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5 de abril de 2004

A nova ampliação da Otan ao leste europeu

A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) incorporou no início de abril de 2004 sete novos membros, oriundos do antigo bloco comunista: Bulgária, Romênia, Eslovênia, Eslováquia e as três ex-repúblicas bálticas soviéticas, Lituânia, Letônia e Estônia. Este fato ocorre num momento delicado, quando crescem os desacordos entre os Estados Unidos de um lado, e a Rússia e países europeus como Alemanha e França de outro. A OTAN constitui um bloco militar criado pelos EUA em 1949, fase inicial da Guerra Fria, englobando igualmente Canadá e países da Europa Ocidental. Apresentado como "Escudo das Democracias" contra o comunismo soviético, todavia, o bloco teve no passado entre seus membros países com governos ditatoriais como Turquia e Grécia e, inclusive, um fascista, Portugal de Salazar.

Teoricamente criado para conter uma virtual expansão soviética, a OTAN representou sempre um instrumento imprescindível para a subordinação da Europa Ocidental por Washington. Tanto é assim, que o antagônico Pacto de Varsóvia (o bloco militar soviético) somente foi criado em 1956 (sete anos depois), como resposta ao ingresso da Alemanha Ocidental na OTAN. As tropas americanas estacionadas no velho continente, os sistemas de armas, o comando e os exercícios conjuntos foram um meio de solidificar a "aliança atlântica". Mas é importante ressaltar que a OTAN se definia como organização defensiva, agindo dentro do território dos Estados-membros para rechaçar uma possível invasão. Isto, até o fim da Guerra Fria.

Encerrada a Guerra Fria (aliança com Gorbachov em 1987-88), desaparecidos os regimes comunistas do leste europeu (1989) e dissolvidos o Pacto de Varsóvia e a própria União Soviética (1991), a Europa Ocidental questionou a necessidade da manutenção da OTAN, tendo em vista o desaparecimento dos adversários. Inclusive foi criada a brigada franco-alemã, como núcleo de um futuro exército europeu fora da OTAN, ou seja, sem EUA e Canadá. Contudo, a guerra da Iugoslávia foi explorada nos meios de comunicação (enquanto nada se fazia em termos práticos), como forma de criar insegurança junto à opinião pública européia e, por conseqüência, justificar a permanência do pacto militar. Astutamente, inclusive, o debate "manter ou extinguir a OTAN" foi substituído por "mantê-la como organização defensiva ou ampliá-la e torná-la uma organização ofensiva".

Em 1999, durante o cinqüentenário da Organização, a guerra do Kosovo e o conceito de "intervenção humanitária" permitiram reafirmá-la e expandi-la, com o ingresso da Polônia, República Tcheca e Hungria, ex-países comunistas. A Rússia, desde então, sentiu-se diretamente ameaçada, pois acredita que a expansão visa ocupar todos os países a oeste de sua fronteira, colocando-a numa posição indefesa. Mas a expansão representa também uma maneira de manter o controle sobre o núcleo duro da União Européia (França, Alemanha e, em certa medida, Inglaterra), impedindo que ela venha a criar uma força de defesa própria. Samuel Huntington diz explicitamente em seu Choque de civilizações que a OTAN é o principal instrumento do Ocidente e da supremacia dos EUA sobre este.

Daí as manifestações de incômodo de Washington cada vez que Bruxelas (sede da UE) tenta criar uma política externa e de defesa comuns, como ocorre agora na discussão da Constituição Européia, e especialmente com o possível estabelecimento de forças armadas européias autônomas. Inclusive o desenvolvimento de armamentos europeus têm sido criticados pela Casa Branca. A expansão da União Européia para o leste representa uma forma de compensar o alargamento da OTAN, criando alguma forma de solidariedade político-econômica com os novos membros para contornar o aumento da influência americana.

Ora, a OTAN dividiu-se em relação à guerra contra o Iraque em 2003 e ficou bloqueada, com o veto da França, Alemanha, Bélgica e Luxemburgo. Ao mesmo tempo se intensifica o debate sobre uma defesa européia autônoma, a União se expande a dez novos membros (cinco dos quais entraram para a OTAN) e o poder de Putin se consolida na Rússia, que se acerca da Europa nos campos diplomático, econômico e de defesa. Este é o contexto da expansão da OTAN, uma tentativa americana de evitar uma evolução indesejável, como foi exposto antes. Novos membros periféricos e dependentes serão, ao menos inicialmente, aliados americanos contra o centro europeu. Tanto é assim, que imediatamente o primeiro ministro alemão Schröeder foi a Moscou discutir com o presidente Putin as conseqüências decorrentes da nova situação.

Finalmente, cabe destacar que paralelamente a administração Bush tem feito apelos para que a OTAN se envolva como organização na guerra ao terrorismo, sob a forma de participação militar nas guerras do Afeganistão e Iraque, ou outras que venham a ser travadas no coração da Eurásia. Trata-se não apenas de dividir os custos da ocupação, mas de comprometer aliados cada vez mais vacilantes. A conseqüência tem sido o reforço da aliança entre a Rússia e a China e a cooperação destas com outros países asiáticos. Um jogo perigoso que não resolve os grandes problemas de segurança no mundo atual e cria mais tensão e um clima de desconfiança recíproca.

Paulo Fagundes Vizentini


 
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