Educação História por Voltaire Schilling Antiga e medieval
Boletim
Receba as novidades no seu e-mail!
Fale conosco
. Envie releases
. Mande críticas, dúvidas e sugestões
EducaRede
Entre no portal da escola pública
História - Antiga e medieval
ANTIGA E MEDIEVAL

Cícero expõe Catilina

Leia mais
» Cícero e a conjuração
» Cícero expõe Catilina
 
Para Cícero tudo estava claro. Aquele que estava ali sentado na sua frente nas arquibancadas senatoriais era um criminoso, um inspirador de "mortandades e incêndios", tendo inclusive ao seu lado alguns dos senadores presentes que, insensatos, andaram juntos prevaricando contra a lei.

O cônsul sabia de tudo. As manobras clandestinas de Catilina eram-lhe conhecidas pelos espiões que colocara no encalço dele. Cícero estava ciente dos mínimos detalhes da conjura, de quem era quem na obra de traição à cidade sagrada. Ao sedicioso ele ainda dava uma oportunidade: que Catilina saísse da cidade e levasse consigo seus asseclas, "a perniciosa sentina dos seus sócios". Ele era uma peste a quem Júpiter Stator, protetor de Roma, devia expulsar dos seus muros, pois não era apenas uma ameaça à vida do cônsul que o acusava, mas sim à Itália por inteiro.

Como prova desse efeito maléfico que dele exalava era o fato de que, ao sentar-se na arquibancada, fez com que todos que estavam próximos se levantassem e fossem ajeitar-se bem mais afastados. Ninguém no senado queria ser visto próximo ao sedicioso. Como então ele pensava levar adiante o motim?

Marco Túlio Cícero
Disse-lhe Cícero então: "Sai já de Roma, livra de temor a República: se esperares por este preceito parte já para o desterro!" Que o bandido fosse juntar-se aos outros predadores para insurgir-se: com Mânlio, acampado mais ao norte da cidade com um "exército de gente perdida". Que as esquadras de falidos e de mendigos, e outros desesperados, liderados por Catilina, ainda com auxílio de centúrias de gauleses cabalados por ele, ousassem enfrentar o gládio de Roma.

O próprio Cícero tece então considerações sobre a proposta feita de banir o demônio. Se o acusado era aquele veneno todo, por que deixá-lo partir? Não cairia o cônsul no desagrado do povo deixando a serpente sair da toca e ir-se embora rastejando mas livre? Contudo, argumentou ele, queria expor Catilina aos olhos de todos cidadãos permitindo que o descarado chefe dos maus mostrasse o punhal de assassino da pátria, que ele publicamente erguesse a tocha com que pretendia ver a Cúria em labaredas. Era com o clarão das chamas da insurreição que ele, Cícero, assumindo os riscos, pretendia esclarecer tudo.

Andavam muito confusas as coisas em Roma, legalidade e ilegalidade, senadores e bandidos políticos, o saudável e o doente, a pátria e seus traidores, os bons e os malvados pareciam andar juntos, misturados. Era a hora de por um fim naquele caos e naquele conúbio entre a moralidade e a imoralidade, de por as coisas no seu devido lugar.

O conspirador, se solto e fora da cidade, como um imã, atrairia para si os pérfidos e os malfeitores, os parricidas e os latrocidas, enquanto a República teria como seu escudo os cidadãos honestos e íntegros. Tudo então se acertaria: os bons contra os maus. A República estaria salva e o senado recomposto. O motor da conjura banido ou morto.

Chicoteado pelas palavras de Cícero, nada mais restou ao réprobo senão escapar da cidade e jogar-se na aventura de um tudo ou nada. Mais ao norte, juntou-se aos seus sendo facilmente batido por um destacamento militar enviado em diligência contra eles pelo cônsul. Catilina morreu em Pistóia, no ano de 62 a .C.. Os seguidores dele que ainda haviam ficado em Roma, Lêntulo, Címbro Gambínio, P.Statílio, Cétego e outros, integrantes do partido dos perdidos, foram detidos e levados aos suplícios e, depois de algum tempo no cárcere, foram executados às instâncias de Silano e Catão, com a aquiescência do cônsul.

O povo em Roma celebrou o grande orador honorificando Cícero como o apodo de "pai da pátria", salvador da República e das instituições por ter evitado que o império conhecesse mais uma guerra intestina sangrenta. Foi título merecido visto que a oratória de Cícero serviu como arma num dos casos raros da história em que um discurso contundente e corajoso conseguiu abortar um golpe contra as instituições republicanas.

(*) Cícero, de fato, pronunciou diversas arengas contra Catilina e seus asseclas. A IIª das Catilinárias foi dedicada às justificativas dele ter deixado o malfeitor livre para deixar a cidade expondo-lhe intenções subversivas, na IIIª ele descreveu detalhadamente a conspiração exigindo que se congratulassem com ele pelo bom sucesso das diligências na apuração da conjura, enquanto que a IV Catilinária foi dedicada à divergência instaurada entre os senadores a respeito de quais seriam as penas a serem aplicadas aos sediciosos encarcerados.

Salústio retrata Catilina

O historiador Salústio (86 a 36 a.C.), que conheceu ambos, a Cícero e a Catilina, deixou um vivo retrato do celerado caído em desgraça, descrevendo-o assim:

"Lúcio Catilina, nascido de linhagem nobre, foi um homem de grande fortaleza física e psicológica, mas de temperamento depravado e inclinado para o mal. Desde sua adolescência muito lhe agradaram as guerras intestinas, as matanças, os espólios, a discórdia civil, exercitando nelas a sua juventude.Seu corpo era capaz de suportar a fome, frio e vigílias...muito acima do que se poderia acreditar. Seu espírito, temerário, trapaceiro, volúvel, era capaz de fingir e dissimular qualquer coisa. Cobiçados do que era do alheio e dissipador do que era seu. Era ardente nas suas paixões. Na eloqüência era justo; pouco de prudência. Seu espírito insaciável ansiava sempre pelo desmesurado, o incrível, o que estava sempre demasiadamente alto. Depois da tirania de Lúcio Sila se apoderou dele uma irrefreável ânsia de conquistar a republica, e não tinha o menor cuidado em lançar mão de quaisquer meios que fossem na busca de tal poder absoluto. Seu espírito feroz a cada dia mais e mais se revoltava devido a pobreza do seu patrimônio familiar e a lembrança dos seus crimes...incitavam-no ainda mais os costumes corruptos da cidade, costumes que dois vícios péssimos punham a perder: o luxo e a avareza."

(Salustio - A Conjuração de Catilina - Retrato de Catilina, V 1-8)

Bibliografia
Cícero - Obras. São Paulo: Edições Cultura, 1942.
Cowell, F.R. - Cícero e a República Romana. Lisboa: Editora Ulisséia, 1967.
Salustio - A Conjuração de Catilina

página anterior     
Veja todos os artigos | Voltar