O contínuo desenvolvimento econômico asiático sofreu em 1997 o forte impacto da crise financeira, que atingiu vários países e repercutiu na região como um todo. A chamada crise asiática teve antecedentes no Japão, que desde o final dos anos 80 conhecia dificuldades econômicas, e buscava cooperar com o continente para compensar seus crescentes problemas com os EUA. Em 1991 estourou a "bolha imobiliária", que produziu igualmente a explosão da "bolha financeira", devido à super-valorização de imóveis e terrenos que serviam de garantia aos empréstimos bancários. Para evitar a inflação, o governo bloqueou a oferta de dinheiro, condenando o país à estagnação. Ao mesmo tempo, vários bancos faliam, sem que o Estado pudesse socorrer a todos. A extensão dos empréstimos japoneses à Ásia oriental e sudeste, por sua vez, de certa forma regionalizou a crise japonesa. A crise se aprofunda, na medida em que o modelo somente funcionava na base de um acentuado crescimento econômico.
Tratava-se, no fundo, de um efeito da internacionalização da economia japonesa. Segundo Castells, "o MITI (o super-Ministério japonês da Indústria e Comércio Internacional) não exercia mais influência direta sobre as empresas japonesas, e elas, por sua vez, ao tomarem decisões estratégicas não priorizavam a estrutura dos interesses econômicos de seu país. O rompimento da interação sistêmica entre o Estado desenvolvimentista e as redes multinacionais japonesas introduz uma nova dinâmica no Japão e no mundo em geral".
No momento que a China começou a concretizar seu processo de reunificação (iniciado com a devolução de Hong Kong em 1997) e os Tigres tentavam consolidar seu desenvolvimento em moldes autônomos, prossegue a crise japonesa e, em seguida, ocorre o terremoto financeiro nos países mais vinculados e dependentes dos Estados Unidos (Tailândia, Indonésia e Coréia do Sul). Até o presente esta crise, apesar de haver reduzido inicialmente a produção, tem afetado especialmente o âmbito financeiro, com a desvalorização das moedas locais, o que permite ao capital estrangeiro adquirir empresas nacionais a um preço extremamente baixo. Além disso, intensificaram-se as pressões pela fragmentação da China (revivendo a questão do Tibet e de Taiwan) e contra a Indonésia, que acabaram derrubando o regime autoritário de Suharto. Neste último caso, o alvo visado era especialmente sua indústria automobilística e aeronáutica.
Desde o início da década, o Japão vive uma estagnação econômica e uma crise financeira intermitente, como foi visto. Os organismos internacionais recomendam reformas estruturais, que os sucessivos gabinetes não implementam e caem. Contudo, não se trata de incapacidade, mas de uma sutil resistência frente às pressões externas para abrir sua economia. Em resumo, é um discreto jogo de braço com os "aliados" americanos.
Os países mais afetados pela crise foram, contudo, os mais subemetidos aos EUA, seja por razões militares e estratégicas (Coréia do Sul), seja os de economia liberal, mais débeis e não dotados de projetos de desenvolvimento, como Tailândia e Filipinas. Dois países que tentaram resistir às investidas, primeiramente, políticas, depois, econômico-financeiras, das potências ocidentais capitaneadas por Washington foram a Indonésia e a Malásia. O primeiro não resistiu (vivendo um retrocesso social e caos político terríveis), mas o segundo regulamentou a saída de capitais e manteve-se. Outros dois países que o Ocidente não logrou subjugar politicamente para a agenda global foram o Camboja e o Myanmar.
O pivô é, evidentemente, a República Popular da China. O país não apenas continua afirmando sua inserção mundial soberana (com seu próprio projeto nacional), o caráter inegociável de suas instituições político-sociais internas, como mantendo sua moeda, o Yuan, frente ao dólar. Trata-se de um instrumento indispensável para a criação de uma moeda conversível. Mais importante, entretanto, é que a economia do país conseguiu crescer 8% em 1998 e em 1999, em plena crise asiática. Neste contexto, percebe-se que a estratégia da China é ganhar tempo, fortalecendo sua economia, tecnologia e forças armadas.Mais uma ou duas décadas seriam necessárias para o país consolidar-se internacionalmente de forma irreversível, afirmando paralelamente a criação de um mundo multipolar.
Muitas explicações técnicas, restritas exclusivamente ao âmbito financeiro, têm sido dadas à crise asiática. Mas são geralmente insuficientes. Um relatório do Banco Mundial de março de 1997 destacava a solidez e o dinamismo das economias asiáticas. O de outubro, da mesma organização, sinalizava suas "debilidades e distorções estruturais". Economistas como Krugman e o funcionário do FMI, Fischer, destacam a debilidade destas economias, enquanto outros, como Sachs e Stiglitz enfatizam sua solidez. Evidente que o padrão financeiro semelhante ao japonês tem sua parcela de responsabilidade pela crise.
Mas o paradigma japonês está presente igualmente de outra maneira: o capitalismo globalizado havia penetrado profundamente as economias locais, que ao se internacionalizarem, perdiam capacidade de agir autonomamente, com o Estado desenvolvimentista se enfraquecendo. Conforme Castells, "o sistema institucional que era fonte do milagre asiático, o Estado desenvolvimentista, tornou-se o obstáculo para o novo estágio de integração global e de desenvolvimento capitalista na economia asiática" (p.257). Ainda segundo este autor, a crise seria superada e a região voltaria a cresce (como está ocorrendo), só que sob a forma "capitalista".
Ora, embora não seja sua intenção, a tese do autor acaba reforçando a percepção de que a crise constitui uma estratégia de contenção do desenvolvimento asiático, ao menos em sua atual forma nacionalmente centrada. Abstraindo as explicações puramente técnicas, é interessante observar que a questão central é a contenção do desenvolvimento asiático, de forma a impedir a afirmação de um pólo competidor, a Ásia, e de uma virtual nova superpotência, a China. O fenômeno da fuga de capitais pode ser induzidos de distintas maneiras, e não ocorre sem que haja uma linha estratégica definida. Os próprios asiáticos têm demonstrado a percepção de que o alvo da crise é o seu desenvolvimento industrial e tecnológico autônomo.
Além dos artigos jornalísticos do Professor Krugman, capazes de contribuir para a eclosão de crises, empresas privadas de avaliação de risco, como a Moody's ou a Standard & Poor, deram o grito alarme que contribuiu para uma maciça fuga de capitais, fazendo desabar as bolsas de valores locais e gerando um contexto propício para a intervenção do FMI. Os programas propostos por este organismo, que acompanhavam os empréstimos emergenciais, configuram exatamente a estratégia referida por Castells para "reorientar" as economias asiáticas à globalização subordinada. Contudo, as diferenças de sistemas político-econômicos permitem que alguns países resistam ao assalto, enquanto outros sucumbem.
A crise ocorreu num contexto em que o desenvolvimento da Ásia-Pacífico tem se encaminhado para uma interiorização rumo ao continente e a seu centro, o que é particularmente visível não apenas pela intensificação das relações econômicas entre os próprios países asiáticos (e menos com as demais regiões do planeta), como pela redução das prerrogativas das Zonas Econômicas Especiais litorâneas da China (que, segundo o governo, já não necessitariam mais de incentivos especiais) e também pela abertura de novas ZEEs no interior do país. Este fenômeno resulta, entre outras coisas, numa progressiva redução da capacidade de controle da região pelos Estados Unidos, pois o sistema internacional anglo-saxão esteve historicamente assentado numa hegemonia exercida a partir dos mares.
Tal fenômeno estrutural torna-se ainda mais intenso pela constituição, na área, de uma espécie de simbiose entre formações estatais neocomunistas, ex-comunistas e anticomunistas, onde, apesar das complexidades regionais e especificidades nacionais, existe implicitamente um projeto estratégico que poderia vir a ser vitorioso no próximo século. Este projeto, como foi visto, é portador de respostas próprias para os desafios do desenvolvimento material, da governabilidade, da estabilidade social e de novas formas de regulação para a Terceira Revolução Industrial ou Científico-Tecnológica.
Isto não significa ignorar o potencial de instabilidade inerente ao chamado modelo asiático, nem desconsiderar que alguns de seus aspectos seriam inviáveis no longo prazo, como a universalização da sociedade de consumo de massa. A inserção do conjunto da população em uma economia moderna, entretanto, ajudaria a resolver o problema de demanda que se agudiza com o incremento da produtividade pela RCT, e que não pode ser solucionado no longo prazo pelos mecanismos de regulação neoliberais, devido ao elevado índice de exclusão social que produz.
É preciso também refletir sobre a região sem "olhos norte-americanos", que caracterizam a maioria das obras que circulam entre nós, mas a partir das percepções que a região possui de si mesma e de suas relações com o resto do mundo. Assim, enquanto o ex-assessor e diretor da CIA no governo Clinton, Anthony Lake, apregoa a necessidade de os EUA passarem do Containment da época da Guerra Fria ao Enlargement, os asiáticos estruturam conceitos como o de Comprehensive Security, defendendo o respeito aos projetos nacionais e a necessidade de estabilidade como forma de garantir o bem-estar de toda a sociedade.
Já a atual corrida armamentista (particularmente naval) na Ásia Oriental tem sido percebida de formas diferentes. Enquanto para o Ocidente esta corrida evidencia a ascensão da rivalidade e da desconfiança entre os Estados asiáticos, para muitos destes representa implicitamente a capacitação e modernização militar, como forma de dissuadir coletivamente possíveis ingerências extra-regionais contra sua soberania (conceito hoje desprezado no Ocidente, mas profundamente arraigado na Ásia).
Pode-se observar que a República Popular da China constitui o pivô de todas estas tendências. Desde a repressão da Praça da Paz Celestial, o Novo Segundo Mundo tem se consolidado de forma relativamente autônoma, e Pequim tem ampliado sua projeção sobre a antiga área de influência sínica. Neste processo, vem sendo importante a retomada dos princípios confucianos como instrumento de gestão política e social, tanto na China como nos países integrantes de seu universo cultural.
Fenômenos como o rearmamento do Japão ou a concretização da Zona de Livre Comércio da Ásia-Pacífico (que incluiria os EUA), anunciada para o início do próximo século, dependem do tratamento dado à projeção internacional da China. O problema é que Washington hoje considera o desenvolvimento econômico de países de dimensões continentais como uma ameaça ao exercício de sua liderança. Isto é ainda mais grave em relação à China, país que exibe uma postura diplomático-militar autônoma, afirmando com novos meios sua postura como Estado Westfaliano.
A Guerra ao Terrorismo, que os Estados Unidos desencadearam após os atentados de 11 de setembro de 2001, iniciou uma ampla intervenção na Ásia central e ocidental. A implantação americana no Afeganistão e no Iraque, bem como a presença militar parcial no Cáucaso e países das ex-repúblicas soviéticas da Ásia central, bem como a exploração da crise coreana e da luta contra ao terrorismo na linha que vai do sul das Filipinas até o Paquistão, evidencia o perfil da política externa do governo Bush para a Ásia. Parece clara a intenção de cravar uma cunha no coração geopolítico da Eurásia, dificultando a integração física da Rússia com a China. Esta denuncia discretamente o cerco estratégico que Washington deseja estabelecer, além da ameaça que paira quanto ao acesso ao petróleo da Ásia central por parte da China.
Através de "guerras teatrais" contra os debilitados países do chamado Eixo do Mal, conforme Emmanuel Todd, o que a administração Republicana busca é conter a formação de uma constelação de pólos de poder na Eurásia, capazes de contribuir para a formação de um sistema internacional multipolar. O desenvolvimento e a autonomia da Eurásia deixaria a América "marginalizada", uma vez que perderia sua posição de liderança junto à economia e ao sistema de segurança mundial. Daí manter-se uma situação de instabilidade permanente na região. Como os pólos de poder asiático estão reagindo? Com muita cautela. A Coréia do Sul tenta evitar uma escalada, mantendo negociações com o norte e, juntamente com o Japão e a China, tentando impedir uma ação americana.
A China, por sua vez, teve uma atuação discreta quanto à guerra contra o Iraque, evitando polemizar demasiadamente com os EUA. O intercâmbio econômico com Washington é vantajoso e Beijing necessita manter seu crescimento econômico ao menos por mais uma década. Ao mesmo tempo o Dragão chinês busca cada vez mais associar os vizinhos ao seu processo de desenvolvimento econômico, o que vem fazendo com sucesso, enquanto participa nas iniciativas regionais de cooperação, sejam econômicas, políticas ou de segurança, como no caso da ANSEA. Assim, a China vai se tornando o centro de gravidade da Ásia e, discretamente, participando de forma prudente mas segura na grande diplomacia mundial. Ela seguramente conformará um pólo de poder com alguns países vizinhos, num sistema internacional multipolar, regido por uma ONU redimensionada pelo novo equilíbrio de forças que se viria formar.
O Japão com os Tigres asiáticos, a Índia com a SAARC (South Asia Area of Regional Cooperation, além da Rússia com a CEI (Comunidade de Estados Independentes) seriam os outros pólos asiáticos. Dependendo da profundidade que a integração da ASEAN venha a alcançar, ela poderia desempenhar certo papel neste sentido. Fora da região, a União Européia, os EUA com o NAFTA, a África do Sul com a SADC (Southern Africa Development Coordination) e o Brasil com o Mercosul (talvez associado à Comunidade Andina numa área sul-americana de livre comércio) constituiriam os demais pólos. Apenas a situação do Oriente Médio continua fluída e incerta. Como se pode perceber, a Ásia concentraria a metade dos pólos de poder de um sistema de poder multipolar, evidenciando que a ascensão da região não seria apenas econômica, mas igualmente político-estratégica.
Paulo Fagundes Vizentini