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História - Antiga e medieval
ANTIGA E MEDIEVAL

Roma, o império tirânico

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O grego Políbio, morto em 118 a.C., historiador que por muitos anos freqüentou as altas esferas romanas, tornando-se íntimo da aristocracia senatorial e guerreira do império que então se formava às custas das guerras contra Cartago, teve sensibilidade suficiente para perceber uma clara mudança de atitude e de rota da política externa romana. Durante as duas primeiras Guerras Púnicas, travadas respectivamente entre os anos de 264-241 a.C. e 219-201 a.C., os senadores sempre apresentaram motivos aceitáveis para lutar contra a cidade inimiga.

Todavia - no afã deles em fazê-la sumir para sempre depois de terem obtido duas vitórias sobre ela - durante a última campanha que desencadearam contra a ex-metrópole africana, entre 149-146 a.C., criaram falsos pretextos para ir à guerra. Cometeram então um assassinato em massa a frio. Políbio então percebeu que Roma se tornara um império tirânico.

Catão exige a destruição de Cartago

A águia imperial romana
Os anais da história romana asseguraram que o senador Marco Pórcio Catão, Catão o censor (234 – 149 a.C.) -, sempre que encerrava uma intervenção qualquer feita em plenário, concluía com a firmação: Delenda Carthago est! A cidade de Cartago, a ex-rival de Roma, devia ser destruída. Por duas vezes Roma, no passado, conseguira derrotar os púnicos, como chamavam a gente de Cartago (localizada no litoral da Tunísia de hoje), a quem arrancaram o controle sobre o Mediterrâneo ocidental, as ilhas da Sicília e da Sardenha, e as terras da Espanha.

Foram combates memoráveis nos quais ambos os lados lutaram com extrema coragem e valentia, até que Aníbal, um dos maiores capitães de guerra de todos os tempos foi obrigado a render-se, batido na batalha de Zama, no ano de 202 a.C., pelas legiões de Público Cornélio Cipião, o africano. Cartago desde então virara uma província romana, sem sequer ter direito a se defender em caso de ser atacada.

Mas Catão, partidário da guerra de extermínio, não dava tréguas. A simples existência daquela cidade – lar da lendária Dido, segundo Virgílio –, ainda que reduzida a um simples empório comercial, totalmente destituída da importância e da imponência de outrora, era um espinho travado na garganta dos interesses estratégicos gerais de Roma. Enquanto ela existisse, teimava Catão, pairariam nuvens escuras, ameaçadoras, sobre os interesse romanos. Pelo menos assim pensava o senador.

Ocorria que faltava um pretexto para uma nova guerra. Por mais que os romanos assumissem um expansionismo cada vez mais brutal e inescrupuloso, faziam parte de uma sociedade que, afinal, prestigiava a lei acima de tudo. Além disso, distava bem longe dos cartagineses qualquer intenção de provocar nova guerra de revanche. Como Roma poderia atacá-los assim no mais, sem que a cidade de Aníbal nada lhes fizesse?

Todavia a ocasião surgiu quando os governantes de Cartago procuraram repelir as incursões de tribos que vinham do deserto para saquear os arredores da cidade. Tiveram que, por força das circunstâncias, sem licença, pegar em armas para espantar os bandoleiros. Roma enfureceu-se com que considerou uma quebra das regras fixadas. À instâncias de Catão, um senatus-consulto foi logo providenciado e mesmo tendo os cartagineses cumprido com a maior parte da exigências romanas para escaparem de uma nova guerra (entregando inclusive 300 filhos do patriciado local como reféns ), diversas legiões desembarcaram nas cercanias de Cartago para pô-la sob o derradeiro sítio, ocorrido no ano de 146 a.C.

A destruição final de Cartago

Quem as comandava era Cipião Emiliano (184-129 a.C.), amigo e admirador de Políbio, um descendente do general que bem antes vitoriara-se contra Aníbal. Cartago não teve chance. Tomaram-na de assalto. Os seus prédios públicos, palácios e casas foram incendiados e os sobreviventes da matança vendidos como escravos. No acampamento dos vencedores estava presente o historiador Políbio (205-125 a.C.), um grego muito culto que fizera carreira como preceptor de jovens aristocratas romanos e que também, em diversas ocasiões, servira como embaixador de Roma na Grécia.

Registrou ele que o general Cipião Emiliano, seu discípulo, teria derramado lágrimas frente a destruição da cidade, virada num monturo de cinzas e de cadáveres eviscerados, prevendo que um dia também aquele seria o destino da sua pátria.

Políbio, que foi testemunho do momento da decolagem do Império Romano para a posição de potência máxima do mundo daquele tempo, por igual manifestou inquietação. Roma, até então, travara guerras justificadas. De algum modo sempre encontrara um motivo razoável ao entendimento da ética universal para pegar em armas e avassalar seus inimigos. Daquela vez não. Mesmo ela tendo se submetido a todas as exigências, Cartago, sem nenhum motivo razoável, fora inteiramente arrasada até seus fundamentos.

Percebeu ali mesmo, na luz e no calor das chamas do acampamento de Cipião, que Roma deixara de ser a cidade da justiça e, devido a sua corrupção moral, decorrente do extremo poder, transformara-se numa cidade tirânica, num império tirânico. E, apesar dele não criticar-lhe o expansionismo, preocupou-se com o futuro de um estado que tinha que recorrer ao terror e à repressão para manter-se na supremacia.

Leitura recomendada

Políbio – História, Brasília: Editora da UnB, 1985.

    
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