As eleições locais britânicas, celebradas em 10 de junho de 2004, representaram para os trabalhistas um dos maiores fiascos da história política daquele país. A insistência do primeiro ministro Blair em apoiar o presidente Bush no desencadeamento da guerra contra o Iraque (vale lembrar, sem o apoio da ONU), gerou um descontentamento popular imenso contra o Partido Trabalhista e teria conseqüências eleitorais. Mas cair para terceiro lugar, num sistema que era basicamente bipartidário, representa um fracasso sem precedentes. Então, se uma derrota era previsível, por que Blair insistiu na política da guerra?
Para compreender este caminho aparentemente suicida, é necessário entender o que é a Terceira Via, proposta por Blair e pela ala moderada que representa no Partido Trabalhista. Ele assumiu o poder em 1997, após quase duas décadas de governos conservadores (Thatcher e Major, de 1979 a 1997), que implantaram o neoliberalismo no reino Unido. Para fazer o labour voltar ao poder, Blair adotou um programa de continuidade nas questões essenciais, mas com uma postura mais transparente, dialogada e menos arrogante.
A frustração que certamente viria, devido à continuidade dos problemas sociais, não encontraria outra alternativa, pois os conservadores seriam ainda piores. Além disso, a falta de novas lideranças tories (conservadores), pois os candidatos foram ridículos, e o fato de seu espaço político estar ocupado pelos trabalhistas, fez com que o eleitorado seguisse votando no "moderno" Blair. Os liberal-democratas, a terceira força, era insignificante e ninguém conseguia saber qual era realmente o programa do partido, que buscava construir uma alternativa aos dois grandes, pois o voto distrital induz ao bipartidarismo.
Mas a desconsideração de Blair pela vontade da sociedade britânica de não ir à guerra, bem como as mentiras e manipulações empregadas para justificá-la, acabou irritando os normalmente pacatos cidadãos ingleses. O resultado não significa que os conservadores tenham crescido muito como alternativa. Sua votação não aumentou de forma expressiva. O que houve foi que muitos trabalhistas votaram nos inconsistentes liberal-democratas (como protesto ou alternativa possível) e outros tantos simplesmente deixaram de votar, em protesto contra a linha do partido.
No próximo ano haverá eleições gerais, se antes disso o governo não vier a cair, e Blair precisa mudar sua política ou pagar o preço que o governo Aznar pagou na Espanha. Mas o primeiro ministro não cansa de repetir clichês vazios como resposta: "A derrota deve-se à guerra, mas ainda acho que o mundo está mais seguro sem Saddam Hussein no poder". Ora, o dia a dia no Iraque contradiz a afirmação, que parece uma atitude autista, de alguém que se recusa a ver a realidade.
Algo que pode vir a ser decisivo será a posição do governo Blair quanto à Constituição da UE, a força de defesa européia independente da OTAN, a adesão ao Euro e um comportamento mais independente na política internacional. De um lado, os EUA pressionam por um alinhamento transatlântico e, por outro, a França e a Alemanha estendem a mão para que a Grã-Bretanha assuma seu lugar na integração européia, o que faria da UE uma força econômico-militar de primeira grandeza. Assim, não são poucas as decisões que pesam sobre os ombros de Blair. Se ele saberá ou não ouvir o recado das urnas (que provavelmente acabou com o bipartidarismo), é algo que logo saberemos. Ele poderá passar à história como um grande líder que levou a Inglaterra a superar a visão limitada herdada do passado ou como mais uma vítima de Saddam Hussein. E o pior cálculo, seria atrelar seu futuro às eleições americanas.