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A lenda Brasil

"Quem diz delícias e jardins, diz sol e calor. Daí a pensarem que podia encontrar-se, mais além das regiões tórridas que o homem não trespassa, um país de sol temperado e mananciais frescos, não há senão um passo". - Jean Favier - Les grandes découvertes, 1991


Os monges peregrinos do mar da Irlanda

Para alguns irlandeses, vejam só, o Brasil teria sido descoberto por um dos seus, por São Brandão, um abade do mosteiro de Cluain-Ferta que no século 6, em companhia de 14 ou 16 outros monges, ao tentar atravessar da Irlanda para a Escócia , saiu-se a vagar pelo Oceano por seis meses, ou seis anos, seguidos. Aconteceu de tudo com aquele Ulisses de hábito e capucho. Em cada praia desembarcada nos remotos arquipélagos que encontravam, registrou a The Norse Sagas, eram ciclopes ou as inevitáveis sereias quem os atormentavam. Certa vez, durante essa inesperada aventura marinha, concentrada a maior parte no Atlântico Norte, São Brandão, assaltado por incrível distração, celebrara uma missa de Páscoa nas costas de uma imenso cetáceo, sem ter-se dado conta disso. Pois foi esse rei dos desatentos quem teria vindo parar no Brasil, não no nosso Brasil, esclareça-se, mas no que os antigos irlandeses chamavam de ilha Brasil.

O significado do brasil gaélico: as lendas gaélicas desde idades remotíssimas, faziam referência a existência dessa tal ilha que seria o equivalente irlandês das Ilhas Afortunadas da mitologia greco-romana. Terra de leite e de mel que localizava-se num ponto indeterminado dentro do Grande Oceano, mas seguramente bem mais abaixo da Irlanda. Filólogos, essa gente de tanta imaginação, asseguram que "brasil" em gaélico, a língua primitiva dos povos da Irlanda, derivaria de "brés", significando "nobre" ou "afortunado", mas que também pode ser entendido como "feliz" e "encantador". Seja como for descreviam-na como um paraíso na terra. Desta forma a palavra "brasil" preexistia à descoberta de 1500 e não a associavam ao pau-brasil, conhecido então como verzino, um pau-de-tinta cujo comércio era praticado pelos italianos com os indianos desde o século 13. Varnhagem no passado, e Luís Weckmann no presente, asseveram que esse nome já aparecia numa Carta Anônima de 1324 e que desde aquela data até 1500, ela esta assinalada mais 28 vezes nos mapas, portulanos, e outros registros cartográficos conhecidos.

Brasil, terra de encantamentos: bem antes dos portugueses e espanhóis porem seus pés nas praias do nosso litoral ou arribarem nas margens dos rios, a palavra Brasil pois já lhes alimentava a extravagância como uma praça de encantamentos, morada de seres fabulosos criados por Deus para assombrar os cristãos. Havia pois uma predisposição deles em maravilharem-se com tudo a ser visto por aqui, mesmo que preliminarmente não chamassem assim a terra desvelada.


Os europeus e os nativos

As fantasias dos descobridores: suas fantasias de homens medievais já vieram povoadas de figuras prodigiosas cujas formas e nomes deitavam raízes na mitologia da Arcádia e do Lácio, na crença nas amazonas (a tribo de mulheres guerreiras que chegavam ao exagero de amputar um dos seios para melhor flechar os inimigos, que Francisco Orellana disse ter enfrentado na confluência do grande rio com o Rio Madeira) e até em verem Héracles tropicais, nos Curiguerês, os colossos humanos de três metros de altura, de cor de cobre, que viviam na beira do Rio Purús, sendo que até Colombo jurara ter avistado sereias nas Antilhas (se bem que, segundo ele, longe delas serem aquelas beldades mitológicas).


A celebração das Amazonas

Mesmo o sóbrio Gabriel Soares de Souza, o homem do Tratado Descritivo do Brasil de 1587, rendeu-se às aparições monstruosas quando reiterou que volta e meia nas cercanias da sua propriedade no Recôncavo baiano, surgia do fundo da água um Upupiara, um homem-marinho de pele escamosa, com mais de três metros de cumprimento, que num salto, num repente, devorava-lhe um escravo. Mas isso não impediu dele admirar-se com a terra.

A terra do diabo para os jesuítas: quem nunca acreditou que o Brasil fosse uma espécie de paraíso terreal foram justamente os padres, os jesuítas. Não que não se deliciassem com beleza das coisas, pelo céu azulcíssimo, a brisa gostosa da beira-mar, e pela ausência daquele vento cortante, gelado das Europas. É que para eles, homens de Deus, a safadeza aqui reinante era excessiva. A gente avermelhada sempre nua, com as impudências à mostra, o sorriso convidativo das nativas, "cevando as queixadas bestiais em corpos humanos", como disse Anchieta, exalava à pecado e não à santidade. Bastava-lhes ver o olho lúbrico do português, casanova nos trópicos, ávido de índias, descalçando-se, jogando-se nos riachos e nas ribeiras atrás delas na hora do banho, para perceberem que além de "quebrantarem as leis santas da mãe natureza e os divinos preceitos do Pai onipotente", nem toda a água-benta do mundo purificaria a perdição e a sem-vergonhice do chão recém descoberto. Paraíso coisa nenhuma. Era, isso sim, a Terra do Diabo!

O jesuíta chocado com a liberalidade e a selvajaria



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