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Boccaccio e a praga da China
Quase na metade do século XIV, entre 1347-1351, a Europa Ocidental foi arrasada por uma terrível pandemia, a pior verificada no mundo até então: a Peste Negra. Naquele curto período, quase 25 milhões de pessoas pereceram vitimadas pela bubônica, praga que não poupou a vida de ninguém, fosse nobre ou plebeu, rico ou pobre, criança ou idoso, homem ou mulher. Os escritores italianos Giovanni Boccaccio e o grande Petrarca, presentes naqueles anos em que a tragédia se abateu sobre a Itália, imortalizaram em palavras suas impressões sobre ela.
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O enterro de um pestífero
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A desgraçada peste subiu pela bota italiana como se fora um raio ziguezagueante que , partindo do sul, de Messina, na Sicília, explodiu logo sobre Florença. Importaram-na de um porto do Mar Negro, local onde uma frota genovesa ancorara a negócios. La pistelenza, como a chamaram, não se fez de rogada, devastando tudo o que respirava e tinha vida. Na primavera de 1348 ela acampou nas margens do rio Arno. Boccaccio que lá estava, testemunhou a sanha assassina da bubônica, deixando um vivo registro do estrago no seu Decameron, livro de quase mil páginas, um clássico da literatura medieval, aprontado quase em seguida ao refluxo da pestilência, em 1353. Os aflitos viam nascer do nada, nas suas virilhas ou nas axilas, inchaços enormes, bubões do tamanho de um ovo ou de uma maçã. Em seguida, a pele deles assemelhava-se a dos leopardos, com manchas negras espalhadas por todo o corpo. Diziam que a praga vinha da China, que lá também fizera seus estragos, sendo trazida nas alforjes dos potros dos mongóis durante o seu ataque à Rússia. Teriam sido, indagou ele, “os corpos superiores” quem ordenaram aquela matança? Entrementes, a Signoria em Florença bloqueava a entrada da cidade aos doentes, mas não opunha-se aos que dela debandavam. A praga, se desastrosa para a medicina da época, impotente em frear a calamidade, foi um momento de ouro para o curandeirismo. Qualquer mandingueiro com um dedo de esperteza tentava extorquir das vítimas apavoradas, agonizantes, o que podia, com promessas de curas repentinas por meio de beberagens vãs, benzeduras e rezas incompreensíveis. Os corpos se avolumavam. Decompondo-se dentro dos lares ou jogados na frente das casas, ninguém queria mais saber deles.
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