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O Ano Mil

As preocupações do ano mil

A Paz de Deus: "Que nenhum cristão mate outro cristão", esta foi a palavra de ordem do Bispo de Narbona, lançada em 1054, que serviu para estimular ainda mais a implantação da "Paz de Deus". A sociedade européia, no que Marc Bloch chamou de a primeira fase do feudalismo, era essencialmente guerreira, violenta e turbulenta. Sua nobreza, de origem bárbara, incivilizada e belicosa, fazia dos combates, das justas e dos inúmeros entreveros com os seus rivais, a razão de ser da sua existência. Eram os bellatores, os senhores da guerra, que afirmavam-se perante os vilões, o povo camponês e os servos, pela exibição permanente da sua força e da sua destreza nas artes militares.

Disso resultava estarem em guerra permanente uns contra os outros, fazendo da vida do povo comum um inferno, pois sobre ele recaíam as pilhagens, as depredações, e os demais atos de vandalismo tão comuns nestes casos. Conseqüência desta desordem, as quais se somavam os ataques dos normandos ao nordeste da frança, dos dinamarqueses às praias da Inglaterra, a expansão dos húngaros na Europa Central e a invasão árabe da península Ibérica, pululavam pelo Continente, aventureiros em busca de presas e de fortes emoções, cavaleiros andantes que colocavam-se a serviço de todos os tipos de causa e que contribuíam, em seu afã de feitos, para a desordem geral. Eles é que serão a matéria-prima de boa parte da literatura medieval que os celebrizará, a eles e as suas façanhas em imortais narrativas (na Chanson de Rolan, no Cid el campeador, no Amadis de Gaula, etc..). O poema anônimo abaixo espelha como os cavaleiros viam sua atividade:

"O que é manejar as armas?
Serve-se alguém delas como de uma peneira de farinha ou de um machado?
Não, é um trabalho muito mais duro
O que é então a cavalaria?
É uma coisa tão forte e tão intrépida e que custa tanto a aprender que um vilão a tanto não se atreve....
Quem quer atingir suas elevadas honras convém primeiro ocupar-se de ter ido a esta escola."

A prática da faida: outra fonte de tormentos daquela sociedade era a difundida prática da faida ou faide, velha palavra de origem germânica que definia o direito à vingança, executada pelos parentes das vítimas. Numa época em que a presença da lei do rei era mínima e que as instituições estatais quase que desapareceram, usurpadas pelo despotismo dos barões e dos condes, o ato de justiça, pelo menos como era naquela época entendido, ficava ao encargo dos familiares.

Traduzia-se isso numa permanente tensão entre as famílias nobres que desavinham-se pelos motivos mais fúteis e banais. As lutas abertas entre os desafetos, os duelos e as emboscadas, os terríveis atos de traição e suborno, terminavam por irradiar-se pelo feudo inteiro atingindo gente inocente, gerando um clima de perpétua insegurança nos campos, nas aldeias e nas vilas. Litígios que se prolongavam por anos a fio e cuja origem ninguém mais se recordava, mas que contribuíam para que os clãs de nobres rivais se odiassem pelos tempos afora. Um cidadão de Florença chamado Velluto di Buonchristiano, deixou em seu testamento, depois de ter sofrido um ataque fatal, um legado para quem conseguisse vingá-lo, matando quem o ferira de morte.

A intervenção da Igreja: a situação devia estar insustentável para que os sacerdotes tomassem uma posição. Em 989, no Concílio de Charoux, perto de Poitiers, no sul da França, nasceu o movimento de "civilizar a guerra". A argumentação dos religiosos era inatacável. Defensores da idéia de que o corpo de Cristo encontra-se, por assim dizer, espalhado entre a cristandade inteira, quem vertesse o sangue do povo, atingia Jesus. Era como se o próprio líquido sagrado jorrasse das feridas do mais modesto dos campônios. Quem levantasse a espada para um cristão, arriscava mutilar o próprio Cristo. A idéia de dar um basta nas matanças ganhou então corpo. A paz de Deus pois, supervisionada pela Igreja, substituía uma inexistente paz dos reis, acometido estes pelo que um cronista da época chamou "Imbecillitas regis", a impotência dos reis, e foi mais um passo que o clero medieval deu no sentido de ocupar o espaço do poder temporal.

As associações de paz: das reuniões episcopais, surgidas no sul, na região que os franceses chamam de Meio-dia, disseminando-se depois para a Borgonha e para o norte da França, brotaram as associações de paz. Sua tarefa era tentar moderar os apetites guerreiros, persuadindo os cavaleiros a aceitarem seguir certas regras. Que acatassem algumas medidas preventivas que, mesmo não abolindo completamente com a guerra, procurava moderar-lhes a ferocidade. Em Puy, na França, uma dessa associações foi mais longe. Tornou-se, para o desagrado dos nobres, num grupo de justiceiros, caçando os salteadores da região.

Os barões ladrões: lutavam também contra os nobres que viviam de pilhagens e atos de rapina. Tão comum tornou-se o envolvimento de cavaleiros em atividades de banditismo que na Alemanha ocidental surgiram os Rauberbaron (os barões ladrões) que, bem mais tarde irão servir de modelo de uma vontade indômita e anárquica para uma boa parte da literatura romântica [Goethe inspirou-se neles para a sua tragédia "Götz von Berlichingen", em 1773, enquanto que Schiller dedicou-lhes a peça "Die Rauber", "Os Bandidos", em 1781].

O primeiro pacto pela paz: atribui-se ao bispo de Puy, na França, a iniciativa de ter em 990 convocado o povo e os cavaleiros para prestarem um juramento de paz. Se num primeiro momento negaram-se a isso, logo aceitaram por que o bispo os ameaçou com tropas especialmente convocadas. Sucedem-se então os juramentos feitos por "...todos que são cavaleiros e que levam armas seculares." Duby observou que essas cerimônias públicas, que rapidamente limitaram-se apenas aos homens de armas, marcam o princípio da distinção, que se ampliaria cada vez mais pela Idade Média adentro, entre aqueles que combatem, o "miles" ou "cabalarius", e o resto do povo, o "vulgus".

O embrião da Ordem da Cavalaria: aquelas juras coletivas deles podem ser consideradas como um embrião das Ordens da Cavalaria que surgirão no século seguinte, decorrente das Cruzadas. Também na Alemanha circulavam as Friedesbriefe, as cartas da paz, despachadas pelo imperador para circular entre o povo e a nobreza, conclamando-os a obedecerem certas regras para a manutenção da tranqüilidade pública. Daí avançou-se para a criação de salvaguardas, estabelecendo-se alguns princípios que todos se comprometiam a respeitar.

As salvaguardas: evidentemente que elas, as salvaguardas, variavam de reino para reino e de região para região. Esperava-se que os combatentes não invadissem as igrejas e não as pusessem ao saque. E, claro, não roubassem o padre. Não deviam expropriar os ganhos dos camponeses, e muito menos agredir um sacerdote, só "se ele estivesse armado". Os mercadores, as principais vítimas dos barões ladrões, também reclamaram imunidades que assegurassem eles poderem viajar pelos reinos e feudos sem serem molestados. Com o tempo, as salvaguardas procuram ser mais detalhadas, como mostrou o chamado juramento de Beauvais de 1023. Destruir um moinho, arrancar os vinhedos dos camponeses ou atacar um crente na saída ou na entrada da missa, eram considerados atitudes extremamente condenáveis, que feriam a ética dos cavaleiros. Evitar que os inocentes e os pequenos se vissem envolvidos nas querelas dos poderosos e que a fiada, a vingança não fosse executada aos domingos, era a bandeira dos bispos, eternos defensores dos pobres e demais humildes.

A trégua de Deus: nesta preocupação em criar obstáculos para que a violência se reduzisse, chegaram a fixar-se períodos efetivos de trégua, onde todos se comprometiam a não erguer as armas contra os outros. Assim, por exemplo, convencionou-se que durante as grandes festas religiosas (da Páscoa e do Natal), ou nas romarias em direção aos relicários venerados, estabelecia-se uma trégua, a trégua de Deus. Procurou-se também fixar três dias da semana, a partir da quarta-feira, nos quais não se combateria.

A luta pela paz e a guerra justa: estas tentativas todas de amenizar os malefícios da guerra e da violência endêmica da sociedade medieval não trouxeram muito resultado prático, É evidente porém que ajudaram a criar na Europa inteira um clima para que se canalizasse aquela agressividade intrínseca aos guerreiros contra uma outra força qualquer não-cristã, e também sedimentou as bases metafísicas do que mais tarde seria amplamente discutido pelos teólogos medievais e por outros intelectuais acadêmicos, sobre as condições em que a guerra poderia ser justa, a jus bellicum, como o padre Vitória de Salamanca e o humanista Erasmo de Roterdam.

A mobilização pela Cruzada: fundamentalmente a mobilização pela paz entre os cristãos tornou aceitável o chamamento do Papa Urbano II, feito em Clermont, no sul da França em 1095, para que os cavaleiros cristãos deixassem de se matar uns aos outros e dessem início a uma Cruzada, concentrando-se na recuperação da Terra Santa, ocupada pelos turcos seldjúcidas. Marcharam eles então para vingar não só os maus tratos que os peregrinos cristão diziam sofrer nas mãos dos infiéis, como também reparar a ofensa que fora a destruição do Santo Sepulcro, executada, muito antes, em 1009, por Haquim o Califa do Cairo, "o príncipe da Babilônia", que teria sido, segundo o relato de Ademar Chabannes, levado a isso por uma maquinação dos judeus de Orleans.

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