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Homero e a busca da virtude (parte II)
É muito citado entre os estudiosos da ética dos gregos, o registro feito por Homero do testemunho do velho Nestor, o único idoso e sábio que acompanha os aqueus no sítio que moviam à cidade de Tróia, (Canto XI da Ilíada), relatando um encontro que ele assistira um tanto antes da guerra, no palácio do rei Peleu, o pai de Aquiles. Na cerimônia em que o filho apresentava seus respeitos para ir acompanhar Agamêmnon e Menelau na missão de resgatar Helena das mãos dos troianos, o pai aconselhou-o "a ser sempre o melhor (aristeuein) e estar acima dos demais". Que o jovem buscasse através de façanhas inauditas, vir poder exercer a sua virtude (areté). Galgar algo que fosse merecedor do reconhecimento dos seus pares para, com isso, ter assento no reino dos heróis imortais, aqueles que jamais saíam da lembrança dos homens.
Werner Jaeger, um dos mais eruditos estudiosos da cultura grega antiga, assegurou que o verdadeiro objetivo da formação educacional grega, a Paidéia, desde aqueles tempos, foi imitar essa virtude dos antigos guerreiros. O fato de Atenas bem mais tarde ter implantado uma democracia não alterou profundamente a concepção de herói herdada dos tempos da Grécia Arcaica e de domínio aristocrático. Seus dois maiores filósofos, Platão e Aristóteles, educadores do Ocidente, por igual continuaram presos à ética arcaica do valentão nobre e destemido como um ideal a perseguir, sendo que o último a considerou como um norte aplicável à vida dos filósofos. Muito dela foi, por igual, absorvido pelos atletas olímpicos que mantiveram as pistas de corridas e os saltos de obstáculos como um pacífico substitutivo dos campos de batalha, mantendo ente si os mesmos princípios estabelecidos pelo Código dos Cavaleiros. Grande parte da retórica democrática continuou influenciada pelos mesmos ideais éticos, de fazer com que também na política os cidadãos seguissem as regras da convivência cavalheiresca, o mesmo acontecendo com os constantes duelos verbais travados entre os homens cultos contidos nos "Diálogos" de Platão ou ainda entre os grandes oradores da cidade.
Aristóteles – Ética a Nicômaco. São Paulo: Martin Claret, 2000.Camps, Victória (org.) Historia de la ética: 1 – de los griegos al renacimiento. Barcelona: Editorial Crítica, 1987. Finley, M.I. – O mundo de Ulisses. Lisboa: Livraria Martins Fontes, 1972. Finley, M.I. – A política no Mundo Antigo. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1985. Hegel, G.W.F. – Fenomenologia do espírito.Petrópolis: Editora Vozes, 2003. Homero – A Ilíada. São Paulo: Ediouro Publicações, 1998. Jaeger, Werner – Paidéia. São Paulo: Editora Herder, s/d. Rowe, Christopher – Introducción a la ética griega. México: Fondo de Cultura Económica.1979.
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