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08 de junho de 2004

A China quinze anos depois da repressão da
praça da paz celestial

Há quinze anos a República Popular da China (RPC) viveu um momento dramático, com a repressão dos manifestantes da Praça Tiananmen, ou da Paz Celestial. Na época, houve previsões alarmistas sobre o futuro do país, tanto no que se refere às reformas democráticas como ao desenvolvimento. Era a época em que se iniciava o colapso dos regimes comunistas no leste europeu, que culminaria com a queda do muro de Berlim. Mas a China sobreviveu a este difícil momento, como também à crise asiática de 1997. Mas afinal, objetivamente, o que ocorreu na Praça em maio-junho de 1989?

Uma mobilização popular múltipla emergia no país, como movimento contra a corrupção. Os ultra-reformistas do Partido Comunista, nucleados em torno do primeiro ministro Zhao Ziyang, procuraram capitalizá-la em sua luta contra os reformistas moderados ("conservadores"). Em abril de 1989, duzentos estudantes da Universidade de Pequim dirigiram-se para a Praça, durante os funerais do reformista Hu Yaobang. Este confronto ocorria durante as comemorações do Movimento de 4 de maio de 1919 e a simultânea visita de Gorbachov, que encerrava 30 anos de afastamento sino-soviético e motivava os reformistas radicais. Muitos dos estudantes haviam estudado nos EUA, na Europa e no Japão, como Liu Xiaobo, um dos líderes. Outro era o artista pop Hou Dejian, que havia trocado Taiwan pela RPC. Wang Dan, também um dos dirigentes, era um jovem estudante da Universidade de Pequim, que declarou desejar "implantar um sistema político ocidental".

Além de estudantes havia lojistas, trabalhadores e até funcionários públicos. A crítica à corrupção era o que unificava a todos, pois muitos se manifestavam contra as reformas econômicas, enquanto outros as apoiavam e reivindicavam reformas políticas. Houve mobilizações de simpatia em outras cidades, mas o campo permaneceu silencioso e pouco simpático ao movimento. A cobertura dos meios de comunicação estrangeiros (que enviaram dezenas de jornalistas), num momento de divisão e paralisia da cúpula partidária, apresentou o movimento à opinião mundial, exclusivamente como fenômeno de luta por uma democracia de tipo ocidental.

Os estudantes haviam feito reivindicações que estavam sendo negociadas e parcialmente atendidas, o que era uma novidade no país. Contudo, alentados pelo apoio da mídia ocidental, os estudantes a ampliaram suas demandas, exigindo uma democracia liberal (num país que não possui estruturas sociais para isso), colocando o regime numa situação que não seria tolerada por nenhum governo. Com o prolongamento do impasse e a divisão do Partido, Li Peng declarou a Lei Marcial em Pequim. Muitos estudantes começaram então a abandonar a Praça, mas foram substituídos por outros que chegavam de Hong Kong e outras partes.

Estudantes da Escola de Artes construíram então uma estátua, denominada Deusa Democracia, praticamente uma réplica da Estátua da Liberdade de Nova Iorque. Isto, mais a depredação do retrato de Mao, que se encontra na entrada da Cidade Proibida, deu aos que desejavam reprimir o movimento os pretextos de que necessitavam, além de afastar boa parte da população que simpatizava com os manifestantes. O exército recebeu ordens para desocupar a praça, e avançou sobre os manifestantes, reprimindo-os e colocando fim ao episódio. Mais de uma centena de manifestantes foram mortos em Pequim.

Zhao Ziyang foi demitido de suas funções, mas não expulso do Partido. Jiang Zemin, homem-forte de Xangai que conseguira resolver a crise em sua cidade sem um enfrentamento como o de Pequim, foi nomeado para seu posto. Li Peng, por sua vez, identificado com os repressores, não recebeu o reconhecimento que esperava. Quanto a Den Xiaoping, que atuara como árbitro e, finalmente, apoiou a repressão, passou a ser visto negativamente no ocidente, apesar de anunciar que as reformas prosseguiriam. Afinal, com a normalização americano-soviética, a China não era mais uma aliada interessante.

Cinco anos depois visitei a China pela primeira vez, numa missão acadêmica do Itamaraty. À noite caminhei com colegas até à gigantesca praça, com o coração acelerado e esperando ver uma área fortemente policiada. Mas havia somente casais de namorados e transeuntes. Numa segunda visita, vi milhares de chineses humildes, em filas que se formavam constantemente, entrando no mausoléu onde o corpo de Mao Tsé Tung se encontra num esquife de vidro. Éramos os únicos ocidentais e pessoas bem vestidas. Historiador de formação, percebi que a repressão de Tiananmen foi apenas mais uma das dezenas de tragédias da sociedade chinesa nos últimos duzentos anos, e não das mais importantes, e que o povo seguia reverenciando o "Grande Timoneiro".

A legitimidade do regime deriva especialmente da estabilidade e do crescimento econômico, que desde então fez com que 350 milhões de chineses saíssem da faixa de pobreza, segundo recente relatório da ONU. A democracia de tipo ocidental dificilmente será implantada no país, cuja cultura societária recusa a noção de indivíduo, básica para o liberalismo. Mas 900 mil aldeias (onde vivem dois terços da população) passaram a eleger seus prefeitos pelo voto direto e secreto, muitos dos quais não são do PC. O Partido, aliás, acaba de aceitar a adesão de empresários chineses, num hábil movimento de cooptação. O desenvolvimento baseado no mercado e o regime socialista continuam coexistindo, sendo a marca deste país gigantesco e pouco permeável à nossa lógica.

 
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