A Cúpula América Latina e Caribe - União Européia, recentemente realizada em Guadalajara, México, representou um evento de grande envergadura para a evolução das relações internacionais. A cooperação entre as duas regiões, a estratégia comum para o sistema mundial e a explicitação da posição político-diplomática de alguns atores foram o ponto alto da reunião. Da mesma forma, os encontros paralelos e bilaterais constituíram fatos políticos de primeira grandeza.
Mais uma vez, ambas regiões assinalaram o desejo de estabelecer uma Área de Livre Comércio entra a UE e o Mercosul, dentro do Acordo Marco assinado pelas duas regiões em dezembro de 1995. Há uma vontade política forte de avançar na liberalização comercial, já que outras formas de cooperação bi-regional já são bastante intensas. A associação entre as duas regiões é considerada como forte elemento de equilíbrio no contexto das negociações da ALCA. Em primeiro lugar, uma área de livre comércio entre UE e Mercosul seria baseada em negociações onde a dimensão social e política teria peso, e também implicaria na sobrevivência e reforço do Mercosul, que tenderia a desaparecer com a ALCA. No caso da UE, se trata de negociação bloco a bloco, enquanto que no caso da ALCA, temos uma negociação multilateral onde um dos atores é mais poderoso que todos os demais reunidos.
O México, por sua vez, demonstrou que a proximidade política em relação aos EUA, além da participação no NAFTA, são cada vez mais complicadas. O presidente Fox vem buscando maior autonomia frente aos Estados Unidos e no encontro assumiu o discurso europeu de apoio à multipolaridade e à agenda social. Por outro lado, as relações com Cuba foram normalizadas e no encontro Lula-Fox, foi acertada a associação do México ao Mercosul, com a possibilidade de adesão plena no futuro.
Do lado europeu, foi notável a ausência do britânico Blair e do italiano Berlusconi, aliados do presidente Bush no Iraque. O francês Chirac, o alemão Schroeder e o espanhol Zapatero, desta forma, lideraram o encontro, que estabeleceu um protagonismo diplomático e econômico renovado justamente na área de influência norte-americana. Estes líderes, juntamente com o comissário europeu Romano Prodi, destacaram seu integral apoio às organizações internacionais como atores privilegiados para a resolução dos grandes problemas atuais, contrariando a visão unilateralista de Washington. Particular atenção foi dada aos problemas sociais, considerados prioritários como forma de obter a estabilidade do mundo, o que representa um enfoque novo neste tipo de encontro internacional.
Todos destacaram a importância estratégica das Nações Unidas reformadas, com um Conselho de Segurança mais representativo. Neste aspecto, o chanceler alemão aproveitou o encontro para divulgar publicamente o desejo da Alemanha de obter um assento permanente no CS da ONU (como o Brasil), recebendo grande apoio dos países participantes. Assim, a III Cúpula foi um importante momento para a Europa ampliada, e particularmente para a Alemanha, se mostrar como ator de grande envergadura mundial, fortalecendo a nova tendência global das negociações entre blocos, o que reforça o papel da América Latina e, dentro dela, especialmente do Brasil.
A ausência de Fidel Castro e as críticas deste e de Chávez ao que chamaram de "conteúdo vazio" do encontro, foram o lado negativo. A atitude destes dois líderes se deve ao silêncio e à indiferença europeus e latino-americanos face à desestabilização externa que ambos estão sofrendo. Fidel e Chávez temem que seus países sejam utilizados como moeda de troca na relação entre América Latina e Europa de um lado, e Estados Unidos de outro. Para que Washington ceda em algum lugar (talvez no Iraque), é necessário que receba algo em troca em outro, especialmente se tiver repercussão nas eleições. A condenação de Cuba na ONU por supostas violações aos direitos humanos, exatamente no momento do escândalo das torturas americanas no Iraque, certamente estimula o apurado instinto de conservação do "comandante", que já sobreviveu quarenta e cinco anos.