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Ao mesmo tempo, a Casa Branca liderou a globalização neoliberal (que produziu muitos perdedores e poucos ganhadores), e foi tentada a exercer uma hegemonia unilateral que, na gestão Bush, chegou a desconsiderar seus próprios aliados da Otan. A falta de adversários à altura levou os EUA a uma certa perda de parâmetros, sobrevalorizando o emprego da força sem a necessária mediação político-diplomática. Desta forma, atraiu contra si um ressentimento generalizado e difuso, mesmo quando revestido de certa admiração.

Por outro lado, sem que a opinião pública (e mesmo a maioria dos analistas) se desse conta, ações mal calculadas produziram novos inimigos e expuseram certas debilidades americanas. A guerra de novo tipo contra o Iraque foi um sucesso, mas somente até certo ponto. Gerou-se um ódio anti-americano generalizado nos países muçulmanos, enquanto Saddam Hussein sobrevivia, simbolizando o valor da resistência. A intervenção "humanitária" na Somália culminou com uma derrota militar e uma retirada humilhante. As retaliações ao Sudão e ao Afeganistão, após o atentado às embaixadas americanas na África oriental, não detiveram a ação terrorista, revelando-se contraproducentes.

Na seqüência, a guerra do Kosovo (que visava legitimar a expansão da Otan ao leste europeu) e, depois, o chamado escudo antimísseis, acabaram produzindo uma mudança radical na diplomacia da Rússia e uma aliança estratégica desta com a China. A própria resistência da Iugoslávia de Milosevic e os resultados ambíguos da guerra, representaram conseqüências políticas negativas, momentaneamente encobertas pelo sucesso militar. A aliança americana com oposições destrutivas e de moralidade duvidosa, como a dos albaneses, revelaram-se igualmente uma faca de dois gumes, como a crise atual na Macedônia tem demonstrado.

O fim do século XX e a passagem ao terceiro milênio foram, em termos simbólicos e práticos, bastante adversos aos Estados Unidos. A economia americana desaqueceu e aponta para a recessão, com conseqüências mundiais. Paralelamente, a eleição presidencial americana acabou produzindo uma desmoralização sem precedentes, maculando a lisura da democracia do país, até então imposta ao mundo como o modelo. O candidato republicano, George W. Bush, ficou em segundo nos votos populares, mas venceu no colégio eleitoral, numa recontagem obscura e confusa ocorrida na Flórida (que era governada por seu irmão).

Assim, após dois mandatos democratas, assume um presidente mal preparado e mal assessorado, que interrompe o trabalho de estruturação de uma ordem mundial centrada na priorização de grandes organizações multilaterais (monitoradas pelos Estados Unidos), que Clinton vinha realizando. A tentação do exercício de um poder unilateral, por sua vez, tem gerado tensões internacionais em todos os níveis, a maioria delas absolutamente desnecessárias, mesmo sob a ótica dos próprios interesses americanos.
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