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14 de maio de 2004

A tortura no Iraque

Um ano depois da guerra, a situação do Iraque está ainda mais complicada para os Estados Unidos, especialmente com a divulgação das fotos e depoimentos chocantes sobre a tortura de prisioneiros iraquianos por soldados americanos e ingleses. As imagens estão dominando a mídia ao redor do globo e reforçam o "inferno astral" de Bush.

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Os EUA não puderam comprovar as acusações utilizadas como pretexto para justificar a invasão do Iraque e, ao completar um ano da guerra, vêm surgindo novos problemas para a administração republicana. Em março o atentado de Madri evidenciou que o mundo não estava "mais seguro" devido à derrubada do regime de Saddam Hussein. Pior ainda, Aznar perdeu as eleições e o novo governo socialista retirou suas tropas do Iraque, iniciando um movimento de defecções na coalizão e reforçando o "eixo da paz" europeu (Paris-Berlim-Moscou).

Em abril o levante xiita no sul do Iraque somou-se à revolta dos partidários de Saddam e sunitas no centro, com as tropas americanas sendo expulsas de cinco cidades médias, em meio ao recrudescimento dos atentados. A reação americana tem produzido a unidade dos iraquianos (o que nem Saddam conseguiu) e a emergência de novas lideranças anti-americanas, precisamente na comunidade xiita, que os ocupantes esperavam contar como força aliada na construção de um novo regime. E em maio eclode o escândalo das torturas, logo após os EUA haverem logrado, finalmente, obter a condenação de Cuba na ONU por violação de direitos humanos. Ironicamente, o feitiço virou contra o feiticeiro...

Para o Pentágono, a tortura seria uma exceção, obra de poucos, agindo por conta própria, como o presidente invocou na defesa do secretário Rumsfeld. Alguns analistas, contudo, indicam que se trata de uma reação de tropas estressadas, de um exército de ocupação que não consegue dobrar a crescente resistência iraquiana. Outros creditam a culpa ao belicismo e arrogância que caracterizam o grupo que ocupa atualmente a Casa Branca. Mas situações como estas já ocorreram durante as guerras da Coréia e Vietnã, censuradas na época e depois reveladas.

Mas a naturalidade, a frieza premeditada e o sadismo empregados nas prisões iraquianas, distante de qualquer situação de combate, sugerem outra hipótese catalisadora, que não anula as anteriores, mas confere a elas um novo sentido. O prazer e a legitimidade expressos pelos torturadores evocam a barbárie dos campos de concentração nazistas, contra judeus, ciganos e eslavos. Os guardas SS acreditavam estar "limpando" a sociedade alemã de seres indesejáveis. E, nesse ponto, encontramos O choque de civilizações de Samuel Huntington, autor respeitado por muitos acadêmicos.

Como lembra Emmanuel Todd em Depois do Império (Ed. Record), um dos sintomas da crise americana é o declínio de seu universalismo cultural. O livro de Huntington (que acaba de lançar outro estigmatizando os latino-americanos), em lugar de uma análise científica, nos apresenta o imaginário do WASP (white, anglo-saxon, protestant) em declínio demográfico, que vê seu país invadido por aliens do Terceiro Mundo. Esta situação interna de estranhamento antropológico-cultural (crescente xenofobia e discriminação) é, na seqüência, projetada para o âmbito internacional, atingindo outros povos, especialmente árabes e muçulmanos.

O outro se torna estranho e incompreensível para a cultura americana, que sofre de uma espécie de síndrome do declínio do Império Romano. A visão de mundo da administração Bush não representa um acidente de percurso, mas o resultado de uma evolução, ou melhor, involução. Depois de cinco séculos, a migração do norte para o sul deu lugar a um fluxo contrário, devido à estagnação demográfica do Primeiro Mundo e o colapso do desenvolvimento no Terceiro. Assim, o Norte sente-se como uma fortaleza cercada, fecha suas fronteiras ao excesso de imigrantes e envia expedições punitivas às regiões que lhes escapam do controle, tentando, em vão, estabilizá-las. Portanto, é muito mais do que combater um povo que, supostamente, constituiria o caldo de cultura que teria originado o terrorismo universal.

Os árabe-muçulmanos ocupam uma posição geopolítica estratégica e sobre imensas reservas de petróleo, além de se encontrarem em pleno processo de modernização demográfica e educacional, isto é, redução do crescimento populacional e expansão da alfabetização, especialmente de mulheres. As estatísticas da ONU mostram uma realidade sociológica bem diferente do discurso vigente. Historicamente, os povos que atravessam esta transição vivem momentos turbulentos, como a Europa nos séculos XVI-XVII, com fanatismos e violências. Assim, a região e seus povos são percebidos como fatores de desordem e ameaça, o que se combina com o mal-estar que acompanha o retrocesso do universalismo americano e seus preconceitos antropológicos.

Evidentemente a revelação global da tortura praticada cotidianamente no Iraque, assim como no passado o escândalo Watergate, revela uma dura luta interna travada dentro da elite americana. É a conjuntura eleitoral que explica a amplitude das denúncias. Contudo, se a tortura reforça ainda mais a repugnância que os liberais americanos sentem por Bush e Rumsfeld, ela parece ter, até agora, um limitado impacto junto à massa nos EUA. Afinal, o democrata Kerry também tem de ser duro e inspirar segurança na nação, divergindo do adversário mais na forma que no conteúdo. Que não se tenham ilusões: trata-se de uma versão mais civilizada de Bush, não sendo previsível uma grande ruptura caso vença as eleições.

Porém se a denúncia das torturas não chega a reverter a percepção dos americanos, ainda sob o domínio da síndrome do 11 de setembro, sem dúvida reforça o anti-americanismo no mundo, que se expande e intensifica. E nem mesmo a situação no Iraque está garantida, pois, como afirmou um grupo de generais americanos, "vamos vencer as batalhas e perder a guerra". A advertência de Collin Powell, o único militar da cúpula dirigente americana, de que o custo da invasão e ocupação do Iraque superaria os ganhos, comprovou ser acertada.

O desgaste moral, por sua vez, não se restringe ao plano internacional, pois a censura, pressões e manipulações reforçam a divisão da sociedade americana. Não se pode revelar o número de mortos, fotografar os esquifes, denunciar o superfaturamento praticado no Iraque por empresas ligadas a membros da Casa Branca e ainda é dificultada a distribuição do filme de Michael Moore Farenheit 911, mostrando os vínculos econômicos entre as famílias Bush e Bin Laden.

Enfim, as imagens de iraquianos sendo torturados por americanos dentro das prisões utilizadas por Saddam para o mesmo fim, representam um duro golpe para a já desgastada legitimidade da "guerra ao terrorismo". Aliás, essa forma de tortura, com humilhação sexual, é pior que a morte para a cultura da região e o Ocidente, ao agir desta maneira, acaba por ressuscitar o passado histórico das Cruzadas no imaginário árabe-muçulmano. Ela fortalece a resistência, transformando-a numa luta de vida ou morte contra os que praticam tal humilhação e enfraquece os poucos aliados que Washington ainda tem na região. Se para vencer uma guerra é necessário conquistar corações e mentes, como se disse na época do Vietnã, as imagens da tortura e representam uma batalha perdida.

 
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