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29 de junho de 2004

O Iraque e a devolução da soberania

Essa semana, no dia 28 de junho, as autoridades de ocupação americana no Iraque entregaram a soberania formal do país a um governo nacional, dissolvendo o Conselho (provisório) de Governo. Iyad Allawi, um líder escolhido pelos Estados Unidos, presidirá o país até a convocação de eleições gerais. O novo governo terá, teoricamente, poderes civis e autoridade sobre as embrionárias forças de segurança iraquianas, polícia e exército. Mas as tropas de ocupação continuarão sob comando americano. Assim, a nova realidade trará realmente estabilidade ao país?

O Conselho de Governo iraquiano, até agora, não obteve apoio e confiança da população, apesar desta estar ansiosa pela pacificação do país, após vinte e cinco de guerra, repressão interna e embargo internacional. O primeiro problema é que o grupo dirigente foi recrutado a partir de uma oposição fraca, dividida e alienada da vida política do país. Em segundo lugar, ele foi imposto pelas autoridades de ocupação. Em terceiro, as divergências dentro do grupo e de algumas personalidades com os EUA já afloraram, como no episódio do afastamento de Ahmed Chalabi, antes indicado e depois afastado pela Casa Branca.

Na nova fase que se avizinha, a resistência iraquiana tem concentrado seus ataques contra as novas forças de segurança, as novas autoridades e a infra-estrutura produtiva, tentando demonstrar que os novos dirigentes não terão meios para governar. Apesar de Allawi afirmar que derrotará os bem articulados partidários do regime de Saddam Hussein e os terroristas estrangeiros que se encontram no país, fica patente que ele não terá forças para isto e continuará dependendo das tropas americanas. Assim, os novos policiais e soldados iraquianos (que se alistam apenas devido ao desemprego existente) já estão desmoralizados e acossados, enquanto o governo será visto como um títere dos ocupantes.

Outro problema que emerge dia a dia é a fragmentação do país, pois cada etnia ou grupo político e religioso está buscando seus próprios interesses, sem que o governo tenha força para se impor, pois ele não surgiu de uma correlação de forças internas, mas de fora para dentro. Milícias armadas, chefes tribais, líderes religiosos, grupos criminosos e movimentos políticos constituem poderosas forças centrífugas que impedem a afirmação de um governo forte, que terá de negociar em cada ocasião. Como no Afeganistão, haverá um governo fraco mantido por forças estrangeiras, e grupos lutando pelo poder ou por autonomia frente ao centro. Pior ainda, a ONU e a comunidade internacional permanecerão observando a situação para ver se apóiam ou não a nova situação.

Então, por que Washington insistiu neste ato simbólico de devolução da soberania a um governo iraquiano? Neste ano eleitoral, em que uma vitória militar e a estabilização parecem impossíveis, é necessário criar fatos políticos que encenem certa normalidade e avanço, pois dia a dia cresce a impopularidade da guerra nos EUA (já considerada um erro, segundo pesquisas de opinião). Na verdade, a administração Bush simplesmente não sabe o que fazer, enquanto as ações terroristas crescem até na vizinha Arábia Saudita. Pior ainda, a resistência iraquiana, que tem certa dificuldade em causar um número elevado de baixas nas forças americanas, terá um inimigo interno frágil, fácil de humilhar e desmoralizar. Desta forma, a transferência de poder arrisca ser mais uma jogada mal estruturada, com resultados contrários ao planejado.

 
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