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A revolução estética
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Os modernistas de 1922 (charge de Loredano)
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A crítica de Lobato serviu como elemento catalisador para eles. Pensaram, então, em aglutinar forças e marcar presença através de um ato espetacular. A revolução estética que anunciavam merecia algo apoteótico. Aproximava-se o ano de 1922, o ano do centenário da Independência brasileira: era o momento ideal! Como quase todos os integrantes do movimento modernista eram filhos do patriciado paulista, não tiveram dificuldade em obter a adesão de Paulo Prado, curador do Teatro Municipal de São Paulo, que também providenciou os recursos. O prédio tinham um poderoso valor simbólico. Majestoso, imponente, acolhedor dos espetáculos do mundo cosmopolita, ele dominava os altos do Vale do Anhangabaú, da mesma forma que a elite quatrocentona via-se a cavaleiro da sociedade da época. Era, pois, o local ideal para fazer-se um escândalo. Dos dias 11 a 17 de fevereiro, os modernistas promoveram conferências sobre a nova estética entremeadas de recitais, de música ou leitura de algumas obras. No saguão, alguns pintores e escultores espalharam seus trabalhos. A platéia foi à loucura: urravam, guinchavam, pateavam, silvavam, vaiavam de enrouquecer para mostrar seu desagrado com aquilo tudo. Não permitiram que se escutasse nenhuma frase do que Oswald disse. Com Villa Lobos não foi diferente. Tendo adentrado no palco com sandálias, pensaram que era uma pantomima do músico e ficaram quase histéricos. Na verdade, o jovem Villa Lobos havia machucado o pé. Como resumo desse espírito de irreverência, Mário de Andrade deixou os versos:
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Ode ao burguês
Eu insulto o burguês! O burguês-níquel,
o burguês-burguês!
A digestão bem-feita de São Paulo!
O homem-curva! O homem-nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!
(Mário de Andrade)
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Mário e Oswald de Andrade (retratos de Tarsila do Amaral)
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Uma cerimônia crismática
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Cartaz do Teatro Municipal
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Uns tempos depois, passado o vendaval, Yan de Almeida Prado disse que tudo não passou de um estudantada, uma brincadeira de rapazes para quebrar o marasmo cultural da paroquiana São Paulo dos anos vinte. Mas é claro que não se reduziu a isso. Para alguns críticos, a Semana, além de fazer com que as bandeiras modernistas se tornassem hegemônicas sobre o restante do país, foi uma vigorosa tentativa da intelectualidade paulista de vir a liderar a cultura brasileira, adiantando-se, seqüestrando do Rio de Janeiro a primazia de estar à frente das coisas. A Paulicéia começara a se projetar como poderoso centro industrial impulsionado por uma burguesia de imigrantes, o que levou aos filhos do patriciado, reagindo, a ambicionarem ir além , tornando-se a vanguardeira das artes e do pensamento em geral. Para Silviano Santiago (O Crisma Modernista, Revista Bravo, n.º 53), a Semana foi também uma cerimônia crismática, na qual a cultura brasileira inseriu a nação definitivamente na cultura ocidental.
O rompimento com o formalismo
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Figuras populares nas telas de Di Cavalcanti
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Mas afora essas interpretações - entre as quais dela ser apenas mais um ato na longa novela de rivalidades entre paulistas e cariocas -, aceita-se hoje que a Semana da Arte Moderna de 1922 marcou um rompimento definitivo com a arte acadêmica e com a neocolonizada prosa parnasiana, então predominante. Estilo que, na oratória, teve em Ruy Barbosa, o seu nome mais expressivo. Depois dela, da sua revolução estética, a maneira anterior de escrever, pintar e compor tornou-se intragável e forçou a adoção, tanto na poesia como na prosa, de uma linguagem solta, ausente de formalismos, afastada da pedanteria e dos barroquismos que eram tão comuns nas letras nacionais. Não conseguiu, porém, fazer com que o grande público aderisse com entusiasmo às novas formas de expressão estética, aliás como bem poucas vanguardas espalhadas pelos mundo o fizeram. No século XX, os artistas foram lançados num limbo de incompreensão, situação rara de encontrar-se em qualquer outro momento da história da estética.
O biscoito fino
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As massas rejeitaram o biscoito fino que Oswald queria-lhes oferecer (tela de Tarsila do Amaral)
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Prova disso, dessa desassociação do artista com seu público, é que a prosa dos autores modernistas como Mário e Oswald de Andrade são, em quase sua totalidade, ilegíveis. Portanto, a pretensão de Oswald, que previa que algum dia "a massa ainda comerá do biscoito fino que fabrico", não se realizou. Na poesia, com seu verso sem rima nem metro, com a consagração que tiveram mais tarde Carlos Drummond de Andrade e Manoel Bandeira, tal problema não se configurou da mesma maneira, exceção ao movimento concretista dos anos 50, excessivamente cerebral, que não conseguiu conquistar os favores do público.
Para os intelectuais em geral - exceção feita ao grupo regionalista de Pernambuco, liderada por Gilberto Freyre, e o de São Paulo, tendo à frente Monteiro Lobato -, a Semana da Arte Moderna serviu como uma redescoberta estética do Brasil, mostrando-o fruto de uma cultura mestiça, vacilando sempre entre a rusticidade e a civilização, em perpétuas dúvidas hamletianas sobre ser ou não ser do Terceiro Mundo.
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