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28 de julho de 2004

O Sudão e a catástrofe humanitária de Darfur

A guerra civil que afeta o sul do Sudão praticamente desde sua independência, em 1956, atingiu um novo patamar com a catástrofe humanitária que se esboça na região de Darfur, no oeste do país. Há 110 mil refugiados no vizinho Tchad, 700 mil refugiados internos e mais de dez mil mortos na região, em um ano e meio de enfrentamentos. O que a opinião pública tem dificuldade de entender é como teve origem mais esta tragédia e quais seus possíveis desdobramentos?

O Sudão é o maior país africano (2,5 milhões de km²), uma superfície pouco maior que a da Argentina, e com uma população equivalente (35 milhões). A geografia é variada: o norte é desértico, o centro tropical e o sul equatorial. A colonização inglesa deixou uma razoável infra-estrutura ao país, mas legou um mega-problema: para neutralizar o nacionalismo das populações arabizadas do norte, anexou uma região de população africana animista e cristã no sul (um terço do território e da população). A agricultura é a principal atividade, especialmente algodão, e recentemente começou a exploração de petróleo, descoberto nos anos 80.

Com o governo central em Kartum controlado pelas populações islâmicas do norte, o sul manteve uma luta armada de 1955 a 1972, com uma trégua até 1983, quando os conflitos reiniciaram, perdurando até hoje. O Sudão viveu alguns períodos democráticos anárquicos e longas ditaduras militares repressivas, oriundas de golpes de Estado: o general Nimeiri governou o país de 1969 a 1985 e o general Omar el-Bechir governa desde 1989. Ambos iniciaram regimes de esquerda, mas para obter apoio financeiro das petromonarquias árabes, evoluíram para regimes islâmicos, implantando a Sharia, a lei islâmica, o que fomenta a revolta da desatendida região sul.

Além disso, o país sofreu a influência dos conflitos da Etiópia/Eritréia nos anos 70-80 e do Tchad nos anos 80, cujos governos apoiaram grupos rebeldes dentro do Sudão. Para complicar, em 1990 o país apoiou o Iraque e teria hospedado Bin Laden, cujos partidários foram expulsos em 1996. Mas após os atentados contra as embaixadas americanas no Quênia e Tanzânia, em 1998, os EUA lançaram um ataque de mísseis contra uma indústria em Kartum. Da mesma forma, para evitar o isolamento internacional, o governo sudanês entregou o famoso terrorista dos anos 70, Carlos, o Chacal, ao governo francês. Assim, o Sudão sempre foi considerado parcialmente como "Estado pária" (rough state).

Com a descoberta de petróleo no centro-sul e a exploração iniciando no ano 2000, o governo buscou uma negociação com os guerrilheiros do Exército Popular de Libertação do Sul, liderado por John Garang, havendo desde então uma certa calma. A guerra civil no sul causou 1 a 2 milhões de mortos (a maioria pela fome) e 4 milhões de pessoas deslocadas. A prospecção petrolífera foi concedida à estatal sudanesa de petróleo e companhias da China, Malásia, Catar, Canadá, França, Áustria e uma joint venture sueco-americana. Mas quando tudo parecia caminhar para a normalização, ocorreu a crise de Darfur.

A região foi esquecida durante a guerra entre o governo e os rebeldes sulistas, mergulhou no caos, com enfrentamentos tribais e uma explosão demográfica (a população dobrou em 20 anos). Em fevereiro de 2003 foi criada a Frente de Libertação de Darfur, transformada em Exército de Libertação do Sudão, que lançou uma ofensiva fulminante contra o governo com modernos Toyotas armados e uso de telefonia via satélite. Para recuperar o terreno perdido sem retirar tropas do sul, o governo deu carta branca às milícias tribais leais, os Janjawid, literalmente "cavaleiros do diabo armados de Kalachnikovs" (um fuzil russo). Os rebeldes se dividiram em dois movimentos rivais e perderam terreno, enquanto aldeias são destruídas.

Os EUA exigiram sanções contra o regime e o secretário geral da ONU, Kofi Annan, ameaça com uma intervenção internacional para evitar uma tragédia humanitária. Os países europeus se manifestaram favoravelmente, mas a China ameaça vetar uma resolução neste sentido. Vale lembrar que a China recebeu concessões do governo sudanês para explorar petróleo no sul da região de Darfur. Assim, mais uma crise internacional está emergindo num dos países mais pobres e sofridos da África.

 
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