Cômodo, o gladiador
Lúcio Aurélio Cômodo, imperador romano aos 19 anos de idade, no ano de 180, apesar da esmerada educação que seu pai, o rei-filósofo Marco Aurélio lhe proporcionou, tornou-se uma figura das mais representativas da perversão que o poder absoluto provoca nos homens. Enquanto o pai foi homem de letras, Cômodo deliciava-se com as lutas de gladiadores, sendo ele mesmo um praticante nesta arte de matar. Morreu em 192, fruto de um conspiração palaciana, depois de um reinado de treze anos de terror e vergonha.
 Cômodo (161-192), imperador cruel e hedonista |
"A cidade despedaçada não era mais um todo conjunto; e como se era cidadão como uma espécie de ficção....não se via mais Roma com os mesmos olhos, não se tinha amor pela pátria, e os sentimentos romanos não existiam mais."
Montesquieu - Grandeza e decadência dos romanos, IX, 1734
Caio, César, Calígula
Suetônio disse que Calígula pensou indicar Incitatus, sua montaria, como cônsul ânuo. Um século e meio depois dele, Marco Aurélio fez pior, legou o império romano para seu filho Cômodo. Enquanto o imperador louco nomeou um irracional de quatro patas; o outro, o imperador sábio, um de duas patas.
 Calígula(12-41), a cara de menino escondia sua perversão |
É, por vezes, peça que o destino prega em pais ilustres ter catástrofes por filhos. O próprio Calígula, demente, incestuoso, sanguinário, nascera de varão valentíssimo e honrado. Germânico, seu pai, cônsul e general, era ilustrado em literatura latina e grega, língua em que cometeu algumas comédias que perderam-se no tempo, e também fora um notável comandante de tropas, adorados pelos legionários e pelo povo romano. Morrera moço, aos 34 anos, dizem que envenenado. Teve sorte em não ver no que o filho iria se transformar. Quando Caio César, dito Calígula, veio à luz num quartel de inverno no ano 12, um versículo pressagiou: "Nascido nos acampamentos, nutrido nas batalhas paternas, tudo pressagiava um príncipe assinalado". Mas não demorou muito para que se visse que ele "não conseguia dominar sua natureza feroz e depravada", fazendo com que vivesse para "a sua infelicidade e a infelicidade dos outros", como asseverou certa vez Tibério, o imperador que o adotara.
A breve vida de Cômodo
O mesmo poderia dizer-se de Lúcio Aurélio Cômodo, nascido 150 anos depois. O seu pai era um assombro. Era o sonho de Platão: um rei-filósofo. Marco Aurélio (121-180), não só admirava os sábios gregos, era ele mesmo um pensador, dos que são apontados até hoje nos cânones da filosofia ocidental. Dado a coletar preceitos de ordem moral, extraídos da visão estóica que adotara, publicou-os com o título de Meditações, que tornou-se um clássico da literatura filosófica.
Alma benigna, tinha especial desvelo pelo seu único filho homem, a quem ele esperava orientar pelos elevados princípios da escola de Zenão. No entanto, o jovem Lúcio Aurélio, criado como Calígula, em meio ao vozerio chulo dos acampamentos militares e ao som das trombetas e gládios de guerra, decidiu-se pela espada e não mais pelo livro. Quanto mais o pai refletia, mais o filho se embestava.
Gibbon disse que foi o próprio Marco Aurélio quem arruinou o filho, ao torná-lo parceiro do poder quando ele ainda era um adolescente. Porém, o mesmo Marco Aurélio fora ainda bem moço iniciado nas coisas do estado por Antônio Pio. Mas o filho não saíra o pai. Cômodo, imperador aos 19 anos, desatinou-se no trono imperial. A seu favor, diga-se, que tudo começou com um atentado fracassado contra a sua vida. O sicário, antes de tentar apunhalá-lo numa das saídas de um anfiteatro, gritou "O Senado vos manda isto!"
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