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História - Antiga e medieval
ANTIGA E MEDIEVAL

A canção de Rolando

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» Carlos Magno, Rolando e Santiago de Compostela
» A canção de Rolando
 
A Canção de Rolando, canção de gesta, surgiu transcorridos mais de três séculos do infeliz episódio de Roncesvalles. Datam-na aproximadamente do ano de 1.100, quando se supõe que ela deva ter sido finalmente escrita. Desde então foi apresentada nas cortes francesas e alemãs pelos bardos e trovadores itinerantes, servindo como relato épico e mito legitimador da dinastia carolingea, apresentada como a campeã da defesa da Cristandade contra o Islã.

A fértil imaginação do romantismo cavalheiresco, inflamou-a com episódios e personagens de ficção. Até um pérfido traidor foi incluído: Ganelon, um invejoso, o imaginado sogro de Rolando que o traiu para os árabes. A famosa canção de gesta divide-se em dois momentos: no primeiro deles descreve a resistência de Rolando em Roncesvalles, quando perde Veillantif, o seu corcel, e vê tudo perdido, tentando inutilmente quebrar a sua espada Durindana, golpeando-a numa rocha para não deixá-la cair nas mãos dos inimigos. O intrépido cavaleiro morre heroicamente em meio à intensa e feroz peleja.

“Então Rolando sentiu que perderia a vida/ Ele se ergue, faz todo o esforço que pode/ a cor do sua face se fora...Então Rolando sente que o seu tempo terminou/ Ele lá está, no alto cume que se volta para a Espanha/ ele bate no peito com uma mão: Deus perdoe-me em nome das tuas virtudes, por meus pecados, grandes e pequenos, todo os que eu cometi desde a hora do meu nascimento até esse momento em que estou para ser batido.” Chanson de Roland, CLXXIV

Um pouco antes do desenlace final, o valente conde conseguira soprar a trombeta que o rei Carlos lhe dera para ser usada somente em caso de máximo perigo. Instrumento cujo sopro somente o pulmão dele, de Rolando, sabia dar. Pedido de socorro que revelou-se tardio, pois a alma do herói, por ocasião da chegada do socorro, já fora conduzida aos céus:
“São Gabriel o pegou pela mão/ Deus enviara seu anjo querubim/ E São Miguel do Péril de la Mer juntou-se a São Gabriel para levar a alma do conde ao Paraíso.”

Num segundo momento, a gesta narra a vingança de Carlos Magno apresentando como a imagem de um poderoso patriarca, ideal do soberano universal, eleito por Deus e guiado por ele. Além de expor a traição de Ganelon (executado depois de uma justa, obedecendo o costume da Lei de Deus), Carlos Magno põe a correr os árabes (a participação dos bascos cristão na batalha de Roncesvalles e na morte de Rolando foi suprimida da gesta). Recolhe então o cadáver de Rolando e retorna para o seu palácio imperial em Aix-la Chapelle, para consolar a bela Aude, a dama amada do sobrinho defunto.

Antes disso, ainda nos Pirineus, o rei ajoelhou-se no alto do pico de Ibañeta – é o Códice Calixtino quem registrou – e fez uma oração com a face voltada para Compostela (local da distante de Galícia celta que seria mais tarde centro de peregrinação cristã), e providenciou o sepultamento dos seus Doze Pares numa pequena capela funerária de Sancti Spiritus, em Roncesvalles mesmo. O espadachim caído, o campeão de Carlos Magno, elemento dramático da canção de gesta, servirá de modelo, o protótipo do cavaleiro virtuoso, fiel até ao fim ao seu soberano, exemplo a ser imitado pelos demais cavaleiros feudais.

Santiago de Compostela

O santuário de Santiago de Compostela
As proporções que devoção a Santiago de Compostela tomou em toda a Espanha medieval, somente pode ser entendida no contexto da invasão muçulmana. O fracasso de Carlos Magno e, depois, de seu filho Luís, rei da Aquitânia, em espantar os mouros da Ibéria, criou as condições psicológicas para que a população cristã , frustrada, encontrasse um símbolo que a permitisse resistir ao assombro da gente do Islã. O santo serviu-lhes como elixir e bálsamo para superar o complexo de inferioridade dos cristãos frente aos mouros.

Tudo começou pelo ano de 813, quanto um eremita de nome Pelayo, seguido de alguns pastores, deparou-se com uma estranha luminosidade que espalhava-se sobre um pequeno bosque nas proximidades de um monte do interior da Galícia chamado Libredón. A paisagem, em certos momentos, ficava tão clara que parecia-se a um campo estrelado (Campus Stellae = Compostela). Teodomiro, o bispo local, informado do estranho fenômeno, soube que a luz focara no chão uma antiga arca de mármore. Nela tería-se encontrado os restos humanos do que atribuiu-se ser o Apostolo Santiago (isto é, São Iago, São Jacó, o filho de Zebedeu, irmão de João Evangelista).

Uma história antiga que corria de boca em boca entre os cristãos ibéricos dizia que o Apóstolo andara, séculos antes, em missão pela Espanha determinado a evangelizá-la, mas que ao voltar à Palestina teria sido decapitado pelo rei Herodes Agripa, no ano de 44. O corpo dele então, acomodado num sepulcro de mármore, fora colocado a bordo de um barco no porto de Jaffa e lançado ao mar.

Sem tripulação, sem leme nem nada, soprada apenas pelo vento , a nau teria vindo aportar nas costas da Galícia, região da Espanha que os romanos chamavam então de Finis Mundi. Recolhida da praia, a arca fora enterrada num compostum, um cemitério romano-galego daquele tempo. Durante os séculos seguintes, ninguém mais tomou conhecimento dela, até que começaram a ocorrer aquelas iluminações esplendidas, encantadas que o bispo Teodomiro consagrou.

Santiago Matamoros

O sensacional e miraculoso achado, que logo atraiu o rei astur-leonês Afonso, o casto (789-842), e sua corte para lá, fez com que lá fixassem a pedra da primeira igreja dedicada ao Apóstolo. Não demorou para que a boa nova, comunicada por Afonso ao próprio Carlos Magno, circulasse como um raio pelo Império do Ocidente, abrindo caminho para que se dessem os milagres. E as peregrinações então não mais cessaram, fazendo com que num curto espaço de tempo, o santuário de Compostela tivesse a mesma importância para os cristãos das romarias dirigidas à Roma e das que os muçulmanos faziam para visitar a Caaba, a pedra sagrada de Meca.

Na tida como fantasiosa batalha de Clavijo, travada em 834, o rei Ramiro I, de Aragão, no aceso do combate, viu-se ajudado por um desconhecido ginete montado num cavalo branco que dava espadaços na mourama. Sentiu que estava ao lado do Apóstolo, desde então transformado em Santiago Matamoros, aparição mágica, fundamental na vitória dele contra o emir Abderraban II:


Santiago el de España.
los mis moros me mató,
desbarató mi compaña,
la mi seña quebrantó...
Santiago glorioso
los moros fizo morir;
Mahomat el Perezoso,
tardo, non quiso venir


(Santiago da Espanha/ matou os meus mouros/ desbaratou minha companhia/ quebrou minha senha/ Santiago glorioso fez os mouros morrerem: Maomé o Preguiçoso, tardou, não quis vir)

Outras delas, dessas repentinas ações milagrosas do santo - um missionário da paz transformado em êmulo inspirador da guerra -, ocorreram na longa batalha movida pelos reis espanhóis contra o Califado de Córdoba ou contra os ditos reinos dos Taifas, que mais tarde o sucederam. Percebendo a importância simbólica do sepulcro de Compostela para o ânimo dos cristãos, Almanzor (El-Mansur), o Seyd, ministro do califa de Córdoba, realizou no ano de 997 uma inesperada sortida relâmpago na região da Galícia. Não só saqueou e destruiu o santuário com a primeira basílica, como levou consigo o sino e as portas dela, transportadas até o sul, até Córdoba, nos ombros de cristãos escravizados.

O santo tornou-se o maior ícone dos cristãos na sua oposição desesperada à presença dos interesses de Maomé na Espanha, fazendo com que o seu sepulcro se tornasse fonte de atração permanente para os peregrinos vindos de todos os lugares da Europa, percorrendo os Caminhos de Santiago. Para dar proteção a eles duas ordens militares então surgiram: a de Calatrava (1158) e a de Santiago (1173). O êxito da campanha da Reconquista, que culminou bem mais tarde com a ocupação do Reino Nasarí de Granada em 1492, foi largamente depositado pelos cristãos nos feitos impressionantes, assombrosos, de Santiago Matamoros. Este, por sua vez, fora promovido por Ramiro I, desde sua mágica aparição em Cravijos, a protetor oficial da luta contra os mouros a quem toda Espanha devia obrigações:

"...ordenamos por toda España e hicimos voto, que se ha de guardar en todas las partes de España que Dios nos conceda librar de los sarracenos por la intercesión del Apóstol Santiago, de pagar perpetuamente cada año a manera de primicias de cada yugada de tierra una medida de la mejor mies, y lo mismo del vino, para el mantenimiento de los canónicos que residen en la iglesia del bienaventurado Santiago y para los ministros de la misma iglesia".

(ordenamos e fizemos voto que por toda a Espanha, que se há de guardar por todas as partes da Espanha, que Deus nos conceda livrar-nos dos sarracenos pela intercessão do Apóstolo Santiago, de pagar perpetuamente a cada ano, a maneira de primícias sobre cada jeira de terra uma medida da melhor colheita, o mesmo de vinho, para a manutenção dos padres que residem na igreja do bem aventurado Santiago e para os ministros da mesma igreja)

Assim, por fim, as duas pontas da malsucedida campanha de Carlos Magno terminaram por se juntar. O lugarejo de Roncesvalles foi considerado naqueles tempos, o ponto de partida dos cristãos em sua peregrinação em direção a Santiago de Compostela, e esse santo, Padroeiro da Espanha Medieval, projetou-se justamente para ocupar o vazio psicológico deixado pelo insucesso das armas dos francos.


Referências bibliográficas

Braunschvig, Marcel - Notre Littérature étudiée dans les textes, Paris, Librairie Armand Colin, 1948

Brissaud, Alain - Islão e Cristandade, Lisboa, Pluma Editora, 1993

Dozy, R.-P. - Historia de los musulmanes de España, - 2 v., Barcelona, Editorial Iberia, 1954.


Köhler, Erich - L´aventure chevaleresque: ideál et réalité dans les romans courtois, Paris, Éditions Gallimard, 1956

Nájera, Rúben E. - La invención de Rolán - in CABALLERIAS Y MORERIAS:

Oliveira Martins- História da Civilização Ibérica, Lisboa, Guimarães & c. Editores, 1972

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