INTRODUÇÃO:
INCERTEZA. Tal é o princípio que rege de hoje em diante
a marcha do mundo. O campo de instabilidade alargou-se às
dimensões do planeta e, em quase todos os domínios, reina
agora a indeterminação. Ao universo previsível da Guerra
Fria (equilíbrio pela potência militar comparável dos dois
supergrandes) sucede um contexto geopolítico fortemente
perturbado, imprevisível, enigmático.
LE MONDE DIPLOMATIQUE, jan.1992
A
queda dos regimes do leste europeu, o declínio e a posterior
desintegração da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas
encerraram a Guerra Fria em seu sentido formal e puseram
fim ao sistema bipolar, vigente desde a Segunda Guerra Mundial.
Muitos analistas viram neste conjunto de acontecimentos
a vitória dos Estados Unidos da América, introduzindo a
unipolaridade, o "fim da História" (Francis Fukuyama) com
a queda das ditaduras, a abertura das economias, a hibernação
das concepções coletivistas, e a inauguração de uma nova
era marcada pela paz, democracia e prosperidade, que o Presidente
George Bush denominou de Nova Ordem Mundial, durante o encontro
de Malta com Gorbachov em dezembro de 1989.
Não
tardou para que a realidade mostrasse que efetivamente encerrara-se
um período histórico, mas o que se iniciava era uma fase
de turbulência e transição, na luta por uma nova ordem global.
Se no plano diplomático e militar a situação dos EUA pareciam
apontar para um sistema unipolar, por outro lado a dimensão
econômico-tecnológica configurava traços de multipolaridade,
num sistema internacional de contornos marcadamente pós-hegemônicos,
onde a super-potência sobrevivente busca uma reconcentração
do poder. Contudo, nem a Europa Ocidental ou a Ásia Oriental
parecem capazes, a médio prazo, de produzir um sucessor
para o império americano. Washington continuará a deter
uma margem de ação invejável por um bom tempo.