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O primeiro encontro

Na manhã do dia 22 de abril de 1500, um bote cheio de marinheiros lusitanos que haviam feito a travessia do Atlântico, encontraram nas praias do litoral sul da Baía de hoje, gente que ninguém vira antes. O homem da Idade do Ferro, viu pela primeira vez o Homem da Idade da Pedra. Começava ali a história do Brasil.



Caminha lê a carta a el'rei no camarote de Cabral

"Desembarcamos logo na espaçosa parte, por onde a gente se espalhou, de ver cousas estranhas desejosa. Da terra que outro povo não pisou: porém eu com os pilotos na arenosa praia, por vermos em que parte estou, me detenho em tomar do Sol a altura e compassar a universal pintura." - Camões "Os Lusíadas", canto V, 1572

A reunião dos capitães

Na manhã, já alta, do dia 22 de abril de 1500, todos os capitães reuniram-se na nau-capitania para deliberar. Cabral, "homem de muitos primores", dado aos veludos e às holandas, os recebeu no seu camarote de grão-senhor, entre rodadas de vinho. A travessia pelo "mar longo" fora um sucesso. Era a primeira vez que eles se encontravam desde a partida de Lisboa, donde desferraram-se havia mais de 40 dias passados. Lá, entre os chefes dos homens do mar, estava o substituo de Cabral, o jovem exilado castelhano Sancho de Tovar. Além dele via-se Simão de Miranda, Aires Gomes da Silva, cujos antepassados vinham de Leão e Castela, os irmãos Dias, Diogo e Bartolomeu (que sumiria num tufão em alto mar, uns tempos depois), Simão de Pina, o neto do velho Rui de Pina que negociara o Tratado de Tordesilhas, Pêro de Ataíde, que ainda lamentava o desaparecimento do seu irmão Vasco, nas alturas do Cabo Verde; Duarte Pacheco, o "Aquiles lusitano", que alguns estimam ter estado aqui um ano antes; Nuno Leitão da Cunha; o célebre Gaspar de Lemos; Luís Pires, e, ainda, o feitor Aires Corrêa, que iria fundar um estabelecimento ao aportar mais tarde em Calicute. Tratava-se da fina flor da nobreza lusa, descendentes muitos deles dos valentes que lutaram em Aljubarrota em 1385, a batalha que garantiu a independência lusitana. Eram a vanguarda dos conquistadores do Mar Oceano.

Nicolau Coelho vai até a praia


Homens-natureza, saidos diretamente das mãos de Deus
Da murada do barco, ancorado numa pequena enseada, um quilômetro ou um pouco mais longe das areias, no atual litoral sul da Bahia, avistaram um grupo de nativos andando pela praia. Eram só uns sete ou oito. Sem haver sinais visíveis de hostilidade, determinaram que Nicolau Coelho fosse num batel averiguar as novidades daquela terra ignota . Esperançados de serem elas as costas mais extremadas do Malabar, disseram-lhe que levasse o judeu Gaspar. Este, um prodígio em línguas, recepcionara Vasco da Gama no mais puro italiano, quando da chegada do capitão em Calicute, dois anos antes, em 1498. Capturado e convertido ao cristianismo com o sobrenome de "Gama", levaram-no para Portugal, onde até o rei o consultava em coisas das Índias.

Quando o bote aproximou-se da embocadura do rio, um bando de nativos armados e completamente nus, veio firme para cima deles. Nicolau Coelho, escolado em abordagens africanas, fez sinal de paz para que deixassem as flechas de lado. Caminha, o escrivão-mór da frota, que o acompanhava, encantou-se com a estampa deles. Bons de corpo, pernas e braços rijos, de cor parda ou avermelhada, feições definidas, e totalmente desavergonhados nas coisas de sexo. Estranhou-lhes o escriba, os beiços trespassados por ossos e a cabeça raspada, sabe-se lá a que custo, bem mais para o alto da orelha, decorada com penas de pássaros.


Casal de nativos

Troca de presentes

Ali mesmo na praia trocaram presentes. Nicolau Coelho estendeu a eles um "barrete vermelho e uma carapuça de linho", além de "um sombreiro preto". De volta, deram-lhe um cocar e um colar de continhas brancas. Tudo feito por mímica, por sons. Gaspar da Gama, o homem das mil línguas, não entendeu uma só palavra trocada entre eles. Era gente nunca vista dantes por ninguém que ia a bordo. Se verdes e papagaios não faltavam naquelas margens, ouro que era bom, nem nada. Sequer ferro ou outros metais. Uma decepção.

Nativos a bordo

Cabral, que neste dia não arriou, fez questão de trouxessem alguns nativos a bordo. O piloto Afonso Lopes, andando a remar atrás de um bom porto, deparou-se com dois rapagões por ali disponíveis. Levaram-nos ao comandante. Para espanto dos marinheiros, que os receberam "com muito prazer e festa", logo depois de terem sido apresentados, e largamente examinados por um Cabral vestindo em pompa, acompanhado dos seus capitães, deitaram-se os dois no convés para um tranqüilo sono. O único entusiasmo que os jovens índios demonstraram, depois de se assustarem com umas galinhas, deu-se por "um rosário de contas brancas". Definitivamente, eles não eram súditos do Samorim ou de um Marajá. Aliás, pelo que viram, deram com um povo sem lei, nem fé, nem rei!

Um novo mundo


Pardos, avermelhados, cheios de penas
Encontraram, os lusos, um outro mundo abaixo do equinócio. Ninguém o assinalara antes. Nem os portulanos o indicavam, nem o celebrado Globo de Martim Behaim de 1492, onde, ao ocidente, só se viam desenhadas algumas ilhas, a maioria delas imaginárias (com a das "Sete Cidades", ou mesmo uma de nome "Brasil"). Se Deus, até então, não avisara a existência daquelas terras aos cristãos, e se os nativos ignoravam a existência de Jesus Cristo, concluíram também que não tinham ciência, nem juízo, do crime de Adão. Convenceram-se, então, não haver Pecado do lado de cá do equador. Por essas bandas era um vale-tudo.



 ÍNDICE DE BRASIL





 
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