavaleiros e servos

O Mosteiro e o Paraíso: não estava ainda difundido entre os homens daquela época a idéia do Purgatório que, segundo Jacques Le Goff, só consolidou-se mais tarde, a partir do século 13. O Outro Mundo na concepção deles, dividia-se radicalmente entre o Inferno, a morada do Diabo, e o Paraíso, a instância de Deus. A masmorra e o mosteiro eram, aqui na terra, no mundo real, o símbolo edificado desses contrários. Se a possibilidade de tornar-se súdito do Reino de Satanás assustava os crentes, era o Paraíso que os fascinava.

Viam-no, segundo o relato de Gregório de Tours, "como uma casa toda branca", outros, um local de "grandes e altos muros, esplandecentes: era a Jerusalém Celeste", uma cidade-refugio capaz de abrigar todo o povo de Deus. Em tal concepção de Paraíso, síntese entre a casa pura e iluminada e a cidade perfeita, é que se estruturou o Mosteiro, centro da vida social, cultural e religiosa da cristandade européia no Medievo. Ele era a reprodução terrena do que se supunha ser a vida no céu: uma imitação do Paraíso. Para tanto, aliciava os crentes dizendo-lhes: "Escuta, meu filho, os preceitos do mestres... Quem quer que tu sejas, renuncia a teu querer para cindires as armas poderosas e a esplendida obediência e venha militar sob as ordens do verdadeiro rei, Cristo Senhor."

O sábio e o asceta: a proliferação da vida monástica, começada possivelmente no Egito e na Síria a partir dos séculos 4 e 5, inspirada nas figuras de Antão, Macário e Pacômio, resultou de um deslocamento do modelo ideal de vida a ser imitada. Na sociedade clássica antiga, o ideal de vida perfeita, harmonizando estudo e razão, se realizava na Academia platônica ou no Liceu aristotélico, onde um grupo limitado de discípulos seguiam os ensinamentos de um filósofo consagrado. Com a crise do paganismo as academias filosóficas entraram em declínio ou foram perseguidas e o novo modelo a seguir centrou-se no" homem de Deus", no asceta que vivia no deserto, ou no exemplo de Simeão Estilita, um eremita sírio que viveu 40 anos preso em cima de uma coluna. Foram eles, consagrados à oração e à devoção, os precursores dos monges, e os mosteiros nada mais foram do que a conclusão lógica daquele tipo de opção de vida.

O Mosteiro, utopia do cristianismo: desde o século 9 todos os recursos convergiam para o mosteiro, para a morada ideal, a cidade fechada, o claustro, reservado aos eleitos que ali usufruíam de paz, de harmonia, de ordem e pureza, supervisionado de longe por Deus. Quem estabeleceu suas normas foi Bento de Nursia, o São Bento, que em 529 deixou as "Regula Benedicti" como orientação para os que surgiram depois. Organização tão acurada que Robert Lopes chamou-a de "o triunfo do bom senso, do equilíbrio entre os rigores do ascetismo e os imperativos da saúde mental e física." Resultou aquela construção piedosa - a utopia do cristianismo medieval - dedicada à prece, ao trabalho e à ascese, ao opus Dei, aos trabalhos de Deus, da longa deterioração da confiança que as elites romano-germanas tinham na antiga cultura pagã, e na sua gradativa conversão ao cristianismo. O herói cívico romano, conquistador, valente e luxurioso, deu lugar ao mártir ou ao homem santo que queria afastar-se das coisa mundanas, mergulhado em rezas e voltado para salvação da alma, recolhido ao Mosteiro.

Fora dos muros dele imperava a guerra, a anarquia, a maldade, a lascívia, o mundo corrompido pela presença do pecado e seu instigador mor, o Demônio. O Maligno estava em tudo, impregnava tudo, como se o ar que o cristão respirasse estivesse impregnado por sua ameaçadora presença.

A estruturação do Mosteiro: tal como no céu, o Mosteiro possuía um dirigente, o abade superior. Ele era o pai da família religiosa e ao mesmo tempo o seu principal pedagogo, que, auxiliado pelos chefes de serviço (o prior, o sacristão, o camareiro, o ecônomo, o hospitaleiro e o capelão), orientava os demais integrantes da irmandade, os monges que representavam, simultaneamente, o povo crente e os anjos do céu (daí exercitarem-se nos corais). Abrigava ainda uma serie de outros integrantes, hierarquicamente organizados, como os noviços, os velhos, e as crianças. Em geral de famílias distintas que deviam ser lá educadas em troca de um dote.

Os doentes, confinados na enfermaria, eram vistos como atingidos por seus pecados pregressos. Quanto mais acintosa eram as marcas das chagas que os flagelavam, piores teriam sido seus vícios. Destino horrível tinham os leprosos, abundantes no Medievo inteiro, obrigados a vagar de aldeia em aldeia, como eternas almas danadas, trazendo no peito os badalos que anunciavam ao povo sua indesejada presença, espantando todos de si por carregarem em seus corpos as punições de Deus. Os mortos eram sepultados do lado do nascente do sol, numa simbólica esperança de ressurreição, enquanto os viajantes que procuravam a hospedagem dos monges, vindo do mundo profano, eram admitidos no outro oposto, onde o sol se punha.

Centro financeiro: por estarem abrigados pela santidade e pela sacralidade, espaço interdito à guerra e à maldade, terminaram acolhendo em seus cofres os tesouros inúmeros. Além dos dotes e das doações que recebiam, afluíam para lá na busca de um olhar protetor especial de Deus, inúmeros tesouros seculares, fazendo com que com o tempo, eles assumissem, como mostrou R. Génestal, que estudou o papel deles como estabelecimentos de crédito, até funções bancárias. Essa foi a razão deles terem sido pilhados pelos ataques dos sarracenos ao sul da França e ao norte da Itália nos séculos 8 e 9.

Cluny, centro a Cristandade: garantido por uma Comenda Papal que lhe outorgava plena autonomia, tornando-o imune às usurpações dos barões e dos bispos locais, a Ordem de Cluny, fundada em 909 tornou-se no verdadeiro centro da cristandade no Ano Mil. Foi Odilon (994-1049) o seu verdadeiro criador que, com sua exigência de submissão dos demais mosteiros à abadia central, formou a primeira confederação monacal da Europa. Exemplo que irá inspirar no século 19 o socialista utópico Charles Fourier na idealização de uma federação de falanstérios como alternativa social e governamental para a ordem burguesa. Depois do Ano Mil, a Ordem de Cluny saltou de modestos 70 abadias para 1.200. Atraindo nomes ilustres da teologia e fornido de boas bibliotecas e documentos raros e antigos, Cluny foi a referência da Cristandade, num momento em que o papado romano estava envolto em crises sem fim.

Estrutura de um Mosteiro Beneditino
Deus
(santuário)
Abade
(chefe da família)
prior
sacristão
camareiro
ecônomo
hospedeiro
capelão
Os Monges
(os filhos de Deus)

O Castelo e a Igreja: tirando-se umas poucas cidades razoavelmente povoadas (Roma que era a maior delas tinha 25 mil habitantes, e Paris no máximo 5 mil agrupados na Ile-de- la Cité), as duas edificações em que se dividia o homem do Ano Mil, espremido entre a guerra e a paz, entre a espada e a cruz, entre a terra e o céu, eram o castelo e a igreja. O primeiro era a fortaleza do guerreiro, erguido num lugar inóspito, uma espécie de oásis onde ele se fazia acompanhar dos seus familiares e dos que o seguiam em comitiva nas guerras. Atrás dos seus altos muros de pedra e protegido pelas inúmeras seteiras ele se guardava dos inimigos. Não conheciam conforto. Tudo era rudeza. Nem cortinas, nem lençóis, nem toalhas de mesa, nem garfo, nem faca. Comia-se com as mãos ou com o auxilio de colheres ou espetos, em companhia dos animais domésticos

O segundo, a igreja, era uma edificação que arquitetonicamente evoluíra da antiga basílica romana para o formato românico, que dava seus primeiros passo em direção à maturidade no Ano Mil. A própria igreja, em sua grande maioria, com paredes larguíssimas e poucas aberturas, sem maiores preocupações estéticas, confundia-se à distância com um castelo, era "a fortaleza contra Satanás, a praça forte de Deus na terra" como a chamou Friedrich Heer. O mundo do Ano Mil era tão perigoso que os santos eram esculpidos ou pintados com armaduras de ferro e até em seu templo Deus sentia medo. Não sem razão ser o tema principal da escultura românica o Dia do Juízo Final e o da Paixão.

A fortaleza de Deus era habitada pelo pároco, cercado pelo frio e pela escuridão numa nave pobre em imagens, de onde ele supervisionava a vida dos fiéis que para lá afluíam em busca de consolo, absolvição e proteção. Em inúmeros casos de assalto, eram elas o último refúgio de uma população desesperada. Estava-se longe ainda da "Europa das Catedrais", daqueles imensos e belos edifícios cujas torres arranhavam o céu, obras máximas da devoção medieval, decorados com radiantes vitrais, elaborados murais, e acuradas esculturas, que levaram muito mais de cem anos para serem erguidas e serão o orgulho das cidades européias, e que só começaram a proliferar a partir do século 12.

A Aldeia e a Choupana: o povo por sua vez espalhava-se entre o castelo e a igreja, subdividido em vilões, os moradores das aldeias, e os agricultores que mourejavam nos campos da redondeza. Era nos vilarejos, em dias de feira, que a plebe medieval se encontrava. Nas feiras e nas festas. A massa camponesa era espantosamente pobre. Vivia em casebres de madeira e pedra, com cobertura de palha, em condições de quase completa miserabilidade, tendo a maior parte das vezes à mesa, uma só panela da qual todos se serviam, enfiando sua colheres de pau nela.

Escravos e servos: no Ano Mil ainda existiam escravos, geralmente em funções domésticas, e a servidão da gleba prendia a maioria dos habitantes do campo aos seus senhores. Sobre esses desgraçados da terra incidiam tributos de toda ordem, sendo que sua obrigação mais comum era a corvéia, o trabalho gratuito que eram constrangidos a cumprir nas terras do senhor e dos monges. Completavam eles a parte menos enaltecida das célebres três ordens feudais, a chamada trifuncionalidade: a dos que trabalhavam, enquanto que os nobres guerreavam e os padres oravam. Calcula-se que a esperança de vida deles mal ultrapassava os 40 anos enquanto que a dos nobres e sacerdotes provavelmente era superior aos 50 anos.

As três ordens da sociedade medieval

"A ordem eclesiástica forma um corpo só, mas a divisão da sociedade compreende três ordens. A lei humana, com efeito, distingue outras duas condições. O nobre e o não-livre não são governados por idêntica lei. Os nobres são os guerreiros, os protetores das igrejas. Defendendo a todos os homens do povo, grandes e modestos, e por tal feito protegem-se a si mesmos. A outra classe é a dos não-livres. Esta infeliz raça nada possui sem sofrimento. Provisões, vestimentas são providas para todos pelos não-livres, pois nenhum homem livre é capaz de viver sem eles.

Por tanto a cidade de Deus, que se acredita única, está dividida em três ordens: uns rogam, outros combatem e outros trabalham. Estas três ordens vivem juntas e não suportam uma separação. Os serviços de um permitem os trabalhos dos outros dois. Cada um, alternativamente, presta seus apoio a todos."
- (divisão da sociedade em três ordens, segundo Adalberão, o bispo de Laon, na França, nos finais do século 10)

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