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25 de fevereiro de 2004

A crise do Haiti

A onda de violência que assola o Haiti se transformou em guerra civil, com os rebeldes controlando a metade norte do país e preparando-se para atacar a capital, Port-au-Prince. Os rebeldes exigem a renúncia do presidente Jean Bertrand Aristide, enquanto a comunidade internacional se mantém relativamente indiferente à sorte do país mais pobre da América Latina. Quais as razões, mediatas e imediatas, do atual conflito, e que desdobramentos pode vir a ter?

O Haiti, que se tornou independente através de uma revolta de escravos de origem africana, é um país dividido política e socialmente. Uma pequena elite mestiça tem sido detentora do poder político, que utilizou ao longo do tempo para tornar-se dominante economicamente. A massa da população, negra, viveu quase ininterruptamente numa miséria extrema e sujeita à constante repressão. O país já viveu diversas ondas de violência e intervenções norte-americanas. Foi os Estados Unidos que apoiou a instalação de Duvalier no poder em 1957, uma ditadura familiar ("Papa Doc" e, depois, "Baby Doc") que durou até 1987, quando foi derrubada por uma revolta popular.

Mas a infeliz massa haitiana não consegue criar estruturas políticas viáveis, devido à fragmentação e insuficiente desenvolvimento da sociedade, e, em seguida, a minoria volta a ocupar o poder, usando o exército e suas milícias para manter o terror sobre a população. Contudo, no contexto da onda democrática que acompanhou o fim da Guerra Fria, houve eleições livres no país em dezembro de 1990, com a esmagadora vitória de Jean Bretrand Aristide, um padre ligado à Teologia da Libertação. Teve início um governo reformista que, todavia, permaneceu no poder apenas de fevereiro a setembro de 1991, sendo derrubado pelo General Raoul Cedras.

O presidente seguiu para o exílio, enquanto seus seguidores eram perseguidos, mortos e suas organizações desmanteladas. A comunidade internacional decretou um embargo contra os novos donos do poder, que só fez aumentar a miséria, pois o regime sobreviveu estabelecendo uma aliança com o narcotráfico internacional, permitindo a utilização do seu território como rota para os EUA. Milhares de refugiados fugiam em pequenas embarcações para a Flórida, gerando uma crise que levou Clinton a agir. Depois de infindáveis gestões, apenas em outubro de 1994 uma força internacional, liderada por Washington, forçou os golpistas a entregar o poder e partir para o exílio. Aristide, que fora eleito para um mandato de cinco anos foi, contudo, pressionado pela Casa Branca a apenas completar o mandato vigente. Ou seja, governou apenas dois anos, e sem direito à reeleição.

Com seus partidários desorganizados e a maioria das lideranças mortas, a economia destroçada e a população desnutrida e sofrendo a rápida disseminação da AIDS, o governo foi totalmente dependente de ajuda externa, e suas políticas condicionadas a ela. O exército, fonte de instabilidade, foi dissolvido, restando apenas um corpo de polícia. Mas Aristide logrou eleger um aliado, Préval, que assumiu em fevereiro de 1996. Aristide se reapresentou como candidato a sucessão desse e, novamente, venceu, tomando posse em fevereiro de 2001. Então os problemas políticos aumentaram.

O novo governo Republicano de Bush não era simpático a Aristide, os membros da elite mulata desejavam recuperar o poder e parte da população afastou-se do governo, devido à falta de resultados sociais e econômicos. O governo é acusado de corrupção e incompetência pela oposição, mas isso tem sido a regra na história do país. Com um baixo nível de institucionalização existente, devido à fragilidade da sociedade haitiana, o exercício do poder conduz à centralização e a certo nível de autoritarismo e de práticas corruptas (o que, no caso de seus adversários, sempre foi muito mais forte). A sociedade logo se dividiu entre os partidários do Fanmi Lavalas, o partido de Aristide, e a Convergência Democrática que, apesar do nome, é integrada por elementos dos diversos governos ditatórias anteriores.

Louis Chamblain, homem de extrema-direita ligado ao General Cedras, retorna do exílio com armas e mercenários, dando coesão aos protestos. Com uma frágil polícia, o governo perde o controle do norte do pequeno país, tradicional bastião das forças conservadoras. Os pedidos de apoio internacional por Aristide estão sendo ignorados, enquanto os rebeldes preparam-se para tomar a capital e, pela segunda vez, derrubar o presidente. Os EUA desejam evitar um confronto de proporções, mas, discretamente, encaram a saída antecipada de Aristide, da mesma forma como em relação à Venezuela. A crise deverá ter um desfecho nas próximas semanas. Vale lembrar que o Haiti tem fronteira com a República Dominicana, está há poucos quilômetros de Cuba e não distante da Flórida, desfrutando de uma posição estratégica e podendo gerar instabilidade se a comunidade internacional continuar indiferente.

Paulo Fagundes Vizentini


 
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