Nem ao ferro, nem ao sangue
“Não haverá sobre a luminosa Alemanha nem um líder que não seja ungido pela gota do óleo democrático” - O deputado-poeta Ludwig Uhland, Rede, 23.1.1849
Na Igreja de S.Paulo em Frankfurt no Meno, no dia 18 de maio de 1848, reuniram-se pela primeira vez na história mais de 500 representantes do povo alemão . A Alemanha inteiramente rebelada os convocara para que redigissem às pressas uma constituição. Ao fundo, ao longe, estrondeavam os tiros de artilharia e as fuziladas das lutas de rua que se generalizavam, bem antes, em Berlim e em Viena. O povo e o governo se enfrentavam. A revolução estava por quase toda a parte.
Era uma tarefa de Hércules. Os deputados - quase todos advogados, professores e poetas -, tinham que acomodar numa só Lei Fundamental, um verdadeiro quebra-cabeças. Era uma miuçalha de interesses miúdos, de localismos e de particularismos, pois a Alemanha pré-unificação era uma conglomerado de 39 médios e pequenos estados e reinos. A religião e os dialetos os separavam ainda mais. Para piorar, impedindo a unificação, num dos extremos do cabo de guerra político, rivais no seu controle, encontrava-se o rei da Prússia, feudal e militarista, e no outro o imperador da multiétnica Áustria.
Em meio a tal barafunda, enquanto os constituintes de Frankfurt deblateravam, a esquerda, desprezando-os, guerreava nas barricadas querendo aprofundar a Revolução a tiros. Engels, o companheiro de Marx na Nova Gazeta Renana, depois de impacientar-se com a morosidade dos deputados, partiu para engajar-se no combate direto. Desde o início ele lastimou até a escolha do local da reunião: se Frankfurt fora no passado, nos tempos bárbaros, o “Caminho dos Francos”, agora parecia-lhe estar longe de indicar qual rumo que a Alemanha deveria seguir.
A Velha Ordem, entrementes, as cortes, a nobreza e o exército, superado o primeiro impacto do surto insurrecional, estava longe de deitar armas. Passado o vendaval da “Primavera das Revoluções” quando, por quase toda Europa, burgueses e trabalhadores se acotovelaram, Seit’ an Seit’, lado a lado, açoitavam as Monarquias, a Contra-revolução tomou fôlego. Os burgueses recuaram. Schopenhauer, o filósofo misantropo, morando em Frankfurt, até ofereceu a janela da sua casa para que os soldados atirassem no povo. Cidade por cidade, vilarejo por vilarejo, aldeia por aldeia, a reação adonou-se da situação.
A Assembléia em fim, no arrefecer das lutas, aprovou uma constituição no 27 de março de 1849. Tecnicamente era perfeita. A Alemanha federada seria unificada num Império. O capitulo referente aos Direitos Fundamentais do Povo Alemão acolheu o que havia de melhor das liberdades gerais. Inclusive o voto universal. O problema deu-se em convencer o rei da Prússia a aceitar o cetro imperial. Frederico Guilherme IV sentiu-se ofendido com a menção do seu nome.
O monarca acossado pelo povo
Como ousavam, espumou ele, aqueles “malandros da revolução de 1848” oferecer-lhe a Coroa que, no passado, pertencera aos Otonianos e aos Habsburgos! Acreditavam aqueles “parvos, tolos e inferiores” que ele se resignaria a colocar “aquele aro sagrado que eles juntaram da sujeira e da lama”?. (*)
Foram-se as esperanças de uma Alemanha unida e liberal, que pudesse evoluir no futuro em direção a uma democracia. Ridicularizada pela esquerda e acossada pela reação, a Nationalversammlung desapareceu sem glória, refugiada em Stuttgard em 18 de junho de 1849. Alguns anos depois um Bismarck arrogante, para humilhar os sonhadores de 1848 ainda mais, disse que os problemas do seu tempo não seriam resolvidos com “discursos e maiorias” mas com “ferro e sangue”.
Decorridos 150 anos daqueles sucessos, a República federal alemã fez por acolher de volta a Berlim , neste recente 20 de abril, no antigo prédio do Reichtag, inteiramente restaurado, o seu parlamento, que até então estava em Bonn. Homenageia com sua reabertura o der Aufstand der Dichter - o levante dos poetas -, aqueles primeiros idealistas que, em 1848, tentaram arrancar a Alemanha do divisionismo medieval, afim de dotá-la de instituições modernas e avançadas, tais como ela dispõe hoje, sem que fosse preciso recorrer para isso, nem ao ferro, nem ao sangue.
(*) estas expressões ofensivas encontram-se na carta que o rei enviou ao seu representante em Londres, Frh. von Bunsen, datada de 13.12.1848. No original diz: “Einen solchen imaginären Reif, aus Dreck und Letten gebacken, soll ein legitimer König von Gottes Gnaden und nun gar der Könign von Preussen sich geben lassen, der den Segen hat, wenn auch nicht die älteste, doch die edelste Krone, die Niemand gestohlen worden ist, zu tragen?