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O trauma das pestes e do gás

As fanfarras da morte (a Peste Negra de 1348)
Qual o motivo dos europeus mostrarem-se sempre tão assustados quando a mídia ocidental dá um sinal de alarma qualquer, anunciando uma epidemia do gado, das aves, um possível envenenamento de uma guloseima ou de um refrigerante? Porque este mesmo pânico, que leva os governos europeus a incinerarem os animais e destruírem toneladas de alimentos, não se verifica nos Estados Unidos ou mesmo a América Latina?

Entre o chocolate a vaca louca

O maior holocausto de gado do mundo
Há bem pouco tempo atrás, bastou que alguns altos funcionários governo belga publicamente admitissem que os elementos tradicionais que entravam na composição da fabricação do chocolate haviam sido alterados por acidente para que o pânico se espalhasse. A Europa inteira foi varrida por um curioso pavor onde as vítimas principais, além das naturais perdas financeiras, foram as barras e os bombons de chocolate, caçados como se fossem inimigos públicos. Prateleiras inteiras foram de imediato esvaziadas por temerosa mãos dos comerciantes que não queriam passar por irresponsáveis ou aproveitadores frente aos olhos de uma multidão atemorizada ou à beira da fúria. O temor ao chocolate, por sua vez, logo engendrou , por efeito de contaminação psicológica, uma série de sintomas de envenenamentos outros, acusados por crianças e adolescentes da Bélgica, provocados, segundo os jornais, pela ingestão de refrigerantes.
Uns anos antes, entre 1998 e 2000, a mesma fobia em massa havia acometido os que consumiam carne inglesa. A pretexto de poderem ser vítimas fatais ao ingerirem porções de rezes possivelmente sofrendo do mal da Mad Cow, “ vaca louca”( Encefalopatia Bovina Espongiforme), milhões de europeus, num piscar de olhos, aboliram o guisado ou o bife da sua dieta. Em Florença, os moradores tiveram que conter-se em lágrimas na frente das famosas bistecas locais. Não só isso, um clamor ergueu-se de todos os lados exigindo que o governo britânico providenciasse a imediata eliminação de milhares de cabeças de gado.
Para cortar o mal pela raiz, os campos e os estábulos da Inglaterra converteram-se num gigantesco matadouro e num crematório a céu aberto. O gado foi massacrado em dimensões bíblicas. Talvez, naquela ocasião, tenha ocorrido o maior holocausto de animais de todos os tempos. Se estivéssemos vivendo ainda em tempos pagãos, época em que os deuses exigiam sacrifícios de carne para atender os rogos dos homens, seguramente as divindades sairiam empanturradas após assistirem aquelas cerimônias macabras que se espalharam pelos campos ingleses.

A Morte Negra

O flagelo ataca em Florença
Estes dois episódios de pânico contagioso, provocados pela vaca louca e a do chocolate, cujas vitimas fatais foram numericamente insignificantes, são fenômenos tipicamente europeus e encontram sua explicação na longa história das pandemias que por tantas vezes devastaram a população do Velho Mundo. A mais antiga e devastadora delas, provocada pelo bacilo Yersina pestis ocorreu no século 14, a da Peste Bubônica, ou da Peste Negra (assim dita porque os cadáveres enegreciam) que arrasou com a população da Europa Ocidental, entre os anos de 1347 e 1352. Época em que a palavra de ordem passou a ser “ Coma, beba e alegre-se porque amanhã você estará morto”.
E com toda a razão. Num curtíssimo prazo de tempo 25 milhões de europeus pereceram, derrubados pela doença maligna (a população estimada em 75 milhões em 1347, reduziu-se para 50 milhões em apenas cinco anos!). Uma calamidade jamais vista que fez por abalar para sempre com as mais arraigadas crenças religiosas, visto que perante o furor da praga de nada serviram as preces, as promessas e as demonstrações públicas de devoção. Um desencanto de tudo que também atingiu a confiança na medicina, considerada ciência inútil ou impotente para fazer frente à dimensão daquele mal, como denunciou Petrarca, o maior poeta da Itália daquele século, no seu Invective contra medicum (1357).

Uma devastação democrática

A remoção dos pestíferos (cena napolitana)
Nem os fossos ao redor dos castelos, nem os muros altos das mansões, nem as hierarquias sociais de resto adiantaram. A bubônica ceifou democraticamente tanto os signori como il popolo minuto. Nobres e plebeus, idosos e crianças, foram igualmente prostrados e levados à morte pelos bulbos pestíferos. Um terço da população se fora, deixada em grande parte insepulta como pasto para os corvos. A única coisa a destacar, se é que assim podemos dizer daquela pavorosa situação, foi ter propiciado o surgimento de uma obra-prima literária: aquela escrita pelo italiano Giovanni Boccaccio , entre 1349-51, intitulada o Decameron, uma centena de pequenas e movimentadas histórias, narradas no estilo fabulista por sete damas e três rapazes, para divertir para que os sobreviventes pudessem ainda sorrir, gratos por estarem vivos e terem escapado daquele horror , e que se tornou um clássico universal.
Outras dessas tenebrosas epidemias ainda varreram aqui e ali as cidades européias, tal como a que, em 1630, devastou Milão ( descrita por Alessandro Manzoni na sua novela I promessi sposi , “ Os Noivos”, de 1827) e a que arrasou com Londres em 1665, que fez com que inclusive o College of Surgeons, o Colégio dos Cirurgiões, como chamavam a faculdade de medicina de Londres, decidisse abandonar a capital e refugiar-se no interior do país tamanha a inutilidade do esforço dos doutores em conter o flagelo. Daniel Defoe que escreveu sobre este episódio no Journal of the Plague Years , “Diário dos anos da praga”, de 1722, registrando que a crença de que os cães e os gatos eram os principais transmissores da maldição fez com que 40 mil cachorros e 200 mil felinos fossem exterminados, o que ironicamente aumentou o número dos seus inimigos naturais, os ratos, os reais portadores dos germes da catástrofe.

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