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A Biblioteca de Alexandria, o coração da humanidade - parte 2
O bibliotecário-chefe Para qualquer intelectual grego ser convidado para o cargo de bibliotecário-chefe em Alexandria era atingir o Olimpo. Cercado por milhares de manuscritos, quase tudo o que a sabedoria antiga produzira sobre matemáticas, astronomia, mecânica e medicina, ele sentia-se como se fosse um Zeus todo-poderoso controlando as letras, os números e as artes. Conviver com rolos e mais rolos, bem organizados e classificados por assuntos, dos escritos de Platão, de Aristóteles, de Zenão, de Euclides, de Homero, de Demóstenes, de Isócrates, de Xenofonte, de Píndaro, de Tucidides, de Safo, e de tantos outros, era um deleite permanente (*). Ao que se somava a Septuagint, os 70 manuscritos que continham a tradução do Pentateuco, o Velho Testamento hebraico para o grego, feito por 72 sábios judeus convidados por Ptolomeu Filadelfo para realizar o feito em Alexandria. As atribuições do bibliotecário-chefe transcendiam as funções habituais, pois eles eram também humanistas e filólogos encarregados de reorganizar as obras dos autores antigos (foi Zenôdo quem estruturou a Ilíada e a Odisséia em 24 cantos cada um, depurando-lhes os versos espúrios). Além disso, ele também era encarregado da tutoria dos príncipes reais, a quem devia orientar nas leituras e no gosto. (*) Os rolos de papiro mediam 25 cm de altura por 11 metros de cumprimento, alcançando alguns até 30 metros. Eram escritos sem separação das palavras, com exceção de uma pausa (paragraphos), não havia vírgulas nem pontuação. As folhas, denominadas de cólemas, eram coladas umas as outras antes da sua utilização, e a página que abria o rolo chamava-se protocollon (dai a nossa palavra protocolo). Principais bibliotecários | Bibliotecário-chefe | Período | | Demétrio de Faléreo | 284 a.C. | | Zenôdoto de Éfeso | 284-260 a.C. | | Calímaco de Cirene | 260-240 a.C. | | Apolônio de Rodes | 240-235 a.C. | | Erastóstenes de Cirene | 235-195 a.C. | | Apolônio Eidógrafo | 180-160 a.C. | | Aristarco de Samotrácia | 160-145 a.C. |
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Erasistratus, médico da escola de Alexandria cura o jovem Antíoco (tela de L.David, 1774)
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Em seus primeiros três séculos, da fundação da biblioteca à chegada de César, disseram que as estantes, partindo dos 200 rolos iniciais do tempo de Filadelfo, chegaram a acomodar mais de 700 mil textos em volumes diversos, mas que, infelizmente, parte deles perdeu-se num incêndio acidental quando César por lá esteve (acredita-se que o que foi queimado era uma carga de papiros que estavam no porto esperando serem embarcados para Roma). Seja como for, parece ter sido a intenção de Marco Antônio, o outro líder romano que tornou-se amante e depois marido de Cleópatra, ressarcir as perdas sofridas com o incêndio de 48 a.C., doando para a biblioteca de Alexandria, no ano de 41 a.C., outros 200 mil pergaminhos e livros retirados por ele da biblioteca de Pérgamo, rival da de Alexandria. Desastres esses que de modo algum impediram que ela continuasse sendo visitada por homens ilustres como Arquimedes, ou tivessem embaraçados os cientistas da cidade. As contribuições universais do complexo cultural instalado em Alexandria, uma verdadeira fábrica de sabedoria, foram impressionantes: enquanto Aristarco esboçou a primeira teoria heliocêntrica (a que inspirou Copérnico), coube a Cláudio Ptolomeu, um geocentrista, fundar a moderna astronomia científica. Ao tempo em que Erastóstenes, um outro bibliotecário- chefe, mediu com precisão a Terra, o grande Euclides, ainda no tempo de Ptolomeu Sóter, lançava o Stoicheia ( Elementos), seu imortal estudo de geometria. Até Hypatia, morta em 415, uma das primeiras cientistas que se tem registro, atuou por lá, até que fanáticos cristãos impediram-na de continuar com suas pesquisas.
O cerco intolerante sobre a biblioteca
Quem terminou por fazer carga cerrada contra a existência do Templo de Serapium e da soberba biblioteca anexa a ele, ainda que empobrecida no século 4, foi o bispo Téofilo, Patriarca de Alexandria, um cristão fundamentalista dos tempos de Teodósio o Grande, que viu naquele prédio um depósito das maldades do paganismo e do ateísmo, mobilizando a multidão cristão para a sua demolição, ocorrida provavelmente no ano de 391. Portanto, hoje encontra-se em total descrédito a narrativa que responsabilizara os muçulmanos, especialmente o califa Omar de Damasco, de ter mandado o general Amrou incendiar a grande biblioteca no ano de 642, depois que as tropas árabes ocuparam a cidade. Ao desaparecimento definitivo dela deve-se ainda associar ao fechamento das academias de filosofia, entre elas a de Platão, ocorrida em 526 (que funcionara durante novecentos anos), determinada pelo imperador Justiniano, encerrando-se assim (devido a maneira lamentável e intolerante de agir do cristianismo daqueles primeiros tempos), as grande contribuições que o mundo antigo deu para a humanidade. A boa nova que nos chegou do Oriente Médio, região tão rara em produzir noticias felizes, é o da inauguração da Nova Biblioteca de Alexandria, acontecido em outubro de 2002, um colossal empreendimento que visa recuperar a imagem da cidade como um centro de sabedoria, posição que perdeu há bem mais de 1500 anos . Que os espíritos dos grandes do passado inspirem os que virão no futuro nesta grandiosa tarefa.
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