Entre sucessos e revezes, a estratégia do governo Sharon parece demonstrar sua face "racional" e apontar para certa evolução. A política de máxima tensão, após quase quatro anos, parece ter chegado ao seu limite e, também, atingido parte de seus objetivos. A sociedade israelense está cansada, a economia encontra-se em dificuldade e o exército, os empresários e os sindicatos parecem dar mostras de descontentamento, enquanto as condenações mundiais contra Tel-aviv se avolumam. Por outro lado, a Segunda Intifada perde fôlego, os atentados suicidas se tornam raros com o avanço do muro e os palestinos rebelam-se contra a liderança de Arafat, política e fisicamente enfraquecido.
Sharon conseguiu reduzir a Autoridade Nacional Palestina (o proto-governo dos palestinos) a um organismo de vida quase latente e, com isto, criou uma base amplamente favorável para Israel negociar a paz, tendo praticamente inviabilizado os acordos anteriormente assinados. Mas os ataques aos assentamentos coloniais judaicos nos territórios ocupados, especialmente na faixa de Gaza, mostraram a inviabilidade da manutenção dos mesmos, devido ao alto custo de segurança. A sociedade parece desejar o fim de um sionismo romântico, inviável do ponto de vista geopolítico.
A retirada de Gaza aparece como a saída racional, especialmente depois das baixas militares e destruição de tanques israelenses. Mas isto fragiliza a base parlamentar de Sharon, com as ameaças de revolta dos colonos e saída dos partidos religiosos e ultra-direitistas da coalizão de governo. É então que o partido trabalhista, liderado por Shimon Peres, oferece apoio e negocia formar um bloco com o Likud para viabilizar a retirada de Gaza, também apoiada pelos EUA.
Ao mesmo tempo, a Suprema Corte de Israel obriga o governo a modificar o traçado do muro, condenando a recente e futura ocupação de terra palestina. O traçado do muro tende a ser trazido para perto da linha verde (a fronteira de 1949-1967), tornando-se uma espécie de nova fronteira para o futuro Estado Palestino, a ser criado em 2005. A condenação da construção do muro, feita pelo Tribunal Penal Internacional (Corte de Haia), parece ter repercutido profundamente em Israel e no mundo, levando este país a buscar legitimar-se através de concessões como a alteração do traçado.
A situação de Jerusalém oriental (árabe) permanece incerta e alguns blocos de colônias devem permanecer na Cisjordânia, em áreas a serem anexadas a Israel. Os protestos palestinos parecem inúteis sobre este último ponto. Por fim, a União Européia está exercendo pressão para que Arafat aceite uma reforma política que introduza estruturas de democracia liberal em seu governo, o que sempre foi uma reivindicação de Israel. Assim, apesar das aparências em contrário, a situação parece estar evoluindo e o processo de paz está se tornando possível, embora bastante desfigurado pela onda de violência dos últimos três anos e meio e pelas políticas de força.