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Padre Vieira
O Homem-Catedral


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Padre Vieira na maturidade

Lançou-se uma nova edição dos principais sermões do padre Vieira, a quem o poeta Fernando Pessoa chamou de "imperador da língua portuguesa", e que igualmente foi um dos mais extraordinários oradores sacros de todos os tempos. Homem de Estado, diplomata, articulador político, apóstolo, nada estava fora da área do seu interesse: era um homem-catedral.

"Este é o mundo em que vivemos. Antes, e depois de Noé, sempre foi Dilúvio. Uns para uma parte, outros para outra: todos cansando-se em buscar descanso, e todos cansados de o não achar."

Pe.Antônio Vieira "Sermão da 5ª dominga da Quaresma", Lisboa, 1651

Até surgir a Imprensa no século 15, Victor Hugo disse que os homens escreviam com pedras. Manifestavam-se pela arquitetura. Era ela a sua gramática, seu estilo e sua sintaxe. Os granitos eram suas letras.

Pois o padre Vieira foi um original. Aprumou sozinho uma catedral, empilhando, a partir de 1671, com 15 tomos dos seus sermões, conformando-a com mais de três milhões de palavras-pedras. Enquanto Bernini, Borromini, Mansard e Wren, seus contemporâneos do século 17, expressaram-se com argamassa, tijolos, rochas esculpidas e vitrais, o padre-gênio socorreu-se dos substantivos, dos verbos, conjugados de todos os modos possíveis, e da riqueza sem fim dos adjetivos do idioma português. Aparou-lhe o plebeísmo, baniu o lugar-comum e fugiu da pedantaria coimbrã. Edificou um colosso, o maior da nossa língua! Mas ao fazer isso, o arquiteto envolveu-se tanto com a obra que tornou-se ele mesmo parte dela: converteu-se num homem-catedral.

As Várias Portas do Padre Vieira


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Púlpito da Igreja de Salvador na Bahia onde o Padre Vieira proferia seus sermões

O problema para os mortais é como entrar em tal prédio magnífico, meio humano, meio monumento, que é a obra escrita e ativa do padre Vieira. O portal, como em qualquer outro da arte barroca, reserva-se ao padre Vieira literato. Mas ainda existem outras quatro portas que permitem-nos o acesso. Numa antevê-se o jesuíta missionário, o madurão que vindo de Lisboa, em 1653, envolveu-se nas querelas dos colonos do Estado do Maranhão com os capitães-mores na luta pelo apresamento dos índios. Vieira logo constatou que a preocupação deles passava ao largo de salvar-lhes a alma pagã, mas sim de apropriar-se dos seus braços e do seu suor. Tentou conciliar inutilmente o que pôde, até que o prenderam e o expulsaram.


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Cristina da Suécia foi admiradora de Vieira

A outra abertura permite que conheçamos o padre Viera profeta e vidente, o português patriota que militou, incansável, pela independência do país, que até 1640 encontrava-se sobre "o cativeiro espanhol". Embalado ainda pelo que chamava de renascimento, iniciou, em 1659, o tratado místico-secular , a Esperanças de Portugal, o Quinto Império do Mundo, que, diz a tradição, escreveu navegando numa piroga pelo Amazonas, no qual vaticinava a soberania do Reino luso sobre o resto do mundo, tornando dom João IV um augusto universal. Aproximando-nos da penúltima porta, ouviríamos lá de dentro a poderosa voz, emocional e vibrante, de orador sacro que enfeitiçou os reis, ao papa, e até a ex-rainha Cristina da Suécia, e que também embasbacou os reinóis e os mazombos que cá viviam, na Bahía e no Maranhão.


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Lisboa à época de Vieira

Na última das entradas a sua obra, deparamo-nos com o padre Vieira político e diplomata. Não o cortesão bajulador que por vezes ele foi, mas o estadista que fracassou nos seus intentos, mas que não errou nas pretensões. Percebeu ele que o Portugal restaurado estava muito aquém das expectativas. O país, empobrecido, estava povoado de camponeses, padres e fidalgos, e seus marinheiros encontravam-se espalhados pelo mundo afora. Entendeu, num comentado relatório enviado ao rei D. João IV, em 1643, que sem uma burguesia mercantil e seus capitais, condenava-se o Reino luso ao marasmo econômico, indefeso ante a Espanha. Aproximou-se então da colônia de marranos, os judeus portugueses que haviam sido expulsos pela Coroa um século antes, na época de dom João III, e que abrigaram-se e, desde então, prosperaram na Holanda.

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