Apolo e Dionísio
Erwin Rohde, um colega de Nietzsche, interpretou a transformação de Dionísio de um irreverente deus das folganças num ente oficioso, à interferência de um outro deus: Apolo, o deus Sol. Sendo este uma divindade do Estado, ele não podia permitir que aquela subversão dos costumes ficasse solta pelos campos a provocar loucuras, incitando os pobres à desordem e ao deboche. Apolo então atraiu Dionísio para dentro da cidade com ofertas mil, e, como sócio maior, domou-o. Em Roma, com as saturnais, as incríveis e desregradas festas populares que se davam em dezembro, deu-se praticamente a mesma história. Em Veneza ou em Nova Orleãs, em Salvador da Bahia ou no Rio de Janeiro, o deus bastardo da bebida e do atrevimento, tornou-se amansado pela política envolvente do deus do Sol, Apolo.
O Carnaval Brasileiro
O carnaval brasileiro, trazido pelos portugueses no século 17 com o nome de entrudo, é um herdeiro direto das bacantes e das saturnais greco-romanas. E, pode-se dizer, ao longo desses três séculos em que tornou-se na maior festa popular do Brasil, percorreu a mesma trajetória de acomodação dos seus antecessores. A plebe colonizada imediatamente aderiu ao entrudo como um imperdível momento de inverter, ainda que simbolicamente, o mundo desgraçado em que vivia. Naqueles dias tão aguardados, quando a troça assumia ares de majestade, nenhum fidalgo ou pomposo qualquer, nada que fosse solene, oficial ou sublime, escapava da mordacidade dos festeiros do rei Momo (deus pagão menor que presidia os festejos carnavalescos em Roma).
Domesticando Dionísio
No Brasil, Apolo - a lógica do interesse do Estado - igualmente interviu. A partir de 1935, com o crescente centralismo estatal determinado pela Revolução de 1930, começou-se a sufocar a salutar espontaneidade popular submetendo os desfiles populares a regulamentos, horários e trajetos a serem cumpridos à risca. É a ordem da desordem! Seduziram Dionísio - em troca da obediência às regras de boa conduta - com promessas de honrá-lo em lugares especiais, próprios (sambódromos, passarelas de samba, concursos, prêmios, etc.), acertando em troca o fim da zombara e do ridículo em que antes os seus seguidores, os celebrantes de Baco, submetiam os poderosos naqueles três dias de tumulto e beberagem. Desde então as escolas de samba do Rio de Janeiro, e as outras que as imitaram, enfiaram-se numa camisa-de-força.
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O teatro de Dionísio e o sambódromo
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Contendo a irreverência
Caíram na armadilha de Apolo. Para exibirem-se ao grande público precisavam de dinheiro, que, como se sabe, só se encontra nos bolsos dos figurões, públicos ou privados. Impedidos moralmente de ridicularizarem ou glosarem os patrocinadores que os mantêm e amparam, os sambas-enredo - expressão musical do Dionísio acomodado de hoje -, esvaziados da irreverência e da gostosa safadice, não dizem mais nada. Comumente a cantoria é só elogio e reverência, quando não propaganda aberta de quem financiou o desfile. O luxo das fantasias e a parafernália dos alegóricos cerceia qualquer gesto mais solto, espontâneo ou original, liberando-se apenas a sensualidade, exposta em nichos especiais, não mais acolhendo o elemento de contestação divertida. O resultado disto é a mesmice. Quem assiste a um só desfile de escola de samba - ainda que reconhecendo estar frente a um dos maiores espetáculos populares da Terra - viu a todos, os que passaram e os que ainda virão. Domesticaram Dionísio!
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Desfile das alas de escola de samba rivais. Qual a diferença?
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