Rio Grande do Sul
De um Século ao Outro
(1900-2000)
Introdução
Logo após a decretação do Estado Novo, em dez de novembro de 1937, presenciou-se num estádio do Rio de Janeiro um singular espetáculo propagandístico. O próprio Getúlio Vargas em pessoa, perante uma arquibancada lotada e atenta, imbuída de fervor cívico, presidiu a chamada cerimônia da queima das bandeiras. As flâmulas estaduais eram, uma a uma, incineradas numa grande pira erguida em meio a pista do estádio. Cada pano colorido devorado pelas chamas, que supunham estar a queimar a serviço de uma pátria unida, colhia os aplausos da multidão. Doravante nenhuma parte da federação teria mais a sua bandeira. Apenas a do Brasil imperaria. Só o chefe da nação, o presidente Getúlio Vargas, mandaria. Afinal, na prática, também não existia mais a federação, pois cada estado estava em mãos de um interventor e cada município a mando de um intendente.
Por instância dos representantes do Rio Grande do Sul, presentes no espetáculo pírico, encaminhou-se ao ditador o pedido para que a bandeira do nosso estado, a tricolor herança dos farroupilhas, não sofresse o destino das demais. Getúlio Vargas poupou-a. Mas não salvou-se a nossa história regional. Ela foi-se dos livros, banida dos manuais escolares.
Desconhecendo a nossa história: liquidado o Estado Novo em 1945, um jovem estudante do interior do estado, recém-matriculado no Colégio Júlio de Castilhos, resolveu conhecer a cidade. Os nomes das ruas pelas quais passou porém nada lhe diziam. Quem seriam Protásio Alves, Ramiro Barcelos, Barros Cassal, Assis Brasil ou Demétrio Ribeiro? Ou esse tal de João Abott? Osvaldo Aranha ele conhecia, mas Borges de Medeiros e o próprio Júlio de Castilhos nada lhe diziam. Muito menos Carlos Barbosa ou Siqueira Campos. Sentia-se andar por uma cidade cujas placas de ruas e praças abrigavam fantasmas de um mundo nunca sabido.
O Estado Novo suprimira-os da memória. Senão conseguira removê-los das placas, expurgou-os dos manuais escolares. A história do nosso estado, das nossas coisas, do nosso povo, ficou ausente dos bancos colegiais, desconhecida por milhares de jovens que passaram a saber dela pelo "ouvi dizer", ou pela narrativa de um parente idoso qualquer.
A nova reconcentração do poder, a feita pelos militares em 1964, repetiu a dose. Segui-se com eles a época do "Brasil grande", do ufanismo nacionalista. Nada de história rio-grandense, nem de vultos locais.
Esquecendo-se de Castilhos: de certa forma Júlio de Castilhos - "o homem que inventou a ditadura no Brasil", segundo Décio Freitas - caiu no esquecimento dos gaúchos na maior parte do século, vítima de si mesmo, da sua ideologia, por ter inoculado em Getúlio Vargas, seu mais expressivo herdeiro, e nos militares, seus autoritários sucessores em 1964, o seu viés centralista, exclusivista, doutrinário, desprezador das particularidades locais. Mas é com ele, com Júlio de Castilhos, que seguramente começa a história do nosso século XX.
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Introdução |
O Rio Grande Castilhista (1891-1930) |
O Divisor de Águas (1930-1945) |
Do Rio Grande Populista ao Rio Grande Autoritário (1945-1985) |
Enfrentamentos Políticos, Ideológicos e Partidários no RGS |
Vocabulário |
A Projeção para o Século XXI |
Bibliografia