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História - Antiga e medieval
ANTIGA E MEDIEVAL

Cícero e a conjuração de Catilina

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» Cícero expõe Catilina
 
O memorável embate entre a República e a Desordem ocorreu por ocasião em que Marco Túlio Cícero, o maior orador romano de todos os tempos, ascendeu à posição de cônsul, entre os anos de 64-63 a .C.. Seu grande rival na disputa pela mais alta posição da magistratura de Roma fora um outro político chamado Lúcio Sergio Catilina. Tratava-se de um egresso da nobreza empobrecida mas que nem por isso perdera a soberba ou a ambição de voar com as águias.

As forças políticas em Roma

Cícero acusando Catilina (afresco de Cesare Maccari, 1882/88)
Derrotado nas eleições para cônsul, ressentido, Catilina, com larga folha de velhacarias passadas, tratou de conjurar contra o regime para vir a alcançar o poder pela força. Pensou conquistar com a espada o que as urnas lhe negaram. Travou-o Cícero, advogado brilhante. Tratado como fora-da-lei pela verve implacável do cônsul, o conspirador teve que fugir de Roma, fracassando rotundamente no seu intento de subverter a ordem.

A normalidade republicana emergira aos poucos da ditadura de Sila (88-79 a.C.), tirano violento que perseguira e esmagara a todos os que lhe fizeram oposição ( curioso este Sila, situação rara no mundo romano, morrera tranqüilo na vila para onde se retirara aposentado). Recuperado o poder pelo Senado e pelas magistraturas eleitas tudo indicava que as velhas instituições voltariam a funcionar a contendo e as veneráveis prerrogativas dos cidadãos de novo respeitadas. E, em parte, assim ocorreu, ainda que por um tempo mais.

As circunstâncias e as necessidades estratégicas gerais de um império em expansão e formação é que fizeram com que o Senado se visse obrigado a voltar a delegar poderes extraordinários a um só homem. Ainda que dentro da lei, era um risco terrível, visto que cumular um chefe militar com excessiva carga de autoridade implicava em diminuir a margem de poder e autonomia dos pais conscritos ( como os romanos designavam seus senadores).

Todavia, parece que não lhes restou alternativas senão apoiar um novo "homem forte". No ano de 66 a.C. o tribuno Aulus Gabinia, em vista da campanha naval que Gneo Pompeu realizava contra os piratas que pululavam pelo Mediterrâneo Oriental, propôs que o Senado desse a ele poderes absolutos, quase de um rei: a Lex Gabinia. Somente com aquela legislação de força, ampliada ainda mais pela Lex Manilia (que pretendia entregar a Pompeu o governo de várias províncias orientais, como base para atacar o rei do Ponto, Mitríades VI Eupator, em luta contra Roma no norte da península da Anatólia, na Ásia Menor) é que o general poderia levar a cabo a sua missão de limpar os mares dos bandidos e submeter a quem lhes davam apoio. Deste modo, o próprio Senado depositou nas mãos de Pompeu o seu destino: fez dele "o rei da Ásia".

Entrementes, enquanto pairava a tensão entre os defensores de um Pompeu que colhia vitórias no exterior, e um Senado temeroso quanto ao seu futuro, novas contendas eram urdidas em Roma.

Aproveitando-se do cenário confuso, proliferaram pela cidade os "bandidos políticos", em geral gente da classe patrícia ou eqüestre que decaíra socialmente, atolada em dívidas e assolada pelos usurários. Entre eles, como caudilho do desacato, destacava-se Lúcio Sérgio Catilina, um ex-sicário que se colocara a serviço da ditadura de Sila e que, agora, assombrado pelos credores depois de dilapidar o patrimônio herdado, dissipando-o no vício e na luxúria, cabalava uma solução radical para seus problemas: assaltar o poder para assim quitar a colossal dívida.

Em geral, tipos como ele andavam pela cidade acompanhados por um destacamento de desordeiros e rufiões que entregavam-se às mãos do chefe. Tinham os olhos vigilantes, postados em tudo o que se mexia, ouvidos aguçados prontos a acolher qualquer sopro de intriga, enquanto os punhos, em alerta, erguiam-se prontos a socar e a espancar a quem bem lhes aprouvesse.

Confederados para o achaque, a intimidação era o seu negócio, viviam disso. Aparentemente a república não teria como defender-se daquele batalhão do mal: os jovens lobos famintos da alcatéia de Catilina. Roma via-se assim presa de uma porfia entre Pompeu, o Senado e os "bandidos políticos", procurando equilibrar-se entre a tirania militar, o poder oligárquico e a anarquia dos bandoleiros.

A conjuração

Era voz corrente pela cidade que Catilinia, impudente, exalando atrocidades e crimes, estava maquinando uma das suas. Planejava uma arremetida direta contra as instituições. Para tanto cabalava junto a escumalha humana que compunha o lumpesinato urbano, gente sem eira nem beira, perdidos que bem pouco tinham a perder ao envolver-se numa aventura revolucionária. Era o abraço da ambição de um Catilina falido com a grande miséria dos muitos. Se insurgidos, provocariam um aluvião de sangue.

Não o conseguiram porque Cícero, cônsul, com coragem solitária, brecou-lhes o chefe em pleno Senado com seu vozeirão de advogado do rostro (tribuna situada no Foro romano de onde os oradores arengavam ao povo). Ele mesmo, uns dias antes, por pouco escapara de uma tentativa de assassinado dos sicários a mando de Catilina. Cícero contra-atacara colocando os seus para seguirem os passos dos desordeiros, terminando desta maneira por descobrir a extensão da conjura que revelou-se bem mais vasta do que inicialmente imaginava, chegando inclusive a coletar os nomes dos principais cabecilhas: Mânlio, Lêntulo e Cetego, todos conluiados com Lúcio Sérgio no atentado às instituições. Um ar pesado, de chumbo, dominava Roma naqueles dias que prenunciavam o golpe.

Os desatinados pareciam ter escondido palha seca em cada canto da cidade, em seus esconsos e porões, para tocar fogo em tudo na hora a combinar. Era certo que o incêndio viria. Tanto assim que a data de 26 das Calendas de Outubro fora aquela fixada para um ataque geral contra as famílias patrícias, fazendo com que muitas delas, ao ouvir falar, temerosas, saíssem de Roma procurando abrigo nas suas herdades campestres bem afastadas da cidade. Entrementes, Catilina com seu bando ia e vinha pelas ruas impune, saboreando o medo que causava.

As Catilinárias

Cúria, prédio do Senado Romano
Foi então que num daqueles dias de agitação ele foi ao Senado. Tal uma mente criminosa que se delicia com o pavor que causa, sentou-se nas arcadas. Agiu no senado como se tivesse jurado a morte dos presentes, olhando um por um nos olhos antes de lançar-lhes o dardo mortal. Deu-se então que Cícero, exasperado com exibicionismo, arrogância e descaramento do conspirador, postou-se bem em frente a ele e disse bem alto para que todos ouvissem:

"Até quando, ó Catilina, abusarás da nossa paciência? Por quanto tempo ainda há-de zombar de nós essa tua loucura? A que extremos se há-de precipitar a tua audácia sem freio? Nem a guarda do Palatino, nem a ronda noturna da cidade, nem os temores do povo, nem a afluência de todos os homens de bem, nem este local tão bem protegido para a reunião do Senado, nem o olhar e o aspecto destes senadores, nada disto conseguiu perturbar-te? Não sentes que os teus planos estão à vista de todos? Não vês que a tua conspiração a têm já dominada todos estes que a conhecem? Quem, de entre nós, pensas tu que ignora o que fizeste na noite passada e na precedente, em que local estiveste, a quem convocaste, que deliberações foram as tuas. Ó tempos, ó costumes!"

Se todos sabiam do andamento da conspiração porque razão a permitiam? Cícero atribuía tal leniência dos seus colegas à incerteza que pairava sobre a cabeça dos pais conscritos. Muitos deles tinham dúvidas da veracidade dos boatos e da intensidade das ameaças que cercavam o nome de Catilina. Ou simplesmente estavam acovardados pelo insolente. O orador também computou a brandura com que o sedicioso era até então tratado como resultado da tolerância do senado atual, do tempo de Cícero, em relação à tradição antiga. Em épocas mais remotas a assembléia patrícia, imbuída de grande disciplina moral, era muito mais rigorosa nas questões de sedição, não hesitando em ser implacável com quem ousasse erguer-se contra as tradições da cidade, como fora o caso dos Graccos, ou do tribuno L.Saturnino ou ainda de Spúrio Melo (supliciados e executados pelas autoridades), acusados de crime de lesa-república.

Ainda assim, o "conselho do mundo", como Cícero gostava de designar o senado, protelava em aplicar leis exemplares contra Catilina, agindo como se fora um legionário irresponsável que se negasse a tirar a espada da bainha para prostar um inimigo de Roma, deixando o atrevido não só com vida como ainda fazendo pouco caso de tudo.

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