A vitória do "No" (não) à antecipação de eleições presidenciais na Venezuela foi mais um triunfo de Hugo Chávez, o polêmico dirigente do país. Desta forma, mais uma vez ele sobrevive a um intento de afastá-lo do poder (a última foi o frustrado golpe de Estado de abril de 2002). Obviamente a antipatia norte-americana por seu governo e as manobras da oposição não cessarão, mas terão de expressar-se através de meios mais sutis.
A explicação para o fenômeno, contudo, não reside exclusivamente na figura de Chávez, mas na situação que a Venezuela enfrentou nos últimos quinze anos. Depois de um longo ciclo de prosperidade garantida pelo petróleo, com a distribuição social de parte da renda via clientelismo político, o país entrou em crise nos anos 80. A renda fácil obtida pelo petróleo provocou a atrofia dos setores agrícola e industrial, além de corromper as instituições. Em 1989 o social-democrata Carlos Andrés Perez voltou ao poder, com a promessa de retorno aos velhos tempos dourados. Contudo, dias depois aplicou um plano de ajuste do FMI, que produziu um levante, com uma semana de violência e centenas de mortos e feridos (o "caracazo").
Em meio aos problemas Hugo Chávez, então coronel da ativa, desencadeou um golpe em 1992. Com o fracasso deste, ele assumiu a responsabilidade e foi preso, dedicando-se a estudar ciência política. Anistiado pelo presidente Rafael Caldera (democrata-cristão), ele concorreu à presidência e foi eleito com uma votação massiva em 1998. Seu estilo popular (ou "populista", segundo seus adversários) inaugurou uma nova forma de governar, apoiado nas classes mais pobres. Aproveitado a falência das corruptas instituições políticas e jurídicas, ele lançou um ambicioso plano de reformas do Estado, que no campo econômico revertia as políticas neoliberais de seus antecessores.
Para poder aprová-lo, ele antecipou as eleições, para aprovar a nova Constituição, vencendo mais uma vez. Assim, ele foi o primeiro presidente latino-americano a arriscar metade do seu mandato, com vistas a implantar as reformas. Estas reformas evidenciavam a fragilidade do modelo de democracia liberal e de economia neoliberal vigentes no continente, no contexto de uma maciça exclusão social. A elite venezuelana viu seus privilégios ameaçados e os EUA (que importa a maioria do petróleo venezuelano) ficaram preocupados. Mas a administração Clinton e a oposição, baseado-se no comportamento aparentemente desarticulado de Chávez, preferiram apostar no desgaste de um modelo político que consideravam disfuncional.
Mas a chegada de Bush ao poder e as ousadas manobras internacionais do presidente venezuelano, rearticulando a OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) e promovendo a cooperação com os "Estados parias", como Cuba, Líbia e Iraque, levaram a Casa Branca e a oposição a endurecer sua política. Um golpe chegou a afastar Chávez do poder em abril de 2002, mas ele retornou com enorme apoio popular dois dias depois. A oposição, por sua vez, sofreu um grande desgaste. A vitória de Lula diminuiria o isolamento de Chávez, o que levou a oposição a promover uma grande greve, especialmente no setor petrolífero, na passagem de 2002 para 2003, mas o governo resistiu.
Desde então, os anti-chavistas recorreram à estratégia de solicitar um plebiscito revogatório, alegando uma má gestão do país. Depois de avanços e recuos, a oposição conseguiu o número de assinaturas necessárias, mas Chávez venceu com facilidade, obtendo quase 60% dos votos. Suas políticas na área social (especialmente educação e saúde) e a crescente mobilização dos setores pobres propiciaram a vitória do polêmico líder. Ele se fortalece, mas os fatores de instabilidade permanecerão, pois a Venezuela segue dividida.