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Carlos Magno, Rolando e Santiago de Compostela
A incursão armada de Carlos Magno na Espanha, no ano de 778, ainda que fracassada, deu frutos inesperados ao longo dos tempos. Um deles foi que o episódio serviu para ambientar os feitos do lendário conde Rolando, sobrinho do rei dos Francos, que, cavaleiro fiel, lutou até o fim contra uma turba de sarracenos na batalha de Roncesvalles, motivo para a Canção de Rolando, texto fundador da literatura cavalheiresca medieval, aparecido no ano de 1.100. O outro, foi a devoção que os cristãos espanhóis depositaram em Santiago, um apostolo de Cristo que teria sido enterrado em terras da Ibéria, e cuja veneração, desde 813, estimulo-os a que eles, encorajados, resistissem aos mouros obedientes ao Islã.
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Carlos Magno
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Convenceram Carlos, o rei dos francos (o futuro Carlos Magno, coroado imperador do Ocidente, em 800), de que era viável aventurar-se numa operação militar de surpresa sobre a Espanha, então ocupada pelos mouros. Foram uns agentes do partido pró-Abássida, isto é, os próprios árabes muçulmanos, quem o incitaram a lançar-se na campanha, pois uma guerra civil cindira-os em duas facções inimigas: a dos que eram a favor da obediência ao Califado de Bagdá, como era o caso dos pró-Abássidas, e a dos que se inclinavam pelos Ominadas e pregavam a autonomia da marca espanhola, liderada por Abderraman I, (Abd-er Rahman, 756-788) o emir de Córdoba. Bem pesada as coisas, deixando a capital saxã de Paderbon, em 778, Carlos pôs-se em marcha acelerada para os Pirineus. Quarenta e seis anos antes, em 732, o avô dele, Carlos Martel, fundador da dinastia dos carolingeos, havia vencido os árabes na batalha de Poitiers, em território francês. Soara agora, entendeu ele, a hora do contra-ataque, de levar a guerra ao campo muçulmano.O seu objetivo primeiro, ultrapassando a cordilheira que fazia a fronteira do seu reino com o dos árabes, era tomar Saragoça, antiga capital romana-aragonesa que estava nas mãos dos sarracenos desde 714, e que era estrategicamente entendida como uma espécie de portal de entrada para quem, vindo do Ocidente, quisesse conquistar o al-Andaluz, isto é, a Espanha dos mouros. Cavalgavam com ele, além das tropas, encontravam-se os Doze Pares da França e mais o seu sobrinho, o bravo Rolando, conde da Bretanha, que compunha a guarda real. Enquanto tentava demover Marsilio, o caudilho árabe da Saragoça sitiada, de fazer-lhe resistência, tentando-o com a proposta de compartilhar o restante da Espanha com ele, Carlos Magno foi surpreendido com uma notícia vinda de casa. Os saxões, que habitavam o norte do reino dos Francos a quem estavam submetidos, aproveitando-se da ausência dele, ousaram revoltar-se, entrando em pé de guerra. Não restou ao monarca carolíngeo senão que desfazer o sítio e dar a ordem de retirada de volta para a França. De bem pouco lhe serviria ter a Espanha na mão e perder o torrão natal. Abderraban I, o emir de Córdoba, entrementes, não ficara de braços cruzados. Quando soube da aproximação dos francos, arrebanhou tropas bérberes na África e as enviou em marcha forçada à Saragoça para enfrentar os invasores cristãos. Ao lá chegarem viram que Carlos Magno já havia se posto a recuar pela estrada serpenteada dos Pirineus. Seguiram-no. As tropas de socorro de Abderraban I ligaram-se com as de Marsilio para darem um exemplo em regra ao rei dos Francos.
A batalha de Roncesvalles
Carlos Magno destacara o valente Rolando, seu sobrinho, como o encarregado de proteger a retaguarda do exército em retirada. Com ele deixou também a sua guarda pessoal. Não demorou muito para que lá no alto da cordilheira terminassem por serem emboscados pela gente da região. Milhares de bascos de toda a Navarra atenderam ao chamado dos chefes de aldeia e apresentaram-se armados para expulsar os francos invasores. O local escolhido para a liça foi Roncesvalles, um vale situado há 1.066 metros de altitude. No seu estranho idioma, chamaram-na de Orreaga´ko Gatazka, a batalha de Roncesvalles. Pegos de surpresa no dia 5 de agosto de 778, os homens de Rolando lutaram bravamente até que , um a um, sucumbiram com a aparição dos mouros. Foram literalmente soterrados pela avalanche de pedras, de espadas e lanças que desabou sobre eles de todos os lados. Um canto basco, celebrando o feito dizia: “Baixarão as águias da noite/ para mergulhar nas carnes/ famintas, sugarão para sempre seus ossos/ E o vale branqueará”. O episódio de Roncesvalles foi um exemplo singular na história da Espanha: bascos cristãos juntaram-se à gente do Islã para expulsar os francos, no que pode-se considerar como um exemplo precoce da identidade hispânica. O rei Carlos, que estava acampado a meio caminho da França, num lugarejo por isso mesmo dito Valcarlos, o Vale de Carlos, teve que retornar para tentar salvar os seus homens. Esforço perdido, pois quando chegou a Roncesvalles, o rei dos francos deparou-se com um canteiro de mortos, pilhas deles. Nada mais lhe restou senão fazer uma prece frente ao corpo dilacerado de Rolando. A invasão dos francos, a retirada de Carlos, a batalha de Roncesvalles, tiveram duradouros efeitos imorredouros na literatura européia e na história do culto aos santos da Espanha. A morte heróica de Rolando inspirou o grande poema épico medieval: a Chanson de Roland, a Canção de Rolando; enquanto a derrota dele, por sua vez, com o fracasso dos cristãos em retomarem a Espanha para a sua fé, estimulou como compensação o surgimento da devoção a Santiago de Compostela: o Santiago Matamoros.
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