O príncipe Nabuco
Joaquim Nabuco foi um dos mais brilhantes intelectuais e políticos brasileiros do Segundo Império. Homem do patriciado, converteu-se porém à causa da abolição. Monarquista, entretanto, ele jamais deixou de ser. Deixou além disso um ensaio biográfico sobre o seu pai que é considerado um clássico sobre a história política brasileira.
Escrevendo sob os canhões
"A escravidão, apesar de hereditária, é a verdadeira mancha de Caim que o Brasil traz no fronte."
Joaquim Nabuco, "O Abolicionismo", 1883
Ao troar dos canhões da Armada, alçada na Guanabara contra a República em 1893, Joaquim Nabuco, colocado no ostracismo pelo novo regime, deu-se a redigir no seu escritório do bairro Botafogo o colossal livro sobre seu pai, o senador José Tomás Nabuco de Araújo, um condestável civil da monarquia deposta. Desde 1874, quatro anos antes da morte do patriarca, coletara três caixões repletos de documentos que permitiram-lhe concluir em 1898 os três tomos do Um Estadista do Império. Até hoje um insuperável painel da história política do Segundo Império.
Nabuco, o filho, que começou sua carreira intelectual com um poema ao pai - no qual Machado de Assis, numa crítica, vislumbrou-lhe o talento ("tem o direito de contar com o futuro...") - , encerrou-a tornando novamente o pai o centro de uma espécie de épico da vida parlamentar brasileira. Mas Nabuco foi muito mais do que um admirador da grandeza paterna e orgulhoso da sua linhagem cultural que irá inspirar o seu Minha Formação.
Menino de engenho
Nascido no Recife em 19 de agosto de 1849 e criado no Engenho Massangana, dos seus padrinhos, descendia da aristocracia do açúcar. Senhores de engenho e parlamentares perfilavam-se no passado dos Nabuco de Araújo. Assim é de se imaginar o estupor e o escândalo quando o jovem Joaquim, substituindo o pai no Parlamento nas eleições de 1878, elegeu-se com o slogan "a grande questão para a democracia não é a monarquia, é a escravidão".
 Nabuco aos 15 anos |
Quem imaginaria que esse príncipe da sociedade escravista nordestina poderia aderir ao subversivo grupo dos abolicionistas, formado desde 1866, empregando com sua magnífica figura - chamavam-no de o "belo Quincas" -, e o seu enorme talento de orador e de escritor à causa da libertação dos cativos? Que decepção não representou ele para a classe senhorial que, no dizer de Gilberto Freyre, "levara três séculos se apurando para produzir tão esplendida figura de desertor." Foi essa surpreendente posição assumindo "a causa da plebe" que fez com que um visitante no Rio de Janeiro observasse ser Joaquim Nabuco, simultaneamente, "o homem mais amado e mais odiado do País". Chamaram-no de "petroleiro", de "comunista".
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