BUSCA + enter






As Forças Armadas
Entre o pó e a farda

"Há a profissão mais alta e mais honrosa do que a de soldado? Há profissão mais baixa e mais degradante do que a de capitão-do-mato?" - Joaquim Nabuco, sessão legislativa, 1887


Deodoro da Fonseca, em 1887 ele já alertara os civis para não fazerem mau uso do exército
Deram ao capitão Pantelão, um personagem de Vargas Llosa, uma missão e tanto. Os seus superiores do exército peruano ordenaram-lhe que arregimentasse um destacamento de rameiras para satisfazer as precisões sexuais dos regimentos enfiados na longínqua floresta amazônica. Lá, os pobres recrutas, afastados da civilização e dos bordéis, penavam pela absoluta ausência de mulheres. Ou, pior, quando se deparavam com as mulheres dos nativos das redondezas, não as deixavam em paz. Pantaleão saiu-se airosamente. Eficiente e esmerado, em pouco tempo formou uma ágil força-tarefa de messalinas que, rápida e patrioticamente, atenderam às pulsões naturais da tropa. O exemplar capitão terminou condecorado, mas transferido.

Além de ser uma aventura divertida e imaginária, a ficção de Vargas Llosa expôs porém uma realidade. O envolvimento de Pantaleão nos meandros do meretrício e do baixo mundo o metamorfoseou. Por correto que procedesse naquela delicada incumbência ele não escapou de parecer-se, aos poucos, um rufião: o Pantoja. Com o tempo ele deixou umas melenas cheias de gomalina cobrirem-lhe as orelhas, enquanto usava camisas floridas, abertas no peito, mostrando um medalhão ordinário de ouro falso pendurado nele. É verdadeiro, pois, o fato de que, quando se constrange os militares para fora das suas funções históricas e constitucionais, periga-se em degradá-los.

Pois é exatamente isso que um difuso poder civil teima em tentar fazer com as Forças Armadas brasileiras. Volta e meia, vozes clamam pela necessidade de fazer com que seja preciso mobilizá-las na luta ao narcotráfico e usa-las para o policiamento ostensivo nas grandes cidades. É, como se sabe, uma reivindicação dos norte-americanos junto aos governos latino-americanos. Querem eles fazer dos militares, polícia. Querem-nos no combate direito ao tráfico.

A posição norte-americana

Desde que a Guerra Fria terminou, já vai para mais dez anos, o Departamento de Estado dos Estados Unidos empenha-se nessa reciclagem. Enviaram para isso uma enfiada de generais e outros legatários, para convencer (por vezes, como transpirou, com linguajar inconveniente), seus colegas da alta oficialidade, a assumir a guerra anti-drogas.

Pretendem vê-los atuando como tropa de choque na destruição das plantações de coca e no desbarato das rotas clandestinas da droga. De ex-caçadores de comunistas, como os prepararam desde os anos 60 na Escola das Américas, desejam-nos agora como caça-traficantes. É um rebaixamento.

O pó suja a farda

Além disso, dois exemplos recentes, ocorrido em países latino-americanos, desse desvio de função nos bastam. Tanto os mexicanos como os colombianos, forçados pelas pressões pentagonianas a colocar seus exércitos nesta inglória tarefa, padeceram enormes desgastes e frustrações. O resultado prático tem sido nulo. Nulo e pernicioso. Como muitos previram, histórias envolvendo a hierarquia militar na proteção de narcotraficantes, ou metidos em corrupção por causa da droga, viraram rotina. O pó deu para sujar a farda. E tudo isso, segundo se sabe, sem que efetivamente diminuísse uma grama sequer no seu volumoso tráfico.

A causa maior desse fracasso, de lançar-se mão das forças armadas para fins que não lhe são de princípio, deriva da própria essência da profissão de homens de armas. Os romanos, por exemplo, denominavam suas fortificações de castrum, que vem a dizer que exige-se que o seu defensor seja um castus, o que se conforma com as regras, o disciplinado, o correto, o que é despido de barbarismos: o legionário enfim (do latim legio, o escolhido, o selecionado), o soldado. Nada mais perigoso, pois, do que enviá-los para reprimir o submundo. O contágio é inevitável.

Desvio de função

Por não disporem dos anticorpos necessários, os militares infectam-se com os miasmas exalados pelo dinheiro sujo, e pelo bandoleirismo dos narcotraficantes. E, ademais, não se vislumbra qual o benefício disso para o país. O que teria o Brasil a ganhar ao pôr em risco a coesão e a integridade moral da nossa oficialidade neste tipo de luta? Além do mais, quando um jovem brasileiro se apresenta numa circunscrição militar, ele está lá para servir na defesa da pátria e da ordem constitucional e não para subir em morros, destreinado e mal aparelhado, para travar tiroteios com as quadrilhas de traficantes. E também não está nem um pouco disposto a ficar de patrulhas nas esquinas e nos morros da sua cidade correndo atrás de marginais. Para esta função o governo dispõe de mecanismos institucionais e constitucionais adequados. Se ele não quer lançar mão deles é um outro problema do qual as forças armadas nada tem a haver.

Expõe-se o governo atual, e muitos dos civis espalhados pelos outros poderes que conspiram para esta causa infeliz, a receber como resposta a mesma que o Marechal Deodoro deu em 1887, ao regime monarquista que o queria em operações de capitão-do-mato, para resgatar os escravos fugidos das fazendas: "Não nos dêem tais ordens, porque não as cumpriremos!".



 ÍNDICE DE BRASIL





 
 » Conheça o Terra em outros países Resolução mínima de 800x600 © Copyright 2002,Terra Networks, S.A Proibida sua reprodução total ou parcial
  Anuncie  | Assine | Central de Assinante | Clube Terra | Fale com o Terra | Aviso Legal | Política de Privacidade