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23 de março de 2004

A reeleição de Putin e a nova Rússia

A reeleição de Vladimir Putin à presidência da Rússia, no mesmo dia em que os socialistas espanhóis venceram, representa um motivo extra de preocupação para a Casa Branca, como declararam autoridades norte-americanas à imprensa. De fato, trata-se de mais um passo na construção do status de grande potência para o país herdeiro da ex-União Soviética, numa postura cada vez mais independente. O presidente russo tem sido acusado de autoritarismo e populismo, mas inegavelmente, como as eleições demonstraram, sua popularidade é grande e seu poder está consolidado. Mas afinal, qual é a essência do "fenômeno Putin"?

As instituições sócio-políticas da URSS, na época da Gorbachov (1985-1991), sofreram uma desagregação intensa que culminou com a inédita desintegração pacífica da segunda superpotência. Apesar de herdar o patrimônio nuclear e o status diplomático da URSS, a Rússia sofreu sobre a presidência Yeltsin uma forte regressão: o PIB caiu 50%, a taxa de mortalidade cresceu, a desordem administrativa, a violência e a proliferação de máfias se expandiram, juntamente com a pobreza e a perda de poder no plano internacional. Yeltsin e seu ministro das relações exteriores, Andrei Kozirev, apostavam numa aliança com os EUA e na atração de capital internacional, em meio ao traumático choque neoliberal, com uma radical onda de privatizações. A política externa russa limitou-se à Comunidade de Estados Independentes (CEI), que congrega as ex-Repúblicas soviéticas, exceto as bálticas.

Mas o sofrimento da população e a humilhação da perda de prestígio internacional (avanço da OTAN na Iugoslávia, anuncio do Escudo Anti-Mísseis por Clinton), aliada aos fracassos na guerra da Chechênia, levaram à primeira reação, a vitória do Partido Comunista da Federação Russa nas eleições legislativas de 1995. No ano seguinte Yeltsin, com seu agudo instinto de sobrevivência, nomeou Evgueni Primakov ministro do exterior e, em 1998, primeiro ministro. Primakov, um renomado acadêmico e ex-membro da KGB (polícia secreta soviética), defendia autonomia para a Rússia frente aos EUA e uma inflexão em direção à Ásia, particularmente uma aliança estratégica com a China.

Em 1999 a intervenção da OTAN no Kosovo acelerou a reorientação da Rússia. Yeltsin, contudo, tinha dois problemas adicionais: a provável abertura de investigações sobre enriquecimento ilícito, que poderiam levar ao seu impeachment, e o crescente prestígio de Primakov, que se candidatava com independência à sucessão de Yeltsin, prometendo combater a corrupção e reconstruir o país econômica e militarmente. Assim, Yeltsin demitiu-o e colocou o jovem Putin (também ex-agente da KGB) em seu lugar e, em 31 de dezembro de 1999, o alcoólatra, mas hábil presidente, renunciou, entregando o poder ao seu primeiro ministro, em troca de uma lei de imunidade para ele e seus familiares.

Assim, em março de 2000 o interino Putin foi eleito e passou a combater o caos administrativo (os governadores não obedeciam e as empresas sonegavam impostos), limitar o poder dos "barões das máfias", reconstruir as forças armadas e de segurança interna, disciplinar a justiça e a mídia (que estavam atreladas a poderosos grupos internos e externos) e estimular a economia produtiva. A política externa passou a adotar o conceito de interesse nacional e símbolos do passado soviético foram resgatados, como a bandeira vermelha para as forças armadas e a música do hino nacional, além da recuperação de monumentos.

Obviamente a oposição liberal perdeu espaço e foi cerceada, assim como os comunistas, pois grande parte de seu programa foi adotada por Putin. A disciplina interna e a recuperação do prestígio externo eram demandadas pela população, que retribuiu dando ao governo maioria na Duma (o parlamento). A economia voltou a crescer, bem como as exportações, e a dívida está sendo paga adiantada. O exército e a industria armamentista estão recebendo mais recursos e o país ampliou sua diplomacia em apoio à Alemanha e França (e também a cooperação econômica), que recusaram a agenda Bush.

Apesar do retrocesso sofrido, a Rússia possui uma população com elevado nível de escolaridade e tecnologia de ponta no setor aeroespacial, armamentista e grande avanço nas ciências exatas, uma herança da era soviética. Além disso, o país é o único que possui meios estratégicos para enfrentar os EUA (a China ainda não tem). Mas Moscou não deseja confronto com Washington, apenas a recuperação de seu poder e a construção de um sistema mundial multipolar. Contudo, a população não deseja uma volta ao passado soviético, embora hoje a avaliação sobre ele seja positiva. A democracia e a economia de mercado permanecerão, mas adaptadas ao estilo russo, com certo grau de centralização e intervenção, pois é o único meio do país funcionar, o que a população acha legítimo e necessário. A eliminação da pobreza pós-soviética levará tempo para ser erradicada e a auto-imagem da nova Rússia pode ser ilustrada pelo seguinte fato: o famoso monumento O operário e a Camponesa (de autoria de Vera Mukhina, 1937), da época stalinista, foi retirado para restauração e será colocado frente a um Shopping center! A Rússia de Putin é uma sociedade que necessita do seu passado para construir um futuro diferente, com uma posição importante no mundo.

Paulo Fagundes Vizentini


 
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