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3 de março de 2004

Haiti: um novo "protetorado"?

A renúncia do presidente do Haiti, Jean Bertrand Aristide, dia 29 de fevereiro de 2004, representou um gesto inevitável. Cercado na capital e sem apoio internacional, sua resistência seria inútil e teria um custo social e político desastroso. Ao partir para o exílio, possivelmente na África, ele busca sobreviver (talvez até politicamente), deixando atrás de si um caos generalizado. Sua renúncia, contudo, resolve apenas parte do problema, pois, por um lado, seus partidários ficaram no país e precisarão lutar para sobreviver. Por outro lado, a oposição, a Plataforma Democrática, se mantinha unida contra Aristide, mas agora deve se dividir, pois é integrada por alguns ex-aliados do ex-presidente e membros ligados aos golpistas de 1991 e, mesmo, da ditadura da família Duvalier.

A decisão americana de enviar tropas de pacificação deve-se ao temor de uma onda de refugiados e ao uso do território haitiano por aviões do narcotráfico, em trânsito entre a Colômbia e os EUA. Um país sem exército, sem força aérea e com uma polícia rudimentar, não tinha condições de evitar este problema, fomentado pelos chefes políticos locais; um país sem governo, menos ainda. Mas Washington não gostava de Aristide, que era mais uma das vozes discordantes na América Latina e Caribe e, discretamente, sempre apoiaram sua saída, apesar dele haver sido eleito em 2000 com 91% dos votos.

A criminalização e o autoritarismo que tomaram conta do governo Aristide desde que voltou ao poder em 1994 foi mais decorrência das deficiências político-institucionais de uma sociedade fragmentada, do que de um programa político conscientemente construído para este fim. Num país onde o emprego formal é privilégio de poucos, a sobrevivência da maioria da população depende dos favores do governo, o que geram um sistema caracterizado pelo clientelismo. Além disso, muitos acusam Aristide de não haver sabido lidar com a antiga elite, que ficou fora do poder. Mas cabe uma pergunta: isto era possível? Creio ser mais difícil que os doze trabalhos de Hércules, especialmente sem ajuda internacional, num mundo onde todas as atenções são dirigidas à guerra ao terrorismo e aos orçamentos equilibrados.

O Haiti vai ser estabilizado? No curto prazo, a presença anunciada de tropas estrangeiras e a ajuda emergencial que deverá chegar, gerarão um alívio temporário. Mas não há indícios que exista um projeto de apoio ao desenvolvimento deste miserável país sem importância estratégica para a grande política mundial. Os problemas que geraram mais de trinta golpes de Estado e ditaduras sanguinárias persistirão, gerando futuramente novas ondas de instabilidade e erupção de violência. Além disso, criar um novo governo estável será tarefa quase impossível, como no Iraque, devido às rivalidades existentes entre os rebeldes e a falta de capacidade de coerção pelo Estado. Que ninguém se iluda: o conflito haitiano é travado por facções violentas, e é difícil identificar "mocinhos" e "bandidos".

Finalmente, embora outros países devam contribuir com tropas, os Estados Unidos deverão fornecer a maior parte dos soldados e dos recursos financeiros necessários, com o desgaste de patrulhar um país marcado pela violência e pela criminalidade. Se houver baixas americanas, logo os Democratas em campanha perguntarão: "quantos protetorados poderemos manter?" Um tratamento demasiado duro com os haitianos, por outro lado, teria reflexos junto à comunidade negra norte-americana. Enfim, se a comunidade internacional, através dos organismos multilaterais, tivesse se articulado com antecedência, muito desgaste poderia ter sido evitado.

Paulo Fagundes Vizentini


 
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