Outros artigos
14 de setembro de 2004

Brasil-China: 30 anos de relações diplomáticas

Há trinta anos, durante o governo Geisel, o Brasil estabeleceu relações diplomáticas com a República Popular da China e, devido à aceitação internacional do princípio da existência de uma só China, rompeu relações com a República da China (também conhecida pelo nome da única província chinesa onde exerce soberania: Formosa ou Taiwan). Soberanamente, o país se colocava em dia com a grande política mundial, pois em 1971 Pequim (que se aproximou de Washington), passou a ocupar a vaga de membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, em lugar de Taipé. Era também uma aposta no futuro, pois a China ainda vivia os últimos dias da era Mão Tse-Tung, que viria a morrer em 1976.

Em 1978 a China iniciou seu programa de reformas e "quatro modernizações", que em um quarto de século mudou a face do país (industrialização intensiva e um crescimento de 10% ao ano), e iniciaram a mudar o equilíbrio de forças no planeta. Muitos pensavam nas oportunidades comerciais, cada dia maiores (a China hoje consome 55% do cimento e 36% do aço do mundo, além de importar imensas quantidades de alimentos e matérias primas), mas outros apostavam mais numa Parceria Estratégica, que significa cooperação e apoio mútuo para o desenvolvimento econômico-social, tecnológico e a construção de um mundo pacífico e multipolar. Uma associação entre o maior país em desenvolvimento do hemisfério Norte e o maior do Sul. Nem todos os governos souberam aproveitar a oportunidade, mas as relações foram intensas, com os presidentes Figueiredo, Sarney, Cardoso e Lula tendo visitado a China, que enviou vários presidentes e primeiros-ministros ao Brasil.

O Brasil exportou produtos primários como soja e ferro, além de aço, em quantidade cada vez maior, importando bens de consumo popular e equipamentos eletrônicos e máquinas, com uma balança comercial favorável. Mas ao mesmo tempo, houve cooperação mútua em infra-estrutura, com empresas brasileiras participando da construção da hidrelétrica de Três Gargantas (a maior do mundo) e os chineses na construção de ferrovias no Brasil, por exemplo. O projeto de satélites de sensoriamento remoto e a parceria tecnológica em áreas de ponta, como a nuclear, são exemplos avançados de cooperação Sul-Sul (entre países em desenvolvimento). A busca de investimentos recíprocos é um processo que está iniciando.

Igualmente importante é a dimensão político-diplomática da relação bilateral. Além do apoio chinês à candidatura do Brasil ao CS da ONU, ambos países cooperam na construção de um sistema mundial multipolar, que revalorize o papel da ONU, dentro do espírito dos chamados Cinco Princípios da Coexistência Pacífica. Além disso, o estabelecimento do G-20 (com a participação dos dois países), visando fortalecer a posição dos países em desenvolvimento da OMC, foi um sucesso. A cooperação bilateral é de grande vantagem, se o Brasil encarar com seriedade a parceria estratégica e não concentrar a agenda apenas em aspectos comerciais, adotando um projeto de desenvolvimento mais ousado.

Finalmente, há elementos em que a China pode inspirar o Brasil, como a inclusão social e o desenvolvimento econômico. Apesar da China ainda ter uma renda per capita menor que a do Brasil (US$ 1.130 contra 3.000), em muitos indicadores sociais eles nos ultrapassaram. Ainda que as reformas produzam desigualdade, segundo a ONU 400 milhões de chineses saíram da faixa de pobreza em pouco mais de uma década. A auto-estima do povo chinês também poderia nos inspirar. Mas o mais importante é o Brasil saber construir alianças para poder avançar, identificando paises com interesses comuns. Neste sentido, a decisão tomada há 30 anos, tão criticada então, foi correta.

 
 » Conheça o Terra em outros países Resolução mínima de 800x600 © Copyright 2005,Terra Networks, S.A Proibida sua reprodução total ou parcial
  Anuncie  | Assine | Central de Assinante | Clube Terra | Fale com o Terra | Aviso Legal | Política de Privacidade