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17 de março de 2004

O terror na Europa e a Espanha pós-atentado

O trágico atentado terrorista ocorrido na Espanha em 11 de março, três dias antes das eleições gerais, marcou mais um avanço na escalada da violência global. Na conjuntura que antecedeu a guerra contra o Iraque, expliquei que uma das razões dos europeus serem reticentes em apoiar os Estados Unidos foi o fato de se encontrarem na fronteira com o mundo muçulmano, e de serem, portanto, mais vulneráveis, o que agora ficou evidente. Embora ainda não se tenham provas sobre a autoria do atentado aos trens de Madri, que fizeram duzentos mortos e mil e quatrocentos feridos, as evidências apontam para a rede Al-Qaeda.

A precisão e o simbolismo do mesmo indicam um trabalho paciente de infiltração, organização e a determinação em enviar um recado a um país que apoiou os EUA e mantém tropas no Iraque. O povo da Espanha, que se opôs à guerra, injustamente pagou pela insensatez do governo Aznar. Além disso, o Partido Popular, de centro-direita, agiu com leviandade ao tentar incriminar a organização basca ETA, sem provas e com fins meramente eleitorais. E pagou com uma inesperada derrota frente aos socialistas, o que muda a face da Espanha e, indiretamente, a correlação de forças dentro da União Européia.

Fiel defensora da política da administração Bush, a Espanha aliou-se à Polônia, Itália e Inglaterra, exercendo pressão contra o núcleo central da UE, Alemanha e França, enfraquecendo inclusive a construção de uma política externa e de defesa comuns, bem como o projeto de Constituição européia. Agora Varsóvia, Roma e Londres temem atentados e seus governos uma derrota eleitoral. O presidente da Comissão Européia, Romano Prodi, declarou que a "guerra ao terrorismo", promovida pela administração Bush, é um fracasso. E o atentado de Madri deve também ter efeitos sobre as eleições americanas, pois o novo governo espanhol já manifestou a intenção de retirar suas tropas do Iraque. Aliás, no mesmo dia em que os socialistas venciam na Espanha, o presidente Putin se reelegia na Rússia com larga vantagem, dois fatores de preocupação para a Casa Branca.

O atentado deve servir de catalisador para o avanço da política européia na busca por autonomia. Como disse, o continente é vulnerável, pois o estreito de Gibraltar, o sul da Itália, a Turquia e, de certa forma, o leste europeu, são portas de entrada para extremistas vindos do Oriente Médio. Centenas deles se misturam aos milhões de trabalhadores muçulmanos honestos, que buscam na Europa seu sustento, contribuindo enormemente para a construção da riqueza do continente. As manifestações de xenofobia que devem se desencadear, ou aprofundar, após o atentado, somente piorarão as coisas.

O atentado não foi tão massivo, espetacular e sangrento como o de Nova Iorque, mas cria uma insegurança muito maior, porque afeta o cotidiano de um continente (devido à vulnerabilidade da extensa infra-estrutura, e, indiretamente, prejudicará a economia. Trata-se apenas de mais uma batalha nesta longa guerra, que ainda está longe de seu final. Uma guerra que não terá vencedor e enfraquecerá ambos os lados, e que somente terminará quando as causas (e não os protagonistas) desaparecerem. Uma nova Espanha e, logo, uma nova Europa, devem emergir, mas em meio a um processo traumático, enquanto todos se perguntam: qual será o próximo alvo?

Paulo Fagundes Vizentini


 
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