Outros artigos
12 de abril de 2004

A rebelião iraquiana e o fator xiita

Exatamente um ano após a derrubada de Saddam Hussein e de iniciada a ocupação do Iraque pela coalizão liderada pelos Estados Unidos, eclodiu a rebelião em larga escala, tendo os xiitas como protagonistas principais. Qual a profundidade do movimento, quais suas implicações e quais as alternativas que se abrem para as forças de ocupação?

Há um ano venho escrevendo artigos, muitos nesta coluna, argumentando que a mais importante força que viria a perturbar os norte-americanos e seus aliados não seriam os sunitas e os remanescentes do regime deposto, mas os xiitas, quando viessem a se organizar. No mesmo sentido, argumentei que a derrubada de Saddam (um ditador laico e "moderno") abriria caminho para as forças islâmicas, um perigo mais sério para os Estados Unidos. Não deixa de ser irônico ver os soldados americanos tendo de remover do mesmo pedestal de onde derrubaram a estátua de Hussein, retratos do líder xiita al-Sadr.

Oprimidos, desorganizados e divididos durante duas décadas, os xiitas iraquianos viram-se livres de Saddam (que deles desconfiava desde a Revolução do Irã) graças aos norte-americanos. Hoje eles se rebelam, pedem um Estado Islâmico e lutam lado a lado com os sunitas. Ambos são nacionalistas e não lhes agrada uma força de ocupação, um governo e um regime impostos pelo conquistador. Para surpresa geral as forças ocupantes são expulsas de várias cidades, cuja reconquista exige uma força desmedida que coloca os iraquianos moderados ao lado dos revoltosos, inclusive com a renúncia e o protesto de vários membros do governo provisório nomeado pelos próprios americanos. Também o novo exército iraquiano criado pelos americanos recusou-se a combater seus compatriotas e os habitantes da cercada cidade de Fallujah são considerados heróis.

Ora, nenhuma guerrilha, em princípio, pode vencer um exército regular superior. Mas pode tornar os custos políticos e militares do ocupante elevados demais. O impacto nas eleições americanas, nas eleições iraquianas projetadas e na solidez da aliança com países de segunda linha já são enormes, especialmente depois da decisão espanhola de retirar suas tropas caso não exista um mandato da ONU. A presença militar dos aliados americanos é apenas simbólica e sua real importância é político-diplomática, para provar que não se trata de uma ocupação exclusivamente americana (como também ocorreu nas guerras da Coréia e do Vietnã).

O seqüestro de estrangeiros agrava mais ainda o problema. Mas o pior é que o mito de que os iraquianos estão felizes com a nova situação, se desintegra completamente, gerando um forte impacto negativo para Washington junto à opinião mundial. Além disso, a ocupação está gerando algo que antes não havia: um sentimento de união entre os iraquianos. Mais ainda, os confrontos dão origem ao surgimento de novas lideranças, precisamente na direção contrária ao desejado pela administração Bush. Nenhum iraquiano que preze por seu futuro, desejará legitimar a ocupação, o que praticamente inviabiliza um governo nacional nos moldes desejados pela Casa Branca. Então, os EUA encontram-se num dilema: não podem permanecer indefinidamente no Iraque, mas igualmente dele não podem se retirar sem estabilizá-lo. O que fazer então?

Uma solução unicamente militar para a rebelião é impensável e um governo fantoche não parece ser suficiente. Por outro lado, frente aos crescentes custos militares e políticos, mesmo os mais fiéis aliados de Washington não parecem dispostos a manter suas posições, quanto mais lograr atrair outras nações para ajudar com dinheiro e tropas. Assim, é necessário negociar com os países do chamado "eixo da paz" (Rússia, França e Alemanha) e, com isto, desbloquear o mecanismo das Nações Unidas, que viriam jogar um papel com "ônus e bônus", isto é, auxiliando, mas detendo uma parcela de poder. Isto para os EUA poderem, futuramente, se desengajar com dignidade do atoleiro iraquiano. Todavia, a administração Republicana também pode adotar a política da avestruz, colocando a cabeça no buraco, fazendo de conta que nada está acontecendo, ao menos até a eleição presidencial. A aceleração dos acontecimentos e os problemas internos (depoimentos da assessora Condolezza Rice sobre o pré-11 de setembro), contudo, parecem indicar que a primeira opção seria mais racional. Mas neste caso a equipe Bush precisaria passar por cima do orgulho ferido e promover um recuo tático. É o que o mundo espera: que os EUA admitam seu erro de cálculo, para por auxiliar a resolver um problema que pode vir a ameaçar a todos.

Paulo Fagundes Vizentini


 
 » Conheça o Terra em outros países Resolução mínima de 800x600 © Copyright 2005, Terra Networks, S.A Proibida sua reprodução total ou parcial
  Anuncie  | Assine | Central de Assinante | Clube Terra | Fale com o Terra | Aviso Legal | Política de Privacidade