A República do Chipre, que se encontra em vias de ingressar na União Européia, é um país dividido há exatamente trinta anos, com sua parte norte (40% dos 9 mil quilômetros quadrados) ocupada pela Turquia. Mas o ingresso na UE ainda está condicionado à assinatura de um acordo de pacificação proposto pelas Nações Unidas, que estabelece uma federação entre a parte greco-cipriota e a turco-cipriota.
A ilha, situada no Mediterrâneo oriental e povoada por gregos, foi ocupada pelos turcos em 1571. Estes introduziram colonos de origem turca e massacraram comunidades gregas, mas depois passaram a viver misturados entre eles. Em 1878 a Turquia cedeu a ilha à Inglaterra, e em 1931 teve início um movimento político em favor da enosis (anexação à Grécia, como ocorrera com a ilha de Creta em 1913), liderado pela Igreja Ortodoxa (cristã). Não sendo possível realizar tal objetivo (devido ao veto da Turquia), o movimento nacionalista EOKA passou a lutar pela independência, empregando táticas de guerrilha.
Em 1960 a ilha ficou independente, com o Arcebispo Makarios sendo eleito presidente, reeleito em 1968 e em 1973. Na época a população somava pouco mais de meio milhão, sendo 80% de origem grega e o restante turca. Os ingleses conservaram as bases militares deAkrotiri e Dhekhélia (até o presente), devido à posição estratégica da ilha, em frente do Líbano, Síria, Turquia e Israel. Makarios desenvolveu uma ativa diplomacia anti-colonialista dentro do Movimento dos Países Não-Alinhados (sendo chamado de "Fidel Castro do Mediterrâneo"). A relação entre as duas comunidades sempre foi complicada.
Em 1974 um grupo de oficias greco-cipriotas direitistas derrubou o governo, instigados pela Ditadura dos Coronéis da Grécia, com o objetivo de realizar a enosis. Quatro dias depois, 19 de julho, a Turquia invadiu o norte da ilha, ocupando 40% dela e expulsando 200 mil gregos para o sul. Ao mesmo tempo, o fracasso dos golpistas também ocasionou a queda da ditadura grega. Makarios retornou em dezembro e governou até sua morte, em 1977. Na parte turca, foi proclamada a República Turca do Norte do Chipre em 1983, comandada por Rauf Denktash, que somente foi reconhecida pela Turquia. Forças da ONU guardam até hoje a linha de cessar fogo, que divide o país e corta a capital, Nicósia, em duas partes.
A proporção da população total não se alterou, mas no norte os turco-cipriotas constituem hoje apenas metade do total, pois chegaram 40 mil imigrantes e 35 mil soldados da Turquia, enquanto 20 mil turco-cipriotas emigraram. A parte sul (greco-cipriota) enriqueceu, na medida em que substituiu o Líbano como centro financeiro nos anos 80, devido à guerra, além do incremento do turismo, do setor de serviços e da lavagem de dinheiro oriundo do leste europeu depois de 1989.
Nos anos 90 começou a discussão sobre o ingresso na União Européia, complicada pela divisão do país. Para que o norte, povoado por turcos, possa ingressar como parte do país, é necessária a reunificação sob a forma de uma federação. Para tanto, o Secretário Geral da ONU, Kofi Annan, negociou um acordo, que está dependendo de um plebiscito. O plano prevê certo recuo dos turcos (20% da população ocupando 40% do território). O governo do norte não deseja, mas a maioria da população sim, enquanto do lado greco-cipriota, muitos desejam recuperar suas propriedades no norte da ilha e criam impasses. Assim, este país estratégico, faltando apenas algumas semanas para a adesão à UE, ainda não conseguiu definir sua situação interna e se toda a ilha ou apenas sua parte sul ingressará como membro da União Européia.
Paulo Fagundes Vizentini