A expansão da União Européia ao leste europeu (Estônia, Letônia, Lituânia, Polônia, Hungria, Rep. Tcheca, Eslováquia e Eslovênia) e ao Mediterrâneo (Malta e sul do Chipre) tem despertado especulações entre os analistas. Uma das questões levantadas é que se trata de países pobres, que aumentariam o peso da agricultura na UE, além de atrair mais investimentos, o que prejudicaria duplamente a América Latina, particularmente o Mercosul. Outro argumento, em relação aos oito ex-comunistas do leste, é que se trata de países pró-americanos, três dos quais membros da OTAN desde 1999 e o restante recentemente aderidos a ela. Ambas questões sugeririam que o eixo franco-alemão, o núcleo duro da UE, se enfraqueceria econômica e politicamente com isto.
De fato, o nível de renda dos ex-países comunistas é mais baixo que o da Europa Ocidental, mas o forte de suas economias não é a agricultura, mas a indústria (fato que era destacado já na época do comunismo). A agricultura, inclusive, não terá os mesmos incentivos que no oeste, o que causou atritos durante as negociações para a adesão, e demandará muitos investimentos em capital e trabalho para atingir o padrão dos membros antigos. Além disso, trata-se de países de clima temperado para frio, com uma produção semelhante ao restante da União e diferente da América Latina (predominantemente tropical e subtropical).
Quanto aos investimentos, desde a época da Perestroika de Gorbachov e, especialmente, após o colapso dos regimes comunistas, os países da Europa ocidental (particularmente a Alemanha) já investiam maciçamente na região. O setor industrial, que já era forte na época socialista, foi adquirido por companhias ocidentais e integrado às cadeias produtivas da UE. Embora os novos Estados-membros não façam parte da zona do Euro, a moeda única européia circula correntemente nestes países, como antes o Marco alemão. Bruxelas, sem dúvida, deverá desembolsar mais recursos, mas num segundo momento a União sairá fortalecida com novos mercados e recursos naturais.
No que se refere ao "atlantismo" (ou americanismo) dos novos membros, é um problema real, na medida em que dá aos EUA uma maior influência dentro da Europa. Mas como membros da OTAN isto já acontecia anteriormente. Ao integrar-se na UE, estes países passam a sofrer maior influência européia, com o enfraquecimento ulterior de sua diplomacia pró-americana, que se devia tanto à busca de um aliado para se contrapor à Rússia como para integrar algum esquema de alianças. Trata-se de países periféricos que constituíam uma zona tampão, antes dominada pela URSS e agora pelo Ocidente.
Mas sem dúvida, estes países possuem uma cultura política e diplomática menos avançada, não conseguindo romper com uma espécie de "síndrome de satélite" em relação a alguma potência (a maioria apoiou o III Reich, depois foram integrados à URSS e agora associados aos EUA e à UE). A medida em que a segurança for garantida, a questão econômica ganhará mais relevância e, neste campo, Washington não pode concorrer com Bruxelas na região, pela simples falta de meios. A passagem da Espanha do "Eixo da guerra" (EUA e GB) para o "Eixo da paz" (Alemanha e França) ameaça levar a Polônia junto, e o agravamento da guerra no Iraque tende a arrastar outros países do leste na mesma direção. Vale lembrar que a OTAN encontra-se cindida desde o desencadeamento da guerra.
A discussão da constituição, da política externa e de defesa comuns e o novo mecanismo decisório da União Européia de 25 membros tende a ser mais complicada, mas o que Paris, Berlim e Londres acordarem (se isto ocorrer), será acatado pelos demais, ainda que a contra-gosto. O convívio institucional com a área mais avançada do continente elevará o nível da percepção política da região: mais autonomia em lugar de subserviência e uma economia mais voltada ao social e uma sociedade voltada à tolerância racial. Vale lembrar que quando o eleitorado britânico rejeitava a teses ultra-liberais de Margareth Thatcher, elas eram adotadas de forma ainda mais extrema por ex-comunistas ou sindicalistas de oposição (como o tristemente lembrado Lech Walesa) convertidos ao monetarismo, enquanto manifestações de anti-semitismo (do mesmo Walesa) e perseguição de minorias (como os ciganos) eram motivos de vergonha. Outro aprendizado será tratar a Rússia como aliado europeu, e não como inimigo. Enfim, uma fase de desafios e oportunidades.