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O Brasil visto por franceses


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Os filhos do Éden

As primeiras impressões deixadas pelos letrados franceses sobre os indígenas brasileiros no século XVI, as de Montaigne de Jean de Léry, foram por assim dizer de admiração. Mesmo o costume da antropofagia, tão comum naquela época, não lhes pareceu tão condenável visto as circunstâncias em que os nativos se encontravam. A imagem idealizada que criaram, especialmente a transmitida por Montaigne, inspirou muitas teses sobre a bondade natural do homem. Com a passagem dos séculos, porém, essa segurança do nativo brasileiro ser um Adão no Paraíso deu lugar a uma outra, bem mais realista, a apresentada pelo etnólogo Claude Lévy-Strauss quando visitou o interior do Brasil nos anos 30 do século XX. Sua percepção pouco indulgente também nos ajudou, pois "os franceses, usando a sua língua, empregando os seus métodos, nos punham dentro do país", como disse o professor Antônio Cândido.

Montaigne e os Tupinambás

"Mas, que diabo, essa gente não usa calças."

Montaigne - Ensaios, 1572-80


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"Eles não usam calças!"

Michel de Montaigne foi o primeiro homem de letras de peso a encontrar um par de índios brasileiros e deixar um belo registro disso. Foi em Ruão, quando uns homens de raça vermelha recém-desembarcaram trazidos do Novo Mundo. Trouxeram-nos afim de serem exibidos ao rei Carlos IX, que posou para os índios, vistos então quase como extraterrestres, como transformado num agradável hospedeiro, fazendo-lhes festas e mostrando-lhes o cotidiano da corte. Tratava-se de um grupo de tupinambás, com tangas e penas, que uns marinheiros bretões arrastaram a bordo como amostra viva e testemunhos das suas viagens. Serviram eles, tupinambás acrescidos de um grupo de tabajaras, como figurantes numa sensacional festa em Ruão, organizada pelos mercadores locais em homenagem a um outro rei, Henrique II, e que contou com a presença da bela Mary Stuart, rainha da Escócia (festa que de tão fabulosa mereceu várias gravuras, aparecidas em 1551).

O Filósofo e o Morubixaba


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Montaigne dialogou com um morubixaba

Tentou o sábio, com o auxílio de um trôpego intérprete, comunicar-se com eles, relatando esse encontro nos seus Essais (Ensaios I, Capítulo XXXI, Dos Canibais), escrito entre 1572-80. Recordou que uma das coisas que mais espantaram os selvagens recém-chegados é de "que há entre nós gente bem alimentada, gozando das comodidades da vida, enquanto metades de homens emagrecidos, esfaimados e miseráveis, mendigam à portas dos outros". O que parecia ser o morubixaba, o chefe do grupo, disse que achava extraordinário que "essas metades de homens suportem tanta injustiça sem se revoltarem e incendiarem as casas dos demais."

Esse, presume-se, foi o primeiro diálogo registrado na alta literatura entre um francês e um nativo do Brasil. Montaigne, um tanto antes deste inusitado encontro, fornira-se de informações trazidas por um serviçal seu que, como homem do mar, havia estado um decênio antes na França Antártica.


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A festa indígena em Ruão

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